Há 50 anos, Carnaval de Boa Viagem nascia e inaugurava modelo de folia de rua com shows no Recife
Há 50 anos, a Banda de Pau e Corda dava início ao que se tornaria o Carnaval de Boa Viagem, tornando-se um dos polos mais populares da folia pernambucana até 2001, quando foi extinto.
Quem vê hoje os grandes shows de carnaval no palco do Marco Zero não imagina que, até 1976, a folia do Recife se dividia apenas entre apresentações de agremiações pelo Centro da Cidade e festas em clubes sociais. Os foliões mais afortunados que frequentavam esses últimos espaços também assistiam artistas do Brasil todo cantar frevo e, assim como nas ruas, o ritmo sempre era executado por grandes orquestras. Com formação diferente, novos cantores e grupos pernambucanos interessados no frevo surgiram nessa época trazendo consigo um desafio: onde poderiam tocar seu repertório de frevos?
Há 50 anos, a Banda de Pau e Corda deu o primeiro passo para resolver o impasse quando tomou a iniciativa de organizar um palanque em frente ao Edifício Acaiaca, dando origem ao que veio a se tornar o gigantesco Carnaval de Boa Viagem. “Foi uma ideia meio louca, porque na época não existia essa ideia de polos, era uma coisa muito difícil de fazer e a gente não sabia quem ia pagar”, lembra Sérgio Andrade, vocalista do grupo, hoje com 70 anos de idade.
Chiquinho Araújo, dono das Casas José Araújo, entretanto, gostou da proposta e topou patrocinar a empreitada do conjunto, que teve ainda apoio logístico da Prefeitura do Recife, através da Emetur, e divulgação da Rede Globo. Não era uma aposta no escuro, já que a Banda de Pau e Corda vinha fazendo sucesso desde o lançamento do seu primeiro disco, intitulado “Vivência” (1973), contando com frevos autorais, como “Alegoria”, e a segunda gravação do clássico “Voltei Recife”, de Luiz Bandeira. Tanto é que o grupo encontrou o local cheio já no sábado de Zé Pereira, repetindo a dose em todos os outros dias de carnaval.
A partir de então, o Carnaval de Boa Viagem foi crescendo ao longo dos anos, de modo que várias empresas passaram a investir na folia do bairro, instalando mais palcos e levando trios elétricos para o local. Esse formato deu abertura para que outros projetos, como a Turma do Pinguim, de Almir Rouche, e o Asas da América, de Carlos Fernando, também tivessem espaço nas programações de carnaval e fizessem história inovando o frevo. A lista de artistas que se apresentavam no polo ainda segue com André Rio, Marrom Brasileiro, Nena Queiroga e Alceu Valença. Até mesmo o Maestro Spok estreou no carnaval tocando em Boa Viagem ao lado da Banda de Pau e Corda, na década de 1980.
“O Carnaval de Boa Viagem e a Banda de Pau e Corda representaram novas possibilidades e caminhos de interpretar o frevo, porque saímos um pouco do perfil dos cantores do rádio e das orquestras, passando a inserir a festa em outros formatos. Isso também reforçou a difusão do frevo, pois outras bandas passaram a incluir o ritmo no repertório, diferente de antigamente que era preciso uma orquestra inteira para tocar o ritmo”, observa Sérgio.
Em fevereiro de 1994, como comprovação do sucesso do modelo, o Diario publicou uma pesquisa feita pelo DP-Arconsult indicando que 39% dos recifenses que passariam o Carnaval na capital pernambucana preferiam a folia de Boa Viagem. O Centro da Cidade, por sua vez, ficou em segundo lugar, com 26% dos votos.
Na mesma década de 1990, porém, a ampla participação de artistas da música baiana também dividiu a opinião da população e do poder público, levando ao fim do polo em 2001. A partir de então, passou a vigorar o modelo de polos descentralizados, com os principais shows concentrados no Marco Zero. “Com o tempo, o Carnaval de Boa Viagem ficou imenso e a Prefeitura do Recife passou a controlar tudo, a gente já não tinha mais a gerência, mas foi uma semente que a gente plantou e até hoje a gente vê esse modelo das pessoas assistirem shows de carnaval gratuitamente”, comemora Sérgio.