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Linhas, cortes e tensões são tema de exposição de Lua Lim no Recife

A artista pernambucana Lua Lim abre a exposição "O Que Me Faz Partir" no Mamam, destacando o diálogo entre a arte têxtil e os objetos afiados que entrelaçam a vida

Por Andre Guerra

Lua Lim investiga múltiplas camadas do desejo através de arte têxtil e objetos cortantes

Identificar-se como artista foi o primeiro passo da jornada de Lua Lim para abraçar por completo os sentidos e os limites simbólicos do seu trabalho. Formada em design de interiores em 2018, a pernambucana vem se dedicando a compreender a potencialidade dos objetos que permeiam seu cotidiano. Sua pesquisa levou à criação da exposição individual “O Que Me Faz Partir”, debruçada sobre um conjunto de instalações que refletem o desejo como pulsão de vida, através de seus cortes e tensões.

A mostra estará disponível no segundo andar do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam) a partir deste sábado (10), às 15h, e segue aberta para visitação — de quarta a sexta (10h às 17h) e sábados e domingos (10h às 16h) — até 29 de março.

Com vermelhos intensos misturados a formas afiadas que solidificam a maleabilidade do tecido, o projeto de Lua concilia a minúcia e a delicadeza das linhas de costura com a incisividade dos instrumentos perfurantes. Arames, lâminas, punhais e serrotes tensionam a natureza leve do bordado, explorando a ambiguidade entre a entrega do corpo e o destemor diante das dores da vida. Frequentemente, na exposição, as duas coisas se misturam e ganham novos significados, conforme a bagagem que o visitante traz consigo.

Em entrevista ao Diario, Lua destaca que se entender como criadora foi essencial para sua obra fluir. “Passei a aceitar os objetos que me rodeiam pelo que eles são, a encarar a essência das coisas, sentir antes de racionalizar. Primeiro eu me dedico à criação e só depois tento entender melhor”, explica. “Meu processo de identificação enquanto artista, que aconteceu ao final da faculdade, foi central nisso. Recebo as coisas brutas mesmo e aprendi a trabalhar com elas a partir da minha própria vivência, construindo a minha arte”, acrescenta.

Após estrear oficialmente em 2024 com a individual “O Processo de Sobrevivência Me Torna a Língua Gentil” e ter desenvolvido temas como sexualidade e desejo em suas múltiplas semânticas, também por meio da tecelagem em instalações sensoriais, Lua mergulhou completamente nas obras da exposição, concluídas à mão em cerca de dois meses.

A curadora Olívia Mindêlo comenta ainda sobre a complexidade da pesquisa. “Ela foi trazendo mais materiais para essa pesquisa e expandindo a relação entre o têxtil e os metais. O desejo é algo muito importante dentro desse projeto, mas é também pensado como um campo polissêmico: a sexualidade é importante, mas o vermelho e os cortes denotam também a ideia do agir no mundo, agir sobre as coisas”, aponta. “É um trabalho muito gestual e performático o que ela faz, que envolve o corpo e abre espaço para diversas possibilidades”, diz.

Lua Lim destaca que colocar a mão na massa e moldar esses objetos à sua própria maneira tem sido sua principal fonte de inspiração pessoal e artística. “O fazer é muito importante para mim, e bastante desafiador também. Estou investigando várias tensões, cortes e vontades com ‘O Que Me Faz Partir’, e acho que essa exposição reflete exatamente quem eu sou: essa linha vermelha pelo mundo cortante, buscando me encontrar”, conclui a artista.