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Entenda como será a captura, identificação e monitoramento de tubarões em Pernambuco

A primeira etapa do monitoramento prevê captura, exames biológicos e implantação de transmissores em 50 tubarões para mapear deslocamento, identificar áreas de risco e ampliar o conhecimento sobre as espécies na costa pernambucana

Por Cadu Silva

Tubarões sendo capturados no alto mar para colocação de chip

A retomada do monitoramento de tubarões no litoral pernambucano terá como primeira etapa a captura, marcação e acompanhamento de 50 animais de espécies consideradas prioritárias para a pesquisa, especialmente os tubarões-tigre e cabeça-chata.

O trabalho será realizado por equipes especializadas da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e integra um projeto coordenado pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit).

A iniciativa busca compreender como os animais utilizam as áreas costeiras da Região Metropolitana do Recife, identificar possíveis zonas de risco e gerar informações científicas que auxiliem na prevenção de incidentes.

Confira as etapas:

1. Instalação da rede de monitoramento no mar

Antes mesmo da captura dos tubarões, os pesquisadores irão instalar uma rede acústica de monitoramento ao longo do litoral.

O sistema será composto por receptores submersos, equipamentos responsáveis por detectar a passagem dos animais marcados.

Segundo o coordenador do projeto Ecotuba, professor Paulo Oliveira, os receptores têm tamanho um pouco menor que uma garrafa PET de um litro e serão fixados no fundo do mar, em uma linha paralela à praia.

Inicialmente, dez receptores serão distribuídos em pontos estratégicos da costa pernambucana.

Os equipamentos deverão ficar a profundidades entre 10 e 15 metros e, dependendo das características do local, poderão ser instalados a distâncias que variam de aproximadamente um até um quilômetro e meio da faixa de areia.

Um dos locais previstos para receber os equipamentos é a região próxima à Igreja de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, embora os pontos exatos ainda possam sofrer ajustes durante a instalação.

Cada receptor consegue detectar a presença de um tubarão marcado em um raio que varia entre 700 metros e um quilômetro.

“Hoje nós temos no projeto dez receptores para serem instalados, mas a ideia é ampliar essa rede. Quanto mais receptores na água, maior e melhor será o monitoramento”, explicou Paulo Oliveira.

2. Definição das áreas de captura

As áreas onde ocorrerão as capturas ainda serão definidas pelos pesquisadores em conjunto com o Cemit.

A expectativa é priorizar regiões onde existam indícios de alimentação, reprodução ou permanência frequente das espécies estudadas.

Esses locais serão escolhidos a partir de estudos anteriores, observações de campo e informações já disponíveis sobre o comportamento dos tubarões na costa pernambucana.

3. Captura dos animais em alto-mar

A captura será realizada por meio de espinhéis, equipamentos utilizados em pesquisas científicas com grandes peixes.

As estruturas serão posicionadas em alto-mar e monitoradas pelas equipes responsáveis pelo projeto.

Quando um tubarão for capturado, ele será retirado da água e levado para uma embarcação preparada para a realização dos procedimentos científicos.

4. Avaliação biológica

Já no barco, os pesquisadores iniciam um protocolo completo de avaliação biológica.

O primeiro passo será identificar a espécie do animal.

Em seguida, serão realizadas medições corporais que permitirão determinar tamanho, desenvolvimento e outras características importantes para os estudos populacionais.

Esses dados ajudam os cientistas a compreender quais espécies utilizam a costa pernambucana e quais grupos etários são mais frequentes na região.

Após a identificação, serão coletadas amostras biológicas dos tubarões.

Os pesquisadores irão retirar pequenas quantidades de sangue e fragmentos de tecido para análises laboratoriais.

O material permitirá estudos genéticos, avaliação do estado de saúde dos animais, identificação de contaminantes ambientais e investigações sobre aspectos reprodutivos.

Além das coletas biológicas, os animais passarão por exames que ajudarão a determinar suas condições fisiológicas.

Os pesquisadores pretendem verificar indicadores relacionados à saúde dos tubarões e ao ambiente em que vivem.

Segundo Paulo Oliveira, a presença frequente de determinadas espécies também pode servir como indicador da qualidade ambiental dos ecossistemas costeiros e da disponibilidade de alimento nessas áreas.

Quando necessário, as fêmeas poderão passar por exames de ultrassonografia.

O procedimento permitirá verificar se os animais estão grávidos e identificar possíveis áreas de reprodução utilizadas pelas espécies ao longo da costa.

As informações poderão contribuir para a localização de regiões importantes para a conservação dos tubarões.

5. Implantação do transmissor eletrônico

Após a avaliação biológica, os tubarões receberão um transmissor acústico individual.

O equipamento tem tamanho semelhante ao de uma pequena pilha e funciona como um microchip capaz de emitir sinais de identificação exclusivos para cada animal.

A instalação será feita por meio de uma pequena incisão na região ventral do corpo.

Segundo Paulo Oliveira, trata-se de uma microcirurgia realizada por profissionais treinados e que faz parte dos protocolos utilizados internacionalmente em estudos de monitoramento de tubarões.

“Esse transmissor será implantado por meio de uma microcirurgia na região ventral. Feito esse procedimento, ele será devolvido para o mar para que possamos acompanhar o padrão de utilização do espaço por esse animal”, explicou o pesquisador.

6. Retorno do animal ao mar

Concluídos todos os procedimentos, o tubarão é devolvido ao oceano.

De acordo com a secretária executiva do Cemit, Danise Alves, toda a operação é realizada de forma rápida para reduzir ao máximo o estresse do animal.

“A equipe já possui uma experiência de mais de 30 anos nesse tipo de trabalho. O procedimento dura cerca de 15 minutos e o animal retorna ao mar logo em seguida”, afirmou.

7. Como funciona o monitoramento

Depois de devolvido ao ambiente natural, o tubarão passa a ser acompanhado pela rede de receptores instalada no litoral.

Sempre que o animal se aproximar de um dos equipamentos submersos, o transmissor emitirá um sinal identificado pelo receptor.

O sistema registra automaticamente informações como data, horário e localização da passagem.

Com isso, os pesquisadores poderão reconstruir rotas de deslocamento, identificar áreas de permanência e compreender como os tubarões utilizam os diferentes habitats costeiros.

8. Conexão com Fernando de Noronha

Os cientistas também pretendem investigar a conectividade entre os tubarões encontrados na costa pernambucana e aqueles já monitorados em Fernando de Noronha.

Atualmente, o arquipélago abriga o único programa permanente de monitoramento acústico de tubarões em Pernambuco, coordenado pela UFRPE com apoio da Administração de Fernando de Noronha, do ICMBio e da Econoronha.

A expectativa é descobrir se os animais utilizam tanto o arquipélago quanto o litoral continental durante seus deslocamentos.

9. O que os pesquisadores esperam descobrir

Ao final do estudo, os pesquisadores pretendem identificar padrões de movimentação dos tubarões, áreas de alimentação, possíveis locais de reprodução e regiões com maior ou menor probabilidade de ocorrência de incidentes.

Segundo Danise Alves, os dados obtidos servirão para fortalecer as estratégias de prevenção.

“Os resultados irão permitir a identificação de zonas de risco, a geração de dados científicos atualizados e o aprimoramento das estratégias de prevenção, comunicação e segurança aquática”, destacou.

Além disso, o monitoramento fornecerá informações inéditas sobre a ecologia dos tubarões na costa pernambucana, contribuindo para ações de conservação, educação ambiental e gestão das áreas costeiras.