Cerca de 65% das famílias de Passarinho e Dois Carneiros perderam bens durante chuvas, diz pesquisa
Relatório aponta falta de saneamento, falhas na prevenção e baixa resposta do poder público em áreas como Passarinho e Dois Carneiros
Cerca de 65% das famílias do bairro Dois Carneiros, em Jaboatão dos Guararapes, e do Passarinho, no Recife, perderam bens durante enchentes. Os dados integram o relatório Retratos das Enchentes 2025, do Instituto Decodifica, e mostram como a crise climática e a desigualdade urbana afetam a vida da população destas localidades.
O estudo, baseado em 386 entrevistas domiciliares em Pernambuco, mostra que os impactos das enchentes são potencializados por falhas estruturais.
“Primeiro, há a fase da pesquisa, que consiste no mapeamento de lideranças. A partir desse mapeamento, realizamos dois grupos focais, que são fruto desse processo, com cerca de 20 lideranças comunitárias de favelas e periferias da Região Metropolitana do Recife. O objetivo é ter um olhar mais geral sobre como essas favelas e essas lideranças têm sido afetadas e como têm atuado diante do desafio das enchentes”, explica o coordenador de Pesquisa e Dados do Instituto Decodifica, Kayo Moura.
A pesquisa aponta que mais de 73% dos moradores do bairro Dois Carneiros e cerca de 40% de Passarinho convivem com alagamentos recorrentes e metade das casas já foi invadida por água em níveis superiores a um metro.
Passarinho
Em Passarinho, bairro localizado entre Recife e Olinda, há cerca de 20 mil habitantes que vivem em uma área formada por relevo acidentado e com cursos d’água. Quase 40% deles relatam alagamentos recorrentes nas ruas e cerca de 30% já tiveram danos estruturais em suas casas.
A ocupação do território está ligada à migração de famílias vítimas de desastres anteriores. Em 2022, considerado o episódio mais grave de chuvas, moradores relatam na pesquisa que a água chegou ao teto das residências, destruiu móveis e documentos.
Apesar da recorrência dos eventos, o acesso à assistência é limitado, já que apenas 17,1% dos entrevistados em Passarinho disseram ter recebido algum tipo de ajuda após enchentes, enquanto mais de 80% afirmaram não ter sido atendidos.
A ausência de políticas de prevenção também se reflete na falta de informação e a maioria dos moradores disse não receber alertas prévios nem orientações sobre como agir em situações de risco, o que amplia a exposição a desastres.
“É o próprio território que traz essas informações. Só por isso, já é algo distinto: o fato de o território pautar e construir os indicadores já gera uma informação diferente. E há também outros aspectos. Por exemplo, quando a água baixa, como é que esse auxílio chega? O território está dizendo para a gente que esse auxílio do governo é insuficiente para qualquer coisa, algo que, em uma pesquisa tradicional, muitas vezes não se consegue captar dessa forma”, destaca o assessor de Incidência Política do Instituto Decodifica, Renan Victor.
Dois Carneiros
Em Dois Carneiros, o cenário é ainda mais crítico, segundo a pesquisa. O bairro concentra alguns dos indicadores mais elevados de vulnerabilidade do levantamento. Mais de 73% das famílias afirmam que suas ruas alagam com frequência, e metade relata que a água já invadiu suas casas ultrapassando um metro de altura.
O território é dividido entre áreas altas e regiões planas às margens do Rio Jaboatão e enfrenta problemas estruturais graves, como ausência de drenagem eficiente, saneamento precário e coleta irregular de lixo. Mais de 80% dos moradores afirmam não ter acesso a tratamento de esgoto, condição que agrava tanto os alagamentos quanto os riscos sanitários.
Foi nesse contexto que o bairro registrou 24 mortes durante as chuvas de 2022, tornando-se o local com maior número de vítimas em Jaboatão e um dos mais afetados em Pernambuco. Além disso, mais de 60% das famílias perderam móveis ou eletrodomésticos e cerca de 40% tiveram danos estruturais em suas residências. Há relatos de casas completamente submersas e de água permanecendo por dias dentro dos imóveis, agravando prejuízos e riscos à saúde.
“A gente precisa trazer números e estatísticas que façam das comunidades um cenário de prevenção, de reconstrução, de apoio comunitário, de visibilização e de instrumentalização comunitária. Todas as pessoas que estiveram à frente do processo, na organização da pesquisa aqui em Pernambuco, são da própria comunidade, pessoas que estão no chão do território, que vivenciam os problemas, tanto na organização quanto na coleta e na análise dos dados”, destaca a cientista ambiental e integrante da Comissão ambiental de Jaboatão dos Guararapes, Anielise Campêlo.
Danos materiais e psicológicos
O levantamento também mostra que os efeitos das enchentes ultrapassam os danos materiais. Quase metade das famílias relatou sintomas de saúde após os episódios, como febre, diarreia e dores de cabeça, associados ao contato com água contaminada.
No campo psicológico, mais da metade dos entrevistados afirmou que pensar em enchentes prejudica o sono ou a concentração, enquanto cerca de 40% relatam interferência na vida social e no trabalho.
O fenômeno da ansiedade climática aparece com mais intensidade entre mulheres, especialmente negras, que também são maioria entre os entrevistados.
Outro ponto abordado no levantamento é que mais da metade dos moradores relatou paralisação do transporte público durante enchentes, além de cortes no fornecimento de energia, água e suspensão de atendimentos de saúde. Em muitos casos, a população fica isolada e sem acesso a serviços básicos.
Durante as chuvas, a principal rede de apoio tem sido formada por organizações comunitárias, vizinhos e entidades religiosas. Mais da metade dos entrevistados apontou ONGs locais como responsáveis pela ajuda recebida, enquanto o governo foi citado por menos de 40%.
Mesmo entre os que tiveram acesso a auxílio financeiro, a avaliação é majoritariamente negativa, uma vez que mais de 80% consideram os valores insuficientes para cobrir perdas ou garantir condições mínimas de sobrevivência.
A percepção geral sobre a atuação do poder público é de insatisfação. Mais de 60% dos entrevistados classificam a resposta governamental como ruim ou péssima.
Para o Instituto Decodifica, os dados apontam que as enchentes são consequência de um modelo de urbanização que concentra populações vulneráveis em áreas de risco, sem infraestrutura adequada.
O relatório defende que enfrentar esse quadro exige investimentos em saneamento e drenagem, políticas habitacionais que retirem famílias de áreas de risco, ampliação dos sistemas de alerta e, sobretudo, a inclusão das comunidades na produção de dados e na formulação de políticas públicas.
O que dizem as prefeituras
Em nota, a Prefeitura do Recife informou que, desde 2021, investiu mais de R$ 15 milhões em 368 obras e intervenções de infraestrutura no bairro de Passarinho, alcançando mais de 600 famílias. Entre as iniciativas estão obras de contenção de encostas, pavimentação, drenagem, implantação de geomantas, além da construção e recuperação de escadarias e corrimãos.
A URB concluiu sete contenções definitivas de encosta, com investimento de R$ 8 milhões, e mantém outras três obras em andamento. Já a Defesa Civil realizou 296 intervenções pelo Programa Parceria, beneficiando 424 famílias, enquanto a Emlurb executou obras de escadarias e corrimãos para melhorar a mobilidade dos moradores.
Também foram realizadas obras de pavimentação e drenagem em ruas do bairro. Em toda a cidade, a prefeitura afirma ter investido R$ 1,5 bilhão em ações da Ação Inverno desde 2021, sendo R$ 381,8 milhões previstos apenas para este ano.
O Diario de Pernambuco entrou em contato com a Prefeitura de Jaboatão, mas não obteve retorno.