Colchões na calçada e rupas em brinquedos: moradia improvisadas tomam conta da Praça do Derby, no Recife
Espaço de convivência no centro do Recife, a Praça do Derby reúne fluxo intenso de pessoas e o aumento da permanência de moradores em situação de rua, cenário que tem ampliado a sensação de insegurança entre frequentadores
A utilização de praças públicas como moradia por pessoas em situação de rua tem se tornado cada vez mais frequente em áreas centrais do Recife, alterando a dinâmica de espaços tradicionalmente destinados ao lazer e à convivência.
Na Praça do Derby, um dos pontos mais movimentados da cidade, a presença constante dessa população evidencia um cenário de vulnerabilidade social e ocupação precária.
Colchões espalhados pelas calçadas, roupas estendidas em brinquedos, bancos e até em arames improvisados, além de pessoas deitadas no chão ou ocupando os próprios bancos da praça, fazem parte da paisagem cotidiana.
A cena revela como esses espaços vêm sendo adaptados como abrigo, ainda que sem qualquer estrutura adequada.
Frequentador antigo da praça, José Cláudio, de 46 anos, afirma que já presenciou momentos de ocupação intensa.
“Já vi a praça tomada por moradores de rua. Na véspera de Natal de 2024, isso aqui estava lotado. Todos os canteiros ocupados”, relata.
Segundo ele, a permanência vai além de estadias temporárias. “Tem gente que monta estrutura. Já vi puxarem lona ao lado do banheiro e fazerem uma espécie de residência ali.”
Apesar disso, ele evita julgamentos. “Eu não vou condenar ninguém, porque não sei a situação de cada um. Acredito que a maioria está na rua por falta de opção. Nem todo mundo que está ali é criminoso”, afirma. Para ele, a convivência com essas pessoas não gera, necessariamente, insegurança. “Os que ficam aqui, a gente reconhece. Nunca me causaram medo.”
Já a trabalhadora Luciana Guerreiro, de 37 anos, que passa pela praça diariamente, relata uma percepção diferente. “Todos os dias tem pessoas em situação de rua aqui. Algumas pedem ajuda, mas outras a gente percebe que não é só isso”, diz. Segundo ela, a permanência constante impacta a sensação de segurança. “Como aqui tem empresas e escolas, circula muita gente. Eu não me sinto segura.”
O estudante de fisioterapia Richard Vinicius, de 22 anos, afirma que a ocupação de espaços públicos por pessoas em situação de rua se repete em diferentes áreas da cidade. “A gente vê isso na Boa Vista, na Caxangá, debaixo das pontes. Não é algo isolado”, afirma.
Ele destaca que, na maioria dos casos, a moradia é improvisada. “São colchões, cobertas, às vezes barracos. É uma situação muito precária.”
Para ele, o problema envolve tanto a condição dessas pessoas quanto os impactos no entorno. “É desumano para quem está vivendo ali, mas também é difícil para quem passa. Muitas vezes tem uso de droga, e isso gera medo”, diz.
Já o atendente Rafael, de 25 anos, aponta que a situação se agrava no período noturno. “À noite aumenta o número de pessoas em situação de rua e também aparecem mais problemas”, afirma.
Ele relata episódios de comportamento inadequado no local. “Já vi gente urinando em público, usando droga. Isso gera desconforto.”
Apesar das críticas, ele chama atenção para a falta de alternativas. “Tirar essas pessoas da praça sem dar opção não resolve. Quando chove, alaga tudo, e elas ficam sem ter para onde ir”, afirma.
A ocupação de praças públicas como moradia expõe um problema que vai além do uso do espaço urbano.
Entre estruturas improvisadas e a convivência diária com quem vive nas ruas, o cenário revela a ausência de soluções estruturais para uma questão social que segue presente no cotidiano da cidade.
O que diz a prefeitura
Por meio de nota, a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome (SAS) informou que realiza abordagens sociais diárias em diversos bairros do Recife, incluindo a Praça do Derby, no bairro do Derby, por meio do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS).
Ainda segundo a prefeitura, as ações também ocorrem de forma integrada nos territórios, articulando as políticas de assistência social, saúde, atenção ao uso de álcool e outras drogas e segurança cidadã, com foco no atendimento à população em situação de rua.
A administração municipal disse, também, que, durante as ações, são ofertados acolhimento institucional, encaminhamentos para a rede de saúde, apoio para emissão de documentos e inclusão em programas sociais, cuja adesão não é obrigatória por parte da população, que possui direito constitucional de ir e vir.
A rede de atendimento foi recentemente ampliada com a inauguração da Casa de Acolhida Irmã Dulce, no bairro de São José, em março de 2026, voltada ao acolhimento da população em situação de rua no território e capacidade para atender 70 pessoas do sexo masculino.