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Experimentações e debates marcam primeiros dias da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Em 29º edição, Mostra de Cinema de Tiradentes injeta gás, inventividade e debate ao mercado de audiovisual nacional

Por Andre Guerra

Sessão de 'Papaya', que será exibido no Festival de Berlim, foi destaque do fim de semana

Desde o ano passado, dois eventos ocorrem ao mesmo tempo e impulsionam ainda mais a conversa sobre o audiovisual no Brasil: a presença em peso do país no Oscar e a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que segue com sua programação gratuita na cidade histórica de Minas Gerais até o dia 31 de janeiro.

Tradicionalmente, as indicações ao prêmio da Academia e esse evento - que abre oficialmente o calendário dos grandes festivais brasileiros de cinema - ocorrem no mesmo período. Porém, com toda essa movimentação internacional em torno do setor, os olhares sobre o que está acontecendo na Mostra tornam-se ainda mais atentos.

Em tempo: Tiradentes é um espaço bastante especial no cenário brasileiro de cinema porque, reconhecidamente, é onde praticamente todos os tipos de experimentações com a linguagem ganham protagonismo. Cineastas jovens testam estilos, mesclam gêneros, arriscam propostas, acertam, erram. Diferentes mostras paralelas abrem caminho para que variadas correntes, bagagens e temáticas ganhem seu devido destaque: desde a prestigiada Olhos Livres — considerada a competição principal de longas —, passando pela Autorias, que revela novos autores e invenções, até a mostra competitiva de curtas, intitulada Foco.

É nesse fluxo de ideias em constante incentivo que não apenas grandes diretores surgem. Em 2005, Kleber Mendonça Filho foi premiado na Mostra de Tiradentes com o Troféu Barroco pelo seu emblemático curta-metragem ‘Eletrodoméstica’ e, em 2008, lançou seu primeiro longa, o documentário ‘Crítico’, atual como nunca em suas discussões sobre a crítica cinematográfica.

O curta que abriu o festival este ano, 'O Fantasma da Ópera', de Júlio Bressane e Rodrigo Lima, é um bom exemplo desse incentivo à experimentação. O filme mostra, de maneira peculiar, os bastidores do próximo trabalho de Bressane, 'Pitico', com Paulo Betti, e revela o encantamento com truques e elementos cênicos que fazem parte da iconografia do autor lendário, que completa 80 anos em 13 de fevereiro.

Outro destaque do último fim de semana da Mostra foi a animação 'Papaya', dirigida por Priscilla Kellen, um dos filmes brasileiros selecionados para o Festival de Cinema de Berlim 2026. Na produção, uma semente de mamão é retratada como um bebê maravilhado com o mundo e, ao mesmo tempo, apavorado com a degradação ambiental.

Presenças marcantes movimentaram esses primeiros dias em Tiradentes também, sobretudo a homenageada Karine Teles, atriz conhecida por 'Que Horas Ela Volta?' e 'Bacurau'. Além da honraria, ela ainda teve o seu curta Romance, que assina como diretora, exibido na Mostra Homenagem. A artista protagoniza ainda outra sessão de destaque no evento: o suspense premiado 'Salve Rosa', de Susanna Lira, no qual contracena com Klara Castanho, que venceu o prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio.

Já Miguel Falabella marcou presença com o seu novo longa, 'Querido Mundo', dirigido em parceria com Hsu Chien. A comédia dramática foi exibida em sessão especial e aberta na Praça Largo das Feras e conta a história de uma mulher (Malu Galli, vencedora do prêmio de Melhor Atriz em Gramado) que fica presa, junto com seu vizinho (Eduardo Moscovis), nos escombros de um prédio após uma explosão.

A semana promete intensas discussões sobre regulamentação do streaming, incentivo à produção audiovisual e novas formas de consumo. O coração do debate cinematográfico brasileiro, neste momento, é Tiradentes. Está em boas mãos.