Autorizada restauração do antigo prédio do Diario, símbolo da memória jornalística do Estado
A governadora Raquel Lyra assinou, nesta terça (26), a ordem de serviço para obras de preservação e requalificação de edificações do patrimônio histórico do estado, dentre elas, o antigo prédio do Diario de Pernambuco
A governadora Raquel Lyra assinou, no começo da tarde desta terça-feira (26), a ordem de serviço para o início das obras de restauração do antigo prédio do Diario de Pernambuco, na Praça da Independência, no bairro de Santo Antônio, área central do Recife.
O investimento para a requalificação do imóvel, que abrigará a Secretaria de Cultura do estado, será de R$ 32 milhões.
Tombado pelo Governo do estado, o imóvel integra um dos conjuntos arquitetônicos mais tradicionais da capital e atravessa mais de um século ligado à história política, cultural e jornalística de Pernambuco.
Erguido entre 1901 e 1903 pelo então proprietário do jornal, o conselheiro Rosa e Silva, o edifício foi projetado para abrigar jornal mais antigo em circulação da América Latina.
Desde então, o prédio acompanhou revoluções, crises políticas, períodos de censura, visitas ilustres e episódios que marcaram Pernambuco e o Brasil.
A sede do Diario funcionava como um ponto de encontro da cidade. Era na porta do jornal que os recifenses acompanhavam e buscavam informações sobre acontecimentos nacionais e internacionais e compartilhavam sentimentos diante de fatos que abalavam o mundo.
A governadora Raquel Lyra celebrou o resgate do antigo prédio do Diario de Pernambuco e seu valor democrático.
“Para além do resgate da memória da imprensa pernambucana, o edifício ainda conta a história da nossa democracia. E a democracia do Brasil que passa por Pernambuco”, ressaltou.
Prédio símbolo da luta democrática
Um dos episódios mais marcantes da trajetória do edifício aconteceu em março de 1945, nos últimos meses do Estado Novo, ditadura imposta por Getúlio Vargas. Pernambuco vivia sob forte repressão política.
O estudante da Faculdade de Direito do Recife, Demócrito de Souza Filho, era um dos jovens que participavam ativamente de manifestações contra o regime e contra a atuação das forças de repressão no Estado.
Na véspera da sua morte, Demócrito e outros estudantes chegaram a rasgar uma fotografia do presidente em um restaurante frequentado por universitários no Recife. O ato provocou reação imediata da polícia política.
Perseguidos, os estudantes buscaram abrigo no antigo prédio do Diario de Pernambuco, que naquele momento funcionava também como espaço de resistência política e circulação de opositores do regime.
No dia 3 de março de 1945, uma manifestação contra o Estado Novo reuniu estudantes e militantes em frente ao edifício, na Praça da Independência.
Demócrito estava em uma das sacadas do prédio aguardando um pronunciamento do sociólogo Gilberto Freyre, quando policiais do governador Agamenon Magalhães abriram fogo contra a multidão.
Um dos disparos atingiu a cabeça do estudante, que caiu dentro da redação do jornal. O assassinato provocou forte repercussão em Pernambuco e ganhou dimensão nacional, ampliando a pressão política sobre o Estado Novo nos seus últimos meses de existência.
Após a morte do estudante, militares e agentes ligados ao governo ocuparam o prédio do Diario e impediram a circulação do jornal. As oficinas foram paralisadas numa tentativa de evitar que o crime fosse divulgado e associado à repressão do regime varguista.
Mesmo sob censura, o Diario conseguiu voltar a circular semanas depois, após decisão judicial. O editorial, assinado pelo diretor Aníbal Fernandes, trazia na manchete, com a grafia da época: “Continuaremos a denunciar os criminosos á Nação”.
O episódio foi mais um que transformou o edifício em símbolo da resistência à censura e da luta pela liberdade de imprensa em Pernambuco.
Empastelamentos e disputas políticas
Antes do Estado Novo, a antiga sede do Diario já estava no centro de conflitos envolvendo poder e imprensa.
Em 1911, durante disputas políticas em Pernambuco, a redação foi invadida e destruída por aliados do general Dantas Barreto, adversário político de Rosa e Silva.
O ataque resultou no primeiro empastelamento da história do jornal, termo usado para definir a interrupção forçada de atividades de veículos de imprensa.
O Diario permaneceu sem circular por um longo período após o episódio.
Visitas históricas
Ao longo do século 20, o prédio do Diario consolidou-se como um dos principais pontos de encontro da intelectualidade pernambucana.
Durante a gestão de Carlos Lira Filho, o espaço tornou-se referência para debates políticos, culturais e literários no Recife.
O prédio não passou despercebido por personagens históricos. Em novembro de 1968, a Rainha Elizabeth II esteve no Recife. Durante o trajeto da comitiva, chamou a atenção ao parar diante do prédio do jornal e acenar para os funcionários que estava na sacada.
Anos depois, já durante o período de redemocratização do país, o então presidente José Sarney visitou a antiga redação do jornal acompanhado de ministros, governadores e outras autoridades. Sarney havia atuado anteriormente como colaborador do periódico.
A redação do Diario funcionou no imóvel até 2004, quando o prédio passou a pertencer ao Governo de Pernambuco.