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"Nossa tarefa é deixar o ator pronto para tudo o que pode vir no set", diz Amanda Gabriel ao Diario

Em entrevista exclusiva ao Diario diretamente da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a preparadora de elenco Amanda Gabriel fala sobre os processo da função

Por André Guerra

Amanda Gabriel na oficina 'O Lugar do Autor no Cinema' realizada durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Uma das mais importantes preparadoras de elenco do país, Amanda Gabriel tem uma relação de longa data com o cinema pernambucano. Presente na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes para a oficina "O Lugar do Ator no Cinema", ela conversou com o Diario sobre a natureza da sua função e as mudanças que pôde observar ao longo dos anos de experiência.

Atriz de formação (pela Universidade Federal de Pernambuco), ela estreou na função que consagrou sua carreira no filme "Amigos de Risco", de Daniel Bandeira, e, desde então, tornou-se parte significativa da história de um dos mais instigantes momentos do audiovisual brasileiro. Foi responsável pela preparação em projetos de cineastas como Kleber Mendonça Filho, Hilton Lacerda e Renata Pinheiro, além de Flávia Castro, Fellipe Barbosa e Aly Muritiba.

"Eu acho que as pessoas não têm muita ideia do que a gente realmente faz nessa função, talvez porque ainda exista muito por aí uma noção errada de que atuar é um vale-tudo, que o ator tem que se submeter a tudo o que é pedido. Não é assim", explica Amanda em entrevista exclusiva ao Diario. "Acho bom, por outro lado, que o mercado está reconhecendo aos poucos que a preparação faz parte da equipe de direção mesmo, não só da equipe de elenco. E tem que estar em sintonia com o que o diretor quer. Não vamos simplesmente entregar a atuação pronta".

A preparadora enfatiza que o espaço de ensaio é muito distinto do momento do set e que, por isso, os atores têm de estar preparados para esse ambiente. "Nossa função contribui para agilizar o processo das gravações. Por conta do volume de coisas para dar conta, especialmente em produções grandes, ganhamos tempo descobrindo dimensões para os personagens. Mas a tarefa nunca foi deixar a cena pronta", reforça.

Com Kleber Mendonça, agora indicado ao Oscar com "O Agente Secreto" (que contou com preparação de elenco de Leonardo Lacca e casting de Gabriel Domingues), Amanda trabalhou em "O Som ao Redor", "Aquarius" e "Bacurau". Ela ressalta na conversa que o cineasta é um dos maiores diretores de atores que ela conhece. "Ele sempre participa muito de perto do processo e tem uma habilidade impressionante de observar seus atores, de conhecê-los bem o suficiente para pedir coisas de formas inusitadas. Conta uma história, faz uma metáfora, coloca o ator nesse lugar da imaginação", exemplifica. "Ele vê o elenco como elementos para a construção da cena".

Peça fundamental na preparação de atores de tantos filmes dos últimos anos, Amanda segue achando que existe algo de especial na forma como o cinema pernambucano constrói seus resultados. "Eu carrego comigo, para qualquer lugar, esse método de fazer filme coletivamente, em que você quer ter aquelas pessoas trabalhando com você. Em São Paulo, cada um faz o seu; a coisa é muito hierarquizada, acho", comenta. "Em Pernambuco, existe essa energia de trupe, de pessoas que se conhecem e confiam artisticamente umas nas outras para consolidar algo que é muito maior do que a simples soma das partes."

Ela conclui enaltecendo que foi esse clima coletivo, com todas as engrenagens funcionando, que fez Pernambuco quebrar barreiras e representar o país no prêmio máximo do cinema industrial: "São vários talentos construindo aquele filme, com o diretor conduzindo o barco. Tenho exatamente essa sensação vendo ‘O Agente Secreto’, de pessoas que criaram uma intimidade artística maravilhosa, que chega agora ao Oscar", celebra.