Entre o aplicativo e o asfalto: o ponto cego da segurança nas corridas de moto no Grande Recife
Diario conversou com passageiros e com especialista em trânsito para entender como funciona o setor no Grande Recife e os impactos do crescimento das motos por aplicativo
A paisagem do trânsito no Grande Recife tem um personagem que se multiplica muito mais vezes além do que se pode contar. Nos corredores entre carros e caminhões, aglomeradas em frente aos sinais vermelhos, as motos são maioria nas ruas. Esse prevalecimento, em geral, tem algo em comum: as corridas por aplicativo.
Cada vez mais populares, as corridas de moto por aplicativo estão a apenas alguns cliques para inúmeros passageiros, que buscam praticidade, economia e agilidade. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Entregadores, Empregados e Autônomos de Moto e Bicicleta por Aplicativos de Pernambuco (SEAMBAPE), pelo menos 22 mil pessoas vinculadas a aplicativos trabalham com motos no Grande Recife, entre entregas e transporte de passageiros.
Essa popularização "é consequência da deterioração do transporte público coletivo", como observa o presidente do Instituto de Trânsito e Mobilidade Sustentável, Ivan Cunha. “A questão do uso de motos vem atrelada aos problemas do transporte coletivo. Trânsito e transporte são correlacionados. Se nós tivéssemos um transporte coletivo de excelente qualidade, as pessoas não buscariam a solução do transporte individual. Isso vale para o carro e moto, independentemente da questão dos aplicativos. O número de motos vem crescendo ano a ano”, afirma o consultor de trânsito.
Assim, a busca pelo deslocamento individual das pessoas é, na verdade, uma fuga dos problemas envolvendo os sistemas de ônibus e metrô. No entanto, essa conveniência tem um impacto que pode representar graves riscos no trânsito.
Riscos
O estudante Robério Filho, de 21 anos, conta ao Diario de Pernambuco por que chegou a realizar uma média de seis corridas de moto por aplicativo por semana, por cerca de 2 anos, sempre em horários de pico no trânsito.
“Eu sou do Ceará, vim para Recife para fazer faculdade. Moro na Iputinga e precisava ir ao trabalho, no centro, três vezes na semana. Eu pensava em pegar o ônibus, mas como levava o computador, ficava com medo de assalto, além da demora do transporte. Então, investi no deslocamento de moto. Era muito mais barato, chegava a ser um terço do valor (do carro). Valia muito mais a pena”, comenta.
Até 14 de abril deste ano, 39 pessoas se envolveram em sinistros envolvendo motos de aplicativo em Pernambuco, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE). O dado representa uma média de 11 feridos por mês. Do total, 25 eram condutores e 14, passageiros.
O número já configura 35% dos registros de feridos de 2025, quando 108 pessoas se feriram em sinistros de trânsito durante corridas de moto por aplicativos, sendo 66 condutores, 40 passageiros, um pedestre e uma pessoa conduzida em local inadequado.
“Está se constituindo um caos. Há até uma sensação de insegurança para quem dirige carros. De todos os lados se vê motos. É preciso ter mais atenção com os veículos menores, porque eles não respeitam, ficam em pontos cegos. Sem contar, também, a sensação de violência no trânsito. Como técnico, também vejo o aumento dos sinistros, muito ligado a essa utilização pelos aplicativos”, afirma Ivan Cunha.
Essa insegurança também é alimentada pelo comportamento de quem consome o serviço, avalia Cunha, muito em função da pressão pela rapidez do serviço. Segundo ele, há ainda uma discussão se o acidente é considerado de percurso ou de trabalho. Em função da indefinição da relação profissional entre vinculados e empresas, o impacto do acidente recai totalmente sobre o estado e o próprio trabalhador, sem sanção para a plataforma.
Sinistros
Robério é uma das pessoas que se acidentou durante as corridas de moto por aplicativos. Em uma das idas ao trabalho, ele quebrou o pulso após a moto em que estava ser atingida por um carro, na região da Avenida Abdias de Carvalho, na Zona Norte do Recife.
“Eu consegui outra oportunidade de emprego 100% remota e estava indo pedir desligamento. Nesse dia, especificamente, eu peguei uma corrida, estava seguindo o caminho até ligeiro, mas um carro entrou de vez e nos atingiu. Caímos eu e o motoqueiro. Eu quebrei o pulso, fiquei um mês e meio sem trabalhar”, relembra.
Após o sinistro, Robério conta que reduziu a frequência do uso de motos por aplicativo e que raramente utiliza o serviço. Sobre a experiência, ele conta que sentia alguns aspectos adversos.
“Eu sentia que os materiais eram muito ruins muitas vezes. O capacete era muito ruim, desconfortável, sem muita segurança. O apoio de mãos em algumas motos era muito ruim. Em muitos momentos eu não me sentia protegido por não estar segurando direito. Também percebia uma pressa dos motociclistas, querendo terminar uma corrida rápido e ir para outra”, relata.
Maria Santos (nome fictício), de 32 anos, também fazia uso de moto por aplicativos em cerca de três dias por semana, conforme diz ao Diario – os motivos relatados são semelhantes aos de Robério. Ela aponta algumas situações perigosas durante as corridas de moto por aplicativo.
“Eu fazia corridas pequenas e grandes, em vários horários, de pico ou não. Em algumas vezes, o motorista ficava basicamente dividido entre o trajeto e o celular, que não parava de chamar corrida. Em uma viagem específica, o motociclista chegou até a furar um sinal mexendo no aparelho”, recorda.
Ela conta mais algumas experiências de perigo durante as corridas de moto por aplicativo.
“Peguei a moto em Paulista às 6h30 e não levou nem 25 minutos para chegar a Olinda. O condutor foi ‘cortando’ entre os carro e me pediu para apertar as pernas contra a moto para passar entre os ônibus e cortar o percurso. Ele fez manobras perigosas, e o celular não parava. Foram três vertentes: trânsito, manobra e celular. Ele chegou a fazer retorno pela contramão, e o trânsito estava muito engarrafado. Foi extremamente perigoso e rápido”, afirma.
A partir do medo causado pelas experiências citadas, Maria deixou de utilizar o serviço. Ela diz que “não sente mais segurança” nesse tipo de corrida.
“Hoje eu não me sinto segurança nesses aplicativos devido às condições do trânsito em Recife e devido ao despreparo desses motoristas, divididos entre o trânsito e o celular. A gente acaba vendo muitos acidentes, ficando aflito, então não vejo possibilidade de continuar fazendo essas corridas”, finaliza.
Um setor “invisível”
Apesar da sensação de crescimento do setor e do notório aumento do serviço de motos por aplicativo no trânsito, os números que podem atestar as dimensões do segmento não são de fácil obtenção. As empresas não divulgam dados por questões de concorrência.
O Diario de Pernambuco entrou em contato com a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne empresas de mobilidade urbana com serviços de transporte individual e de entregas. A organização disse não dispor de números de vinculados aos aplicativos no estado ou de como a segurança dos colaboradores e passageiros é monitorada junto às corporações.
O Ministério Público do Trabalho em Pernambuco (MPT) também foi procurado pela equipe de reportagem do Diario. O órgão afirmou não ter dados sobre quantidade de colaboradores dos aplicativos ou sinistros no estado. Ainda assim, enviou uma nota afirmando que acompanha o setor desde o início da modalidade no país.
Ainda conforme o MPT-PE, a pasta realizava estudos sobre a contratação dos vinculados e, posteriormente, passou a atuar também na área de segurança e saúde do trabalhador.
“Acompanhamos ainda, em articulação com o Conselho Nacional de Trânsito e os Detrans, o crescimento dos casos de acidentes envolvendo motos”, finalizou.
Fiscalização
O espaço entre os dados, o monitoramento e a realidade cria um ponto cego no setor: sem concretude sobre quantos motociclistas atuam e os impactos da presença deles no trânsito, o poder público patina na criação de estratégias para sanar problemas.
Para o consultor de trânsito Ivan Cunha, as falhas têm acontecido na educação e na fiscalização. Ele defende um processo de habilitação mais rigoroso para motos, visto que é o maior vetor de sinistros, e rebate o discurso de 'indústria da multa', afirmando que a punição é apenas consequência do descumprimento das regras.
“O que me preocupa é a ausência de ações. Pelo contrário, o que foi feito a nível federal foi a flexibilização do acesso à habilitação, tornando o processo muito mais simples. Sou a favor da fiscalização forte, efetiva e intensa, mas tem que ter o outro lado da balança, que é o processo educativo, que, aliás, vem antes do punitivo, ou deveria vir”, argumenta.
O Diario também procurou o Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN-PE). O órgão, informou que não há regulamentação de trânsito específica para uso de motos por aplicativo, além da exigência de que a pessoa que dirige moto de aplicativo tenha a observação de Atividade Remunerada em seu prontuário de condutor.
"Quem exerce Atividade Remunerada ao volante, toda vez que for renovar a CNH, precisará realizar Avaliação Psicológica, além de cumprir as demais exigências da legislação de trânsito, previstas para os condutores em geral", destacou o Detran.
Atualmente, é competência das prefeituras regulamentar o transporte de passageiros em motos.