Com sessões no Recife, nova montagem de "O Auto da Compadecida" atualiza texto de Ariano Suassuna
: Peça "Auto da Compadecida - Uma Farsa Modernesca" adapta texto mais célebre de Ariano Suassuna, abrindo as celebrações do centenário do autor, que será comemorado em 2027
Décadas antes de ser imortalizada no cinema em 2000, a história de João Grilo e Chicó já arrancava aplausos no teatro. Os personagens protagonizam "O Auto da Compadecida", obra-prima de Ariano Suassuna, que estreou em 1956, no Teatro de Santa Isabel, ainda como "A Compadecida". Nesta sexta-feira (9) e sábado (10), sempre às 20h, o mesmo espaço recebe uma montagem mais moderna da peça, em homenagem à Socorro Raposo, que foi a primeira e mais longeva intérprete da Compadecida, a quem deu vida também na aclamada adaptação dirigida por Marco Camarotti em 1991.
Intitulada “Auto da Compadecida - Uma Farsa Modernesca”, a nova montagem faz parte do Janeiro de Grandes Espetáculos, contando com mais cinco sessões em locais diferentes até o fim do festival. O projeto antecipa as comemorações do centenário de Suassuna, que acontecerá em 2027, misturando o universo da cultura popular com o teatro contemporâneo para narrar as confusões picarescas em Taperoá.
O grande destaque é o retorno da dupla Sóstenes Vidal e Williams Santanna aos emblemáticos papéis de João Grilo e Chicó, que foram imortalizados especialmente na clássica montagem de Camarotti. “A química é tão afinada que basta uma ação física em cena para que o outro complete”, exalta Williams em conversa com o Diario.
A direção fica a cargo de Eron Villar e Célio Pontes, cujas pesquisas artísticas exploram a intersemiótica e a interatividade. A montagem mantém o gênero farsesco e os elementos de moralidade para extrair uma crítica social atualizada por meio de questões que dialogam diretamente com o contexto político-social contemporâneo. Em linha com essa proposta, a peça estabelece uma relação estreita com o público, que, no terceiro ato, assume um lugar ativo e simbólico durante o julgamento das personagens, contribuindo para a democratização da narrativa.
Williams antecipa que esta será uma montagem distinta daquela de 1991, com um elenco renovado que aporta novos repertórios e camadas de sentido à obra. “O público vai encontrar o texto de Ariano Suassuna, escrito em 1955, mas vivido de maneira própria e peculiar, a partir do olhar desses dois encenadores vigorosos, criativos e generosos. Acredito que será uma relação muito insurgente e satisfatória com o público”, destaca o ator.
Seja nos palcos ou nas telonas, o sucesso de cada remontagem da saga de João Grilo e Chicó tem uma razão de ser. A obra captura, com humor e sagacidade, os mecanismos mais duros e reais da sociedade brasileira. “A obra dialoga com a distribuição perversa de riqueza no país, com a hipocrisia de figuras que ocupam lugares de autoridade e com o drible permanente que somos obrigados a dar na vida para sobreviver”, reflete Williams. Assim, surge a resiliência que ressoa no público. “Ainda assim, buscamos a alegria, driblamos essas ameaças e seguimos vivendo, tentando ser felizes e alcançar nossos objetivos”.
MAIS SESSÕES
Após as apresentações deste fim de semana no Santa Isabel, onde os ingressos custam R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia), “Auto da Compadecida - Uma Farsa Modernesca” vai subir ao palco do Cineteatro Samuel Campelo, em Jaboatão dos Guararapes nos dias 28 e 29 deste mês, com ingressos a R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Na sequência, retorna ao Recife com duas sessões no Teatro do Parque nos dias 30 e 31 deste mês, com ingressos custando R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia). A temporada da peça no Janeiro de Grandes Espetáculos se encerra no Sesc Ler Goiana no dia 3 de fevereiro, com ingressos a R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).