"Somos corajosos. Isso faz parte do nordestino", diz recifense que se tornou a 1ª mulher general do Exército
O Diario de Pernambuco conversou, nesta sexta-feira (15), com Claudia Lima Gusmão Cacho, a primeira mulher do Brasil a assumir a patente de General de Brigada do Exército Brasileiro
“Se essa minha história, essa minha trajetória puder inspirar outras pessoas, outras mulheres, porque muitas estão vindo aí também, isso já vai me deixar muito feliz”.
Foi assim que a General de Brigada Médica, Claudia Lima Gusmão Cacho, de 57 anos, resumiu o significado de se tornar a primeira mulher a alcançar o posto de oficial-general no Exército Brasileiro.
O Diario de Pernambuco esteve, na manhã desta sexta-feira (15), no Quartel-General do Comando Militar do Nordeste (CMNE), no bairro do Curado, na Zona Oeste do Recife. E conversou, com exclusividade, com a oficial sobre a construção da sua trajetória, o pioneirismo feminino, o papel institucional do Exército e a importância da manutenção da instituição como uma entidade de Estado e apartidária.
Natural de Pernambuco, Claudia destacou que carrega consigo características que associa à identidade nordestina: coragem, disposição para enfrentar desafios e vontade de desbravar caminhos.
“Somos corajosos. Isso faz parte do nordestino mesmo. Temos a nossa coragem, a vontade de enfrentar e superar desafios”, afirmou.
Da medicina ao generalato
Médica pediatra, Claudia Lima Gusmão Cacho ingressou no Exército Brasileiro em 30 de janeiro de 1996, como oficial temporária do 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Goiânia, no estado de Goiás.
Sem tradição militar na família, ela contou que conheceu a vida militar após o casamento com um oficial do Exército e viu na carreira a possibilidade de conciliar a profissão médica com as peculiaridades das missões e movimentações da força.
“Minha família toda era civil. Eu não conhecia nada da vida militar. Foi uma oportunidade de conciliar a minha vida profissional com essa peculiaridade da carreira, das movimentações e das missões”, disse.
Após dois anos como militar temporária, a médica foi aprovada no Concurso de Admissão para a Escola de Saúde do Exército, concluindo o Curso de Formação de Oficiais Médicos em 1998, quando passou a integrar a carreira efetiva da instituição.
“A gente não entra pensando: ‘vou sair general’. A gente entra para fazer a carreira, passar pelos postos e graduações. Isso é um processo longo”, afirmou.
Ao longo de quase três décadas de serviço, a oficial atuou em organizações militares de diversas regiões do país, consolidando trajetória na área de Saúde Operacional e Hospitalar.
Entre as funções exercidas, comandou o Hospital de Guarnição de Natal, no Rio Grande do Norte, e o Hospital Militar de Área de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Atualmente, ocupa o cargo de diretora do Hospital Militar de Área de Brasília.
A ascensão ao posto de General de Brigada ocorreu em 1º de abril deste ano, durante solenidade realizada no Comando do Exército, em Brasília.
Segundo o Exército, a promoção ao oficialato-general ocorre após criterioso processo conduzido pelo Alto-Comando da Força, levando em consideração tempo de serviço, mérito profissional, desempenho em funções de comando e Estado-Maior, além da conclusão de cursos obrigatórios de altos estudos militares.
Pioneirismo feminino
Ao comentar o significado de ser pioneira dentro da instituição, Claudia afirmou que a conquista representa a abertura de caminhos para outras mulheres no Exército, mas ressaltou que o avanço feminino deve estar sempre associado à competência, mérito e disciplina.
“Acho que a gente abre portas. Mas gosto sempre de ressaltar que existe mérito, competência, trajetória, dedicação e disciplina. Não é só chegar lá, é preciso olhar tudo o que levou a essa chegada”, afirmou.
A general também destacou que nunca enfrentou resistência dentro da instituição pelo fato de ser mulher e afirmou ter sido acolhida desde o início da trajetória militar.
“Eu fui extremamente bem acolhida. Nós fomos recebidas em um ambiente de muito respeito, onde pudemos mostrar nosso trabalho, apresentar ideias e sermos escutadas”, disse.
Segundo ela, a presença feminina dentro do Exército aumentou ao longo dos anos e hoje as mulheres atuam em diferentes áreas da força.
“A mulher hoje está perfeitamente integrada no Exército e atuando em todas as áreas: operacional, técnica, assistencial”, destacou.
Durante a entrevista, Claudia também falou sobre a incorporação das 75 primeiras mulheres soldados ao serviço militar em Pernambuco, que ocorre após a cerimônia de entrega das boinas na noite desta sexta (15), no Comando da 7ª Região Militar. Ela classificou o momento como histórico para a instituição.
“Mais de 30 mil jovens mulheres se inscreveram no Brasil todo para ingressar como pioneiras. Elas estão conhecendo a força e podem construir uma carreira dentro dela”, afirmou.
A oficial ainda incentivou as novas militares a seguirem carreira no Exército.
“Se elas têm amor pela farda, gostam de servir e de fazer a diferença, que se capacitem física e intelectualmente. Elas podem ser muito felizes na carreira”, declarou.
Exército apartidário
Ao abordar o cenário político nacional e os episódios recentes envolvendo as Forças Armadas, a general defendeu a manutenção do Exército como uma instituição de Estado e apartidária.
“O Exército vai se manter como uma instituição de Estado permanente e apartidária”, afirmou.
Segundo Claudia, a politização da instituição é prejudicial à missão constitucional desempenhada pelas Forças Armadas.
“A politização é ruim porque o Exército é uma instituição apartidária. Os militares têm direito ao voto e cada um tem a sua opinião, mas a instituição precisa permanecer assim”, declarou.
Ela ressaltou que o papel da força é atuar na defesa da pátria e no apoio à população, citando operações desenvolvidas em diversas regiões do país.
“O Exército está sempre em ação. Estamos no carro-pipa, em ações de saúde, educação, apoio em áreas isoladas da Amazônia, na Operação Acolhida e em diversas outras missões”, disse.
Confira, na íntegra, a entrevista da General Cláudia com a reportagem do Diario de Pernambuco:
1. O que representa para a senhora se tornar a primeira mulher general do Exército Brasileiro?
“Depois da especialização, eu comecei a percorrer as outras guarnições, frutos até do meu casamento, porque eu sou casada com militar. Então, quando aconteceu toda a indicação, para mim passa aquele filme. É um reconhecimento. São muitos passos que a gente tem que dar até chegar lá. E a gratidão por tudo, por todas as pessoas. Foi desde o comecinho, quando a gente se formou, pessoas que passaram pela sua vida fora do meio militar, dentro do meio militar também. Então, é uma mistura muito grande.”
2. Como surgiu a ideia de seguir a carreira militar?
“Foi uma oportunidade mesmo. Eu queria conciliar a minha vida profissional com essa peculiaridade da carreira, antes que era só do meu esposo, hoje é minha também, das movimentações. Faz parte da vida do militar. A gente vai por necessidade de serviço, muitas vezes realizar um curso, então você é movimentado igual à missão. Você acaba morando em vários locais diferentes.”
3. Como foi o início da sua trajetória no Exército?
“Eu entrei como aspirante quando ingressei como militar temporária. Então eu fui dois anos militar temporária, depois eu fiz o concurso, que é de âmbito nacional. Aí eu fui ser tenente-aluno e militar de carreira como tenente. E aí você vai alcançando os postos.”
4. A senhora já entrou pensando em chegar ao generalato?
“Quando eu entrei ainda não existia isso, né? Mas, a partir do momento que entramos todos juntos, homens e mulheres naquele quadro de saúde, na mesma turma, a gente sabia que haveria possibilidade de sempre um ou dois da turma chegar ao generalato. Mas a gente não entra pensando: ‘ah, eu vou sair general’. Não. É para fazer a nossa carreira, passar por todos os postos e graduações. Isso é um processo longo.”
5. Como é viver esse pioneirismo feminino dentro do Exército?
“Foi caindo aos poucos. Quando você recebe a notícia vem toda a emoção e, aos poucos, você vai sentindo até um peso, mas tem um significado de ser pioneira, até de ter essa visibilidade que aconteceu. Muitas vezes faz parte do Exército e às vezes ele não é conhecido. Até dentro da própria área de saúde existe uma carreira dentro do Exército aberta para profissionais.”
6. O fato de ser pernambucana e nordestina torna isso ainda mais simbólico?
“Somos corajosos. Isso faz parte do nordestino mesmo. Temos a nossa coragem, a vontade de enfrentar e superar desafios. Então tudo isso junta. Quando a gente faz um curso de formação, nós temos pessoas de todo o Brasil. Depois cada um vai para um lugar e faz sua carreira. À medida que o tempo foi passando, eu fui querendo, gostava da área e fui fazendo os cursos necessários. Tem isso da vontade de querer fazer, da coragem de fazer e de ter encontrado um ambiente propício para isso. Eu sempre fui muito incentivada, pela família e pelas pessoas dentro do Exército, pelos meus comandantes, a prosseguir.”
7. Qual legado a senhora gostaria de deixar?
“Eu acho que a gente abre portas. Mas eu gosto sempre de ressaltar que tem todo o mérito, a competência, a trajetória, a dedicação, a disciplina. Não é só a gente chegar. A gente tem que ver o que levou a chegar lá. Então eu gostaria de deixar essa mensagem: que é possível. Hoje temos uma porta aberta, uma integração, uma presença feminina dentro do Exército que veio aumentando ao longo do tempo. A mulher hoje está perfeitamente integrada dentro do Exército e atuando em todas as áreas, operacional, técnica, assistencial. Então eu quero que mais mulheres possam chegar lá, sempre mantendo pela competência, pelo mérito e pela trajetória.”
8. Qual proposta ou marca a senhora gostaria de deixar nesse novo momento da carreira?
“Eu sempre vejo que a oportunidade agora é mostrar um pouco mais da força. O Exército hoje apresenta oportunidades de carreira muito concretas em vários segmentos para as mulheres. Vale a pena conhecer. Eu gosto de divulgar esse trabalho dentro da mulher porque, como falei, ela está perfeitamente integrada dentro da força. Muitas vezes as pessoas não conhecem esse caminho, mas acabou sendo o caminho que me realizou. E eu acho que isso pode ser o caminho para muitas outras mulheres.”
9. A mulher ainda precisa quebrar barreiras dentro do Exército?
“Eu nunca tive nenhum problema em relação a isso. Várias vezes eu já fui perguntada como foi entrar num ambiente majoritariamente masculino. Eu sempre digo: eu fui extremamente bem acolhida. Nós fomos muito bem recebidas, num ambiente de muito respeito, onde eu pude mostrar meu trabalho, conhecer a instituição, formar laços, conhecer os valores e as entregas para a sociedade. Na área de saúde a gente atua muito em operações do Exército e ações cívico-sociais. Então eu pude trabalhar na minha área, fazer cursos em outras áreas, mostrar ideias, ter voz e ser escutada pelos meus comandantes. Isso hoje acontece em todas as áreas.”
10. Como a senhora vê as questões de preconceito e discriminação dentro das Forças Armadas?
“O Exército é um retrato da sociedade. Ele é formado por homens e mulheres, de todas as etnias, classes sociais e lugares do país. E isso sempre foi tratado com muito respeito. O Exército não admite nenhum tipo de discriminação nem assédio. Isso é muito falado e toda a força é capacitada para que a gente não tenha nenhum tipo de assédio ou discriminação. A mulher hoje está perfeitamente integrada dentro do Exército e atuando em todas as áreas: operacional, técnica, assistencial, tudo.”
11. Qual conselho a senhora dá às jovens mulheres que estão entrando agora no Exército?
“Se elas estão se identificando com a força, se preparem. Preparação física, preparação intelectual, porque a força hoje tem diversas formas de ingresso como militar de carreira. Então, se elas têm amor pela farda, gostam de servir e gostam de fazer a diferença, que se capacitem e prossigam.”
12. Como o Exército deve se posicionar diante do cenário político nacional?
“O Exército vai se manter como uma instituição de Estado permanente e apartidária. A politização é ruim porque o Exército é uma instituição apartidária. Os militares têm direito ao voto e cada um tem sua opinião, mas a instituição precisa permanecer assim.”
13. Como médica, existe algum projeto pessoal que a senhora gostaria de desenvolver?
“Hoje a gente tem focado bastante na capacitação do nosso pessoal. Nossa diretoria de saúde tem projetos na área de medicina preventiva. Hoje a população vive mais, mas também temos mais doenças crônicas. Então a gente investe em prevenção, voltar um pouquinho ao que já foi muito feito.”
14. Como a senhora gostaria de ser lembrada daqui para frente?
“Se essa minha história, essa minha trajetória puder inspirar outras pessoas, outras mulheres, porque muitas estão vindo aí também, isso já vai me deixar muito feliz. Mostrar que é possível chegar lá, sempre com competência, dedicação, disciplina e trabalho.”