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Amaro Freitas, Criolo e Dino D’Santiago entrelaçam raízes em disco que celebra a ancestralidade negra

Nesta quinta-feira (15), Amaro Freitas, Criolo e Dino D’Santiago lançam disco que leva adiante parceria transformadora, unindo a imprevisibilidade de suas criações com suas jornadas pessoais

Por Andre Guerra

Amaro, Criolo e Dino se encontraram como irmãos de alma neste projeto

Quando a música é a principal ferramenta de comunicação entre três grandes artistas, não tem jeito. Uma combustão criativa é impulsionada pelo desejo de se fazer ouvir, de alcançar novos patamares harmônicos e, principalmente, de fazer justiça à sua história e ancestralidade. Esse encontro transformador aconteceu entre o cantor paulista Criolo, o pianista pernambucano Amaro Freitas e o compositor multiartista português Dino D’Santiago — e o resultado está refletido nas 12 faixas do disco Criolo, Amaro & Dino, disponível nas plataformas a partir desta quinta-feira (15).

Não havia, para eles, um grande plano comercial na agenda ou a urgência de um prazo que não fosse a própria alegria de estarem juntos, somando as suas sonoridades. Criolo foi responsável por mediar a primeira conversa do trio, em Lisboa, que geraria, de forma quase instintiva, o poderoso single “Esperança”, em 2024 — uma das mais cósmicas parcerias temático-melódicas ouvidas nos últimos anos. Indicada ao Grammy Latino, a canção seria apenas o começo de um diálogo tão pessoal quanto cheio de desdobramentos emocionais.

E assim começou o processo, que passou por gravações em Lisboa e teve sua gestão criativa atravessada por um período inspirador no Recife, terra de Amaro. Outras músicas foram gravadas no Rio de Janeiro, com Criolo e Dino, o que trouxe diferentes sabores e atmosferas que expressam a energia e a balada de cada um desses lugares. As diferentes formas de resistência, expressadas nas obras dos dois brasileiros e sobretudo no ativismo de Dino, são traduzidas por uma música tão contundente no seu discurso quanto iluminada em seu poder de embalo.

Em conversa exclusiva com o Diario, Amaro explica que a primeira parceria dos três foi apenas a semente de algo maior, que ainda está revelando novas formas a cada escuta. “Esperança foi como o primeiro toque na mão em um namoro, aquele momento mágico que é só o início de tanta intimidade ainda por desenvolver”, compara. “Tudo o que vivemos juntos ao longo desse período foi justamente o aprofundamento dessas nossas trocas e conversas. O disco, na verdade, é uma pequena amostra do enorme significado da relação construída entre a gente.”

No mesmo raciocínio, Criolo acrescenta que a junção imprevisível de ideias e batidas é o que responde pela riqueza do disco. “Quando nos encontramos, conseguimos enxergar algo maior, que sozinhos não vemos. Nossas visões, tanto sobre a música quanto sobre as semelhanças entre nossas trajetórias, batalhas e conquistas, compõem a complexidade e a diversidade desse disco”, destaca Criolo. “A gente ainda está no processo de entender como cada faixa virou o que é. Parte crucial disso é ver as músicas chegando às pessoas a partir de agora. Sem o público, tudo isso está incompleto.”

Da velocidade pernambucana de “Menina do Côco de Carité” ao balanço das sofisticadas batidas eletrônicas de “Anoitecer”, passando pela contagiante “Você Não Me Quis”, um dos maiores destaques do disco, Criolo, Amaro & Dino se revela, a cada canção, como uma crônica de algo maior: um diálogo entre irmãos de alma que, literal e simbolicamente, estão sempre chamando um ao outro. O amor ouvido no álbum, somado à maneira cheia de satisfação com que eles se referem aos seus parceiros musicais, denota que este projeto pode ser muito mais do que um olhar íntimo na direção de seus passados, configurando-se também como uma projeção carregada de sentimento e vontade de fazer a diferença em relação ao futuro.