Tradição do reisado é tema de exposição de foto na Arte Plural, no Bairro do Recife
"Espelho de Brincantes", da artista Juliana Souto, registra o legado de Dona Zefinha, João Tibúrcio e Luiz Gonzaga de Lima no reisado de Garanhuns
Como a arte visual pode espelhar e celebrar a tradição? A resposta vem de Garanhuns, terra do reisado, e chega ao Recife na exposição "Espelho de Brincantes". A artista Juliana Souto direcionou suas lentes para Dona Zefinha e aos saudosos mestres João Tibúrcio e Luiz Gonzaga de Lima, três guardiões dessa manifestação cultural no Agreste pernambucano desde a década de 1950.
O resultado desse encontro poderá ser visto a partir desta terça-feira, às 18h, na Arte Plural Galeria, localizada no Bairro do Recife. A visitação, que é gratuita, segue até 7 de fevereiro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h e sábado, das 14h às 18h.
No reisado, os mestres são os responsáveis por conduzir o grupo, preservar e transmitir os saberes culturais, que incluem música, dança, teatro e religiosidade. No entanto, em vez de adotar uma abordagem puramente documental, Juliana os transfigura. Seu Gonzaga, Dona Zefinha e Seu Tibúrcio transcendem suas identidades de líderes culturais para se tornarem figuras míticas.
“Dessa forma, consigo dar um destaque maior para a riqueza das indumentárias e dos próprios personagens”, explica a artista em conversa com o Diario. Ela conta com a colaboração de Joana D’Arc Lima, na curadoria, e Edvania Kehrle, na pesquisa histórica.
Retratados em seus trajes típicos, os mestres aparecem nas telas (1m x 0,80m) inseridos em uma atmosfera onírica, construída por Juliana a partir de uma paleta de rosas. Sem que fosse planejado, as imagens parecem antecipar o plano simbólico onde Seu Gonzaga, eternizado no Reisado do Mestre João Tibúrcio, e Seu Tibúrcio agora habitam, após seus falecimentos.
Tibúrcio, ainda em vida, pôde visitar e se comover com a mostra no Sesc Garanhuns. “Eu mesma me emocionei bastante, pois estava montando um vídeo novo para essa exposição e revi muitas imagens que fiz deles”, relembra.
Como a primeira mulher a comandar um reisado, Dona Zefinha consolidou um marco na história da tradição em Garanhuns. Sua atuação afirma a presença feminina em uma manifestação que, por muito tempo, limitou as mulheres a funções secundárias ou as manteve invisibilizadas. “Uma coisa muito especial em relação ao trabalho dela é que ela mesma confecciona os figurinos. Então, dos três, acho que o figurino com mais riqueza de detalhes e acabamento é o da Dona Zefinha”, aponta Juliana.
A ligação da artista com o reisado vem de berço. Seu avô paterno, falecido quando ela era criança, costumava ir a Garanhuns no Natal para fotografar os reisados e, depois, apresentar seu registro à família. Agora, décadas depois, é a neta quem assume o papel de guardiã da memória, não apenas registrando a tradição, mas também a levando ao público da capital. “É uma forma de permitir que mais pessoas possam conhecer de perto a riqueza do reisado”, ressalta.