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Pesquisa da UFPE investiga origem vulcânica de Fernando de Noronha com método inédito

Estudo combina análises de campo, modelagem 3D e magnetismo das rochas para reconstruir a evolução geológica do arquipélago

Por Adelmo Lucena

Pesquisa da UFPE em Noronha conta com grupo "Vulcano", composto por estudiosos

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desenvolve um estudo com abordagem inovadora para compreender como se formou o arquipélago de Fernando de Noronha. A pesquisa, coordenada pela geóloga Carla Joana Barreto, integra o grupo Vulcano e conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“A ilha principal do arquipélago possui uma organização estrutural e litológica bastante complexa. As feições geológicas encontradas se assemelham às de diversas ilhas vulcânicas distintas ao redor do mundo que compartilham processos de formação parecidos, com destaque para a Ilha de Trindade, no qual as rochas apresentam características similares”, explica a pesquisadora.

Intitulado “Estratigrafia vulcânica e magnética associadas à análise topológica das sucessões efusivas e explosivas do Arquipélago de Fernando de Noronha”, o projeto busca reconstruir a história geológica da ilha a partir de uma combinação de técnicas ainda pouco exploradas na região.

“Eu trabalho com rochas vulcânicas desde o meu mestrado, então já tem alguns anos. Aprovei dois projetos do CNPq, um em 2018 e outro em 2023, e esses projetos possibilitaram a obtenção de recursos para ir à ilha e realizar o mapeamento geológico. Portanto, já são dois projetos desenvolvidos”, afirma Carla Barreto.

Segundo a pesquisadora, o estudo atual está em fase final. “Este projeto atual termina no final deste ano, em 2026. Foi um projeto de três anos, com duas etapas de campo. A primeira ocorreu no final de 2024 e a segunda em fevereiro de 2026. Na primeira etapa, fomos com dez pesquisadores, de diferentes universidades. Já nesta última, participei com mais quatro pesquisadores, todos da UFPE.”

Reconstruindo a história das rochas

O objetivo central é entender como o arquipélago se formou ao longo do tempo. “Fazemos um trabalho de reconhecimento em campo, analisando diretamente as rochas, descrevendo suas características e coletando amostras para estudo em laboratório. Buscamos compreender a formação dessas rochas vulcânicas do ponto de vista temporal, ou seja, identificar o que veio antes e depois, e também sob o aspecto magnético. Realizamos análises magnéticas para determinar a idade e quanto tempo duraram os diferentes pulsos vulcânicos.”

O arquipélago representa o topo de uma cadeia de montanhas submarinas formada ao longo de uma zona de fratura no assoalho oceânico. As ilhas são compostas por rochas vulcânicas originadas em dois grandes episódios eruptivos: um mais antigo, entre 8 e 12 milhões de anos, e outro mais recente, há cerca de 1,7 milhão de anos.

Apesar da extensa produção científica sobre Noronha, ainda são limitados os estudos que abordam aspectos como dinâmica de fluxos de lava, transporte de magma e organização das camadas vulcânicas, lacuna que o projeto pretende preencher.

Uso de tecnologia para documentar rochas

Uma das inovações da pesquisa é o uso de tecnologias digitais para documentar as formações geológicas. “Estamos fazendo o levantamento das praias e das formações rochosas com o uso de drones. A ideia é trabalhar em escalas, sendo elas os modelos 3D dos afloramentos e paredões, modelos das amostras coletadas dessas formações e análises em lâminas. Todo esse material será hospedado em um site que ainda está em fase de alimentação.”

As coletas de dados ocorreram em áreas como a Enseada da Caieira, Baía do Sueste e Praia do Atalaia, onde também foram feitas imagens em 360 graus para compor um acervo virtual do arquipélago.

Um dos diferenciais do estudo está na aplicação da chamada magnetoestratigrafia. “Algumas rochas vulcânicas possuem minerais magnéticos que, ao se cristalizarem durante o resfriamento do magma, registram o campo magnético da Terra naquele momento. Como esse campo varia ao longo do tempo, conseguimos usar essas informações para identificar períodos e mudanças. Isso permite marcar o tempo dos eventos vulcânicos e diferenciar os pulsos de atividade.”

Essa técnica permite refinar a cronologia das erupções e compreender melhor a sequência dos eventos que moldaram o arquipélago.

Os primeiros levantamentos também apontam conexões com outras formações vulcânicas. “A ilha mais próxima com características semelhantes a Noronha é a ilha de Trindade, no Espírito Santo. As duas são muito semelhantes do ponto de vista do tipo de rocha. Também existem algumas rochas no Rio Grande do Norte com características parecidas, mas com idades diferentes. Isso indica uma espécie de evolução do vulcanismo. De forma geral, o vulcanismo tende a evoluir de maneira semelhante, independentemente do local.”

Pesquisa pioneira

O estudo reúne uma equipe de dez integrantes e conta com colaboração de instituições como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e o Observatório Nacional.

“O projeto conta com dez pessoas. Como foi aprovado em 2023, essa equipe se mantém, embora o trabalho de campo tenha sido dividido: na primeira etapa foram dez pesquisadores, e na segunda, cinco. Mas, no total, a equipe é composta por dez integrantes”, detalha a coordenadora.

Para Carla Barreto, o principal avanço está na abordagem adotada. “Fernando de Noronha foi estudado por muitos anos, principalmente por pesquisadores de São Paulo, especialmente da USP, e havia pouca participação de pesquisadores de Pernambuco. O diferencial do nosso trabalho está no uso da estratigrafia vulcânica e da estratigrafia magnética.”

Ela destaca o caráter inédito da pesquisa: “Antes, predominavam estudos de geoquímica e geocronologia, mas não havia esse tipo de abordagem. Por isso, nosso trabalho é considerado pioneiro nessas áreas.”


Além dos resultados científicos, o projeto também busca fortalecer a produção acadêmica regional. “É importante enfatizar o papel do grupo da UFPE nesse estudo das rochas vulcânicas de Fernando de Noronha, especialmente com esse enfoque pioneiro em estratigrafia vulcânica e magnética. Esse é o grande diferencial da pesquisa em relação aos trabalhos anteriores e também reforça a presença de pesquisadores locais em estudos sobre uma área que pertence a Pernambuco, evitando que esse conhecimento fique restrito a grupos de outras regiões.”

A expectativa é que, com a finalização das análises laboratoriais, o estudo resulte em um modelo geológico mais detalhado sobre a formação e evolução do arquipélago, contribuindo para ampliar o entendimento científico sobre o vulcanismo em ambientes oceânicos.