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Silva Barros dá protagonismo à percussão pernambucana em disco de estreia

A bateria do recifense Silva Barros conduz a narrativa do disco "Ponto de Fuga", que já está disponível nas plataformas digitais

Por Allan Lopes

Baterista recifense Silva Barros lançou seu primeiro trabalho "Ponto de Fuga"

Geralmente relegada ao segundo plano dos arranjos, a bateria ganha novo status no álbum “Ponto de Fuga”, do recifense Silva Barros, que já está disponível nas plataformas digitais. No disco, seu primeiro com o Silva Barros & Grupo, o instrumento é elevado à posição de condutor musical, estruturando harmonias a partir de uma perspectiva enraizada na cultura percussiva de Pernambuco, em um papel narrativo até então pouco explorado.

Porém, na trajetória de Silva, os instrumentos percussivos sempre foram protagonistas. Desde o xilofone de madeira da infância, a percussão já era sua primeira linguagem. As aulas de música instrumental aos sábados na Escola Municipal Florestan Fernandes, no Ibura de Baixo, apresentaram a ele a bateria. “Era algo que me realizava”, conta o baterista em entrevista ao Diario. Logo começou a tocar na banda do diretor da escola e, em seguida, foi conquistando espaço em outros grupos.

O divisor de águas para Silva enxergar a bateria como uma voz capaz de conduzir e narrar foi seu ingresso no Conservatório Pernambucano de Música, em 2015. Lá, sob a orientação do professor Hugo Medeiros, que já integrou o trio de jazz do pianista Amaro Freitas, ele aprendeu a compor a partir do instrumento. “Mudou completamente minha forma de pensar a bateria e a música”, relata.

Através do estudo de técnicas como a polirritmia, que é a sobreposição simultânea de dois ou mais ritmos distintos, o músico desenvolveu um conceito próprio de criação. “A relação entre o bumbo e a caixa, o grave e o agudo, é onde minhas composições muitas vezes começam”, explica.

Entre suas referências, que transitam da vanguarda à música contemporânea, destacam-se nomes como o pianista Shai Maestro, o baterista e compositor cubano Dafnis Prieto e o vibrafonista Joel Ross. No entanto, é o mestre pernambucano Moacir Santos sua maior inspiração. 'A maneira como ele trabalhava os grooves, adaptando claves afro-pernambucanas ao frevo e maracatu, é genial', exalta Silva.

Como ponto culminante dessa trajetória, “Ponto de Fuga” reflete autoralidade na forma e no conteúdo ao longo de sete faixas. O álbum se organiza em três movimentos formados pelas canções “Ponto de Fuga”, “Araripe” e “Chegada”.

A faixa-título, gestada na pandemia, oscila entre pulsos de tensão e alívio, inspirada nas reflexões durante a travessia entre Recife e o município de Bodocó, no Sertão do Araripe. “Araripe” é um baião que homenageia o sertão, enquanto "Chegada” é uma metáfora sobre chuva, renascimento e a chegada da filha Açucena, com participação de Sara Leandro.

Gravado no Estúdio Carranca, no Recife, em uma formação com o próprio Silva, Henrique Albino (sax tenor e flautas), Emerson Coelho (vibrafone) e Filipe de Lima (contrabaixo acústico), o disco não é apenas um marco na carreira de Silva, mas também a conquista de um homem negro do subúrbio que fez da bateria sua voz e da música, seu território.”É sobre poder levar adiante uma pesquisa musical séria, e talvez servir de referência para outros músicos, bateristas, que queiram ser criativos e compositores também”, celebra o baterista.