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Motoristas de aplicativo traçam estratégias e rotas de sobrevivência para fugir da violência no Recife

Com medo constante, condutores evitam áreas, cancelam corridas e mudam comportamento para reduzir riscos; em 2026, nove foram baleados na RMR e oito morreram

Por Cadu Silva

Motoristas por aplicativo tentam fugir de crimes na RMR diante da alta da violência

Evitar ruas sem saída, desconfiar de corridas mal localizadas no mapa, cancelar chamadas ao menor sinal de risco e reduzir o tempo parado são algumas das estratégias adotadas por motoristas de aplicativo para tentar sobreviver à violência na Região Metropolitana do Recife.

“Hoje não existe mais horário seguro”, afirma a motorista Raquel Ventura, que trabalha na região e já foi vítima de assalto durante o dia. “A gente está vulnerável o tempo todo.”

A sensação não é isolada. Um motorista de 31 anos, que preferiu não se identificar, diz que a principal ferramenta de segurança é a experiência acumulada nas ruas. “Você precisa aprender a ler o mapa. Tem lugar que parece tranquilo, mas não é. Se não souber, entra em área complicada sem perceber.”

Ele afirma que não hesita em cancelar corridas quando identifica risco. “Já aconteceu de eu chegar para pegar um passageiro e ver dois homens em atitude suspeita. Na hora, cancelei e fui embora. Isso já é normal.”

O cenário de violência ajuda a explicar o comportamento cauteloso. Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram que, apenas em 2026, nove motoristas de aplicativo foram baleados na Região Metropolitana do Recife, oito deles morreram. Considerando pouco mais de três meses do ano, isso representa, em média, um motorista atingido a tiros a cada cerca de 10 dias.

Os números ganham rosto em casos recentes. No dia 15 de abril, o motorista Djalma Alves da Silva Júnior foi morto após ser baleado na cabeça nas proximidades da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), durante a madrugada.

Em março, dois outros condutores também foram assassinados em circunstâncias semelhantes: Eduardo Luiz da Cruz, de 31 anos, morto após tentar fugir de uma abordagem em Candeias, e Victor Dantolli de Fontes Souza, de 36 anos, vítima de latrocínio em Casa Forte, enquanto deixava uma passageira.

As ocorrências têm um padrão que preocupa a categoria: abordagens rápidas, geralmente nos momentos em que o carro está parado ou em baixa velocidade.

Decisões em segundos para evitar o pior

Diante desse cenário, motoristas passaram a desenvolver uma espécie de protocolo próprio de segurança, baseado em observação e intuição.

Evitar becos e ruas sem saída está entre as principais medidas. “A gente não entra porque pode ser emboscada. Se precisar sair rápido, não tem como”, explica Raquel.

Outra estratégia é reduzir o tempo de exposição parado, principalmente durante embarques e desembarques. “Quando a gente fica esperando passageiro, é quando fica mais vulnerável”, diz.

O motorista de 31 anos reforça que a análise do trajeto começa antes mesmo de aceitar a corrida. “Eu olho no mapa exatamente onde é. Tem bairros grandes, com áreas muito diferentes. Se não tiver atenção, você entra em lugar perigoso achando que é tranquilo.”

Ele também evita determinados locais em horários específicos. “Tem lugar que de dia eu vou, mas de noite eu não vou. À noite, o risco aumenta muito.”

Além disso, há uma mudança de postura dentro do carro. “Tem que ficar atento o tempo todo. Qualquer movimentação estranha, qualquer coisa fora do normal, já liga o alerta.”

O motorista Ulisses de Andrade Santos, de 42 anos, que atua há nove anos na atividade, relata que o principal critério para evitar riscos é o horário. “Tenho mais receio de rodar à noite, principalmente de madrugada. Durante o dia, dependendo do lugar, ainda vou. Mas à noite eu evito.”

Segundo ele, há áreas que prefere não atender, especialmente por insegurança e falta de familiaridade. “Evito Camaragibe, partes de Jaboatão, algumas áreas de Paulista, Olinda, Cabo e São Lourenço. São locais que não conheço bem, e à noite o risco é maior.”

Ulisses conta que, ao longo dos anos, aprendeu a adaptar o comportamento. “Tem que observar muito, não ficar dando bobeira, prestar atenção no movimento da rua. Hoje a gente trabalha sempre em alerta.”

Medo constante e adaptação da rotina

A percepção de risco alterou diretamente o comportamento da categoria. Para muitos, a escolha entre aceitar ou não uma corrida passou a ser, antes de tudo, uma decisão de segurança.

“Tem corrida que paga mais, mas não vale o risco”, afirma o motorista que pediu anonimato. “Prefiro rodar mais e me expor menos.”

Raquel relata que a insegurança também vem de situações aparentemente comuns. “Às vezes o passageiro demora para sair ou faz a gente esperar muito. Nesse tempo, a gente fica ali exposto, sem saber o que pode acontecer.”

Outro fator que aumenta a vulnerabilidade é a imprevisibilidade das corridas. Segundo os motoristas, nem sempre quem solicita o serviço é quem entra no veículo, o que dificulta qualquer tipo de controle.

A insegurança não se limita ao ambiente externo. Há relatos de conflitos e comportamentos agressivos de passageiros durante as corridas, o que amplia a sensação de risco.

Ulisses também já vivenciou situações delicadas dentro do carro. “Nem sempre é violência física. Já passei por situação de passageiro invadindo espaço, sendo inconveniente. A gente tem que saber lidar para não perder o controle.”

Para ele, o aumento dos casos de violência funciona como um alerta constante. “A gente vê as notícias e fica mais atento ainda. Não dá para relaxar.”

“Você não sabe quem está entrando no seu carro”, resume Raquel.

O medo constante tem impacto direto na forma como esses profissionais encaram o trabalho. “A gente sai de casa e não sabe como vai ser o dia”, diz.

O aumento da violência levou o tema ao debate público

A Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Pernambuco decidiu convocar representantes das plataformas para discutir medidas de proteção aos motoristas e entregadores por aplicativo. A iniciativa ocorreu após as empresas não comparecerem a uma reunião anterior, apesar de terem sido convidadas.

Entre as propostas em discussão está a criação de um cadastro de pessoas condenadas por crimes contra motoristas, além de medidas como instalação de câmeras e ampliação de mecanismos de segurança nas plataformas.

Em março, trabalhadores também realizaram protestos no Grande Recife cobrando ações mais efetivas.

Enquanto as discussões avançam, quem está nas ruas segue contando, principalmente, com estratégias próprias para reduzir riscos.

“Não tem fórmula”, diz o motorista de 31 anos. “É atenção o tempo todo. É isso que faz a gente voltar pra casa.”