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Há 50 anos, Carnaval de Boa Viagem nascia e inaugurava modelo de folia de rua com shows no Recife

Há 50 anos, a Banda de Pau e Corda dava início ao que se tornaria o Carnaval de Boa Viagem, tornando-se um dos polos mais populares da folia pernambucana até 2001, quando foi extinto.

Por Camila Estephania

O Galo da Madrugada fez uma passagem pelo Carnaval de Boa Viagem de 1988.

Quem vê hoje os grandes shows de carnaval no palco do Marco Zero não imagina que, até 1976, a folia do Recife se dividia apenas entre apresentações de agremiações pelo Centro da Cidade e festas em clubes sociais. Os foliões mais afortunados que frequentavam esses últimos espaços também assistiam artistas do Brasil todo cantar frevo e, assim como nas ruas, o ritmo sempre era executado por grandes orquestras. Com formação diferente, novos cantores e grupos pernambucanos interessados no frevo surgiram nessa época trazendo consigo um desafio: onde poderiam tocar seu repertório de frevos?

Há 50 anos, a Banda de Pau e Corda deu o primeiro passo para resolver o impasse quando tomou a iniciativa de organizar um palanque em frente ao Edifício Acaiaca, dando origem ao que veio a se tornar o gigantesco Carnaval de Boa Viagem. “Foi uma ideia meio louca, porque na época não existia essa ideia de polos, era uma coisa muito difícil de fazer e a gente não sabia quem ia pagar”, lembra Sérgio Andrade, vocalista do grupo, hoje com 70 anos de idade.

Chiquinho Araújo, dono das Casas José Araújo, entretanto, gostou da proposta e topou patrocinar a empreitada do conjunto, que teve ainda apoio logístico da Prefeitura do Recife, através da Emetur, e divulgação da Rede Globo. Não era uma aposta no escuro, já que a Banda de Pau e Corda vinha fazendo sucesso desde o lançamento do seu primeiro disco, intitulado “Vivência” (1973), contando com frevos autorais, como “Alegoria”, e a segunda gravação do clássico “Voltei Recife”, de Luiz Bandeira. Tanto é que o grupo encontrou o local cheio já no sábado de Zé Pereira, repetindo a dose em todos os outros dias de carnaval.

A partir de então, o Carnaval de Boa Viagem foi crescendo ao longo dos anos, de modo que várias empresas passaram a investir na folia do bairro, instalando mais palcos e levando trios elétricos para o local. Esse formato deu abertura para que outros projetos, como a Turma do Pinguim, de Almir Rouche, e o Asas da América, de Carlos Fernando, também tivessem espaço nas programações de carnaval e fizessem história inovando o frevo. A lista de artistas que se apresentavam no polo ainda segue com André Rio, Marrom Brasileiro, Nena Queiroga e Alceu Valença. Até mesmo o Maestro Spok estreou no carnaval tocando em Boa Viagem ao lado da Banda de Pau e Corda, na década de 1980.

“O Carnaval de Boa Viagem e a Banda de Pau e Corda representaram novas possibilidades e caminhos de interpretar o frevo, porque saímos um pouco do perfil dos cantores do rádio e das orquestras, passando a inserir a festa em outros formatos. Isso também reforçou a difusão do frevo, pois outras bandas passaram a incluir o ritmo no repertório, diferente de antigamente que era preciso uma orquestra inteira para tocar o ritmo”, observa Sérgio.

Em fevereiro de 1994, como comprovação do sucesso do modelo, o Diario publicou uma pesquisa feita pelo DP-Arconsult indicando que 39% dos recifenses que passariam o Carnaval na capital pernambucana preferiam a folia de Boa Viagem. O Centro da Cidade, por sua vez, ficou em segundo lugar, com 26% dos votos.

Na mesma década de 1990, porém, a ampla participação de artistas da música baiana também dividiu a opinião da população e do poder público, levando ao fim do polo em 2001. A partir de então, passou a vigorar o modelo de polos descentralizados, com os principais shows concentrados no Marco Zero. “Com o tempo, o Carnaval de Boa Viagem ficou imenso e a Prefeitura do Recife passou a controlar tudo, a gente já não tinha mais a gerência, mas foi uma semente que a gente plantou e até hoje a gente vê esse modelo das pessoas assistirem shows de carnaval gratuitamente”, comemora Sérgio.