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'Carvão' queima até a raiz as fachadas de uma família interiorana

Estreia da diretora Carolina Markowicz em longas, filme contundente e imprevisível revela o lado sombrio de personagens ruralistas a partir da chegada de um forasteiro

Por Andre Guerra

A vida na região onde vive a família de Irene (Maeve Jinkings) é rigorosamente dura, mas, ao que parece, carente de grandes alterações na rotina. Ela trabalha com seu marido, Jairo (Rômulo Braga), na produção caseira de carvão enquanto cuida do patriarca acamado que respira com ajuda de oxigênio e cujo estado de saúde se agrava todos os dias.

Eis que bate à porta, em um dia normal, uma enfermeira que trabalha no posto mais próximo oferecendo uma inesperada proposta para o casal. Após uma chocante decisão, eles passam a dar refúgio a um traficante estrangeiro que, uma vez alojado na casa, muda completamente a dinâmica da família, incluindo o filho pequeno, Jean (Jean de Almeida Costa).

É na virada para o segundo ato que o semblante pacífico de Carvão, em cartaz, longa-metragem de estreia de Carolina Markowicz, dá lugar a uma narrativa de incertezas, que navega num território incomum entre o drama rural realista, a comédia ácida o thriller de relações.

As interpretações melancólicas do elenco, sustentado sobretudo por uma Maeve sempre à flor da pele, revelam cena a cena a real intenção de cada um com aquela situação e, de maneira insidiosa, a violência, a discórdia e o desvirtuamento de valores tomam conta de todos eles irremediavelmente. É como se a presença daquele ser estranho — e que não demonstra nenhum prazer em estar ali — corrompesse ainda mais uma instituição familiar já quebrada desde o princípio.

Compondo esse mosaico de personagens estratégicos para tecer seu comentário sobre as fachadas e o que elas escondem, Markowicz conta aqui com algumas figuras célebres e passíveis à desconstrução (a mãe religiosa e durona, o pai trabalhador e caladão, o filho que desobedece, o bandido malicioso) e não tem medo de usar o registro naturalista de sua encenação para revelar as facetas mais sombrias de cada um dos personagens.

Essas escolhas arriscadas certamente irão provocar estranhamento ou sensação de inverossimilhança, mas parte da força de Carvão está justamente na falta de pudor com que o roteiro e a direção levam esses protagonistas para as últimas situações que se esperaria de uma família pobre interiorana.

A fragmentação do filme em pequenos blocos de conflito pode ocasionalmente deixá-lo com a aparência de uma junção de pequenos curtas, mas a diretora mantém uma notável coerência visual que preza por um belo equilíbrio entre a brutalidade e a imprevisibilidade da ação.

A câmera frequentemente na mão reforça o lado mais documental do filme enquanto os contrastes da fotografia não escondem uma leve tendência pela romantização. Ao posicionar alguns dos acontecimentos a partir da perspectiva da criança, entretanto, ela demonstra como muito do horror, corrupção e deturpação pode ser experienciado cedo e dentro de casa.

Ainda que consiga estabelecer bem essas desconstruções das aparências, o maior trunfo de Carvão está na autenticidade com a qual Markowicz desenha essa total disfuncionalidade familiar e livra seu projeto de maniqueísmos ou de julgamentos morais, deixando muito para o espectador chegar às suas próprias conclusões. A diretora queima até a raiz tanto a imagem que os personagens fazem de si quanto as convenções de gênero, fazendo de seu trabalho um dos mais corajosos.