Fechamento de praça com tapume expõe drama de pessoas em situação de rua no Recife
Após denúncias de ocupação por moradores de rua, Praça Jener de Souza é fechada e provoca mudanças na rotina e no fluxo da região
O fechamento da Praça Jener de Souza, no bairro do Derby, área central do Recife, expõe a situação de pessoas em situação de rua nos espaços públicos da capital pernambucana.
Segundo comerciantes e moradores das redondezas, o isolamento da praça com tapumes tem relação com denúncias de que o local vinha sendo utilizado como moradia improvisada por pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Ainda de acordo com a comunidade, o fechamento do logradouro público, no fim de fevereiro, mudou a rotina de quem vive nas ruas e depende de assistência social.
Responsável por atender diariamente essa população, a Casa Vincular, ligada à Comunidade dos Viventes, aponta impactos provocados pelo isolamento da área.
Segundo uma representante da instituição, que preferiu não ter o nome divulgado, cerca de 100 pessoas são atendidas por dia, com oferta de café da manhã, banho, atendimentos psicológico, jurídico e médico, além de atividades socioeducativas.
“Antes, eles ficavam sentados nos bancos da praça esperando abrir. Agora, ficam na calçada, sem nenhum apoio. É mais um desconforto para quem já está em situação vulnerável”, afirma.
De acordo com a responsável pela entidade, o espaço da praça era utilizado como ponto de permanência por parte desse público.
“Já teve época de ter 30, 40 pessoas dormindo aqui”, relata. Com o fechamento, essas pessoas se dispersaram e passaram a ocupar outros pontos da região. “Eles se espalharam. Muitos agora ficam em outros lugares e vêm só no horário do atendimento”, diz.
A instituição também aponta falta de comunicação prévia sobre a medida. “A gente só viu quando começaram a cercar. Não houve explicação oficial”, afirma.
A presença de pessoas em situação de rua na praça vinha sendo registrada há anos e motivou denúncias que levaram ao fechamento do espaço. No entorno, trabalhadores e moradores relatam que a ocupação se intensificou ao longo do tempo.
O Diario ouviu pessoas que vivem e trabalham na área, mas ninguém quis ser identificado na reportagem, por medo de represálias.
Uma comerciante que atua há 40 anos na área afirma que a situação se agravou nos últimos anos. “Antes, não tinha tanta gente em situação de rua. Isso piorou muito. Era briga todo dia, confusão, a gente chamava a polícia direto. Ficou muita bagunça aqui dentro”, diz.
Segundo ela, o espaço chegou a ser ocupado de forma contínua. “Armaram barracas, a polícia vinha, tirava, e depois armavam de novo. Ficou difícil”, relata.
Com o fechamento da praça, o impacto também foi sentido no comércio local. “Já estava fraco, mas depois que fecharam caiu 100%. O pessoal das clínicas vinha muito pra cá, agora não vem mais ninguém”, afirma.
Outros trabalhadores confirmam que a praça já não era mais utilizada como espaço de lazer. “Tinha muito morador de rua, não dava pra trazer criança. A praça estava sem condições”, relata uma trabalhadora que atua há cerca de um ano na região.
Ela também menciona episódios de conflito. “Os que já ficavam aqui, a gente conhecia. O problema eram os que vinham de fora. Aí começou a ter mais confusão”.
O que diz a prefeitura
Procurada, a Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) informou, por meio de nota, que a instalação de tapumes na Praça Jener de Souza faz parte do planejamento para a realização de serviços de revitalização no espaço.
Segundo o órgão, a medida tem como objetivo viabilizar a execução das intervenções e garantir mais segurança durante a realização das ações.