Sessenta placas de alerta para tubarões em Pernambuco foram retiradas ou vandalizadas
Pichações e vandalismo comprometem sistema de alerta para tubarões no litoral pernambucano
As placas que alertam sobre o risco de incidentes com tubarões ao longo da costa pernambucana deveriam funcionar como um lembrete fixo dos cuidados necessários para quem frequenta o mar. No entanto, dos cerca 150 avisos instalados em praias da Região Metropolitana do Recife, apenas 90 permanecem em boas condições.
As demais placas foram retiradas, pichadas ou danificadas ao longo dos últimos meses, segundo a secretária-executiva do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), Danise Alves.
A substituição das placas foi realizada em janeiro de 2025, após um trabalho de reposição iniciado em dezembro do ano anterior. A sinalização está distribuída em um trecho de aproximadamente 33 quilômetros, entre a Praia do Farol, em Olinda, e a Praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, área considerada de atenção para incidentes com tubarões.
Além de alertar para o risco de ataques, as placas trazem orientações de segurança para banhistas, informações sobre correntes marítimas, quedas bruscas do fundo do mar, presença de rochas submersas e recomendam evitar o banho em situações de maior risco, como maré alta, águas turvas, mar aberto ou quando o usuário estiver sozinho ou sob efeito de álcool.
A destruição da sinalização preocupa pesquisadores que atuam no monitoramento e na educação ambiental relacionados à convivência entre seres humanos e tubarões no litoral pernambucano.
Para pesquisadores, a prevenção depende de uma atuação conjunta entre governo, universidades e sociedade. A bióloga e pesquisadora do projeto Protuba, Mariana Peixoto, destaca que as placas representam apenas uma parte de uma estratégia mais ampla de gestão de risco construída ao longo dos anos.
“Não adianta nós, como biólogos e educadores ambientais, e até mesmo o próprio governo adotarmos ações que ajudam a reduzir esses incidentes se a população também não colaborar. É um trabalho conjunto”, afirma.
Segundo ela, houve avanços importantes na forma como a população enxerga a presença dos tubarões na região. Enquanto décadas atrás predominavam discursos favoráveis à eliminação dos animais, hoje há uma compreensão maior sobre a importância ecológica da espécie. “Antigamente, a maioria das pessoas dizia: ‘Tem que matar os tubarões’. Hoje, uma parcela muito maior da população já entende melhor a situação e diz: ‘Ali é a casa do tubarão’”, relata.
Apesar dessa mudança cultural, o vandalismo contra as placas mostra que ainda existem obstáculos para manter uma cultura de prevenção.
A pesquisadora Alessandra Fischer acredita que a conscientização precisa ir além das campanhas institucionais. “Isso passa muito por uma questão de educação. E educação é algo que começa dentro de casa. O Corpo de Bombeiros monitora as placas de advertência instaladas nas praias e já possui estatísticas mostrando que cerca de 30% delas foram retiradas ou pichadas. Isso demonstra que, além de informar, é preciso contar com a colaboração da população para que as medidas de prevenção sejam efetivas”, diz.
Incidentes
Em apenas dois dias, Pernambuco registrou dois incidentes envolvendo tubarões na Região Metropolitana, envolvendo um menino de 11 anos que foi mordido na praia de Piedade e uma jovem de 19 anos que teve o mesmo membro arrancado em Boa Viagem. Ambos sofreram amputações e permanecem internados.
Com as duas ocorrências, Pernambuco chegou a 84 incidentes envolvendo tubarões desde o início do monitoramento realizado pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), em 1992.
Para a pesquisadora do projeto Protuba, Camila Peixoto, a falta de atenção às orientações continua sendo um dos principais desafios. “Existiu o monitoramento e, a partir dele, foi possível entender melhor o funcionamento da presença dos tubarões na região, conhecer as espécies e desenvolver ações de educação ambiental, que é algo que fazemos até hoje”, explica.
Segundo ela, os esforços de conscientização foram ampliados nos últimos anos, com atividades em escolas e projetos educativos. Ainda assim, nem sempre as recomendações são seguidas.
“O problema é que, por mais que as pessoas saibam dos riscos e recebam as orientações, muitas acabam não seguindo as recomendações. Se ocorre um incidente, por exemplo, no dia seguinte já tem gente entrando na água novamente durante a maré alta, que é justamente o contrário do que é orientado”, afirma.
Monitoramento volta após mais de uma década
Enquanto enfrenta o desafio de preservar as medidas de prevenção já existentes, Pernambuco se prepara para retomar uma das principais iniciativas científicas voltadas ao tema. Após 11 anos sem acompanhamento sistemático dos animais na Região Metropolitana do Recife, o governo do estado retomará o monitoramento de tubarões por meio do projeto Ecotuba em julho.
Coordenada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a iniciativa receberá investimento de R$ 1,052 milhão e terá como objetivo compreender os padrões de deslocamento, comportamento e utilização dos habitats costeiros pelas espécies associadas aos incidentes registrados no litoral pernambucano.
Os pesquisadores irão capturar os animais, realizar a identificação das espécies, medições biométricas, coleta de sangue e tecido para análises genéticas e instalar transmissores eletrônicos para acompanhar seus deslocamentos.
As informações obtidas deverão ajudar a identificar áreas de maior e menor risco ao longo da costa e subsidiar futuras políticas públicas de prevenção.