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"Queria resultado rápido": o que está por trás do uso sem controle de canetas emagrecedoras

Relatos de usuários, investigações da polícia e novas medidas sanitárias expõem riscos do consumo irregular de medicamentos à base de GLP-1

Por Adelmo Lucena

Uso de canetas emagrecedoras sem supervisão causa riscos à saúde

“Lá na clínica onde faço procedimentos, via várias pessoas tomando. E aí eu comecei a tomar.” O relato de Valéria Brito, de 42 anos (pseudônimo), resume como tem sido o uso de canetas emagrecedoras sem prescrição médica em Pernambuco, impulsionado pela facilidade de acesso e pela promessa de resultados rápidos.

Sem acompanhamento profissional, ela diz que iniciou o uso por conta própria. “É sem prescrição médica, de fácil acesso, não tem negócio de restrição de nada”, afirma. Apesar dos efeitos colaterais, como enjoo, dor de cabeça e falta de apetite, diversas pessoas continuam com o tratamento sem indicação médica.

No caso de Valéria, o resultado, no entanto, ficou abaixo do esperado: “Perdi no máximo 6, 7 quilos, mas eu queria ter perdido 15”. A experiência dela mostra uma prática que vem chamando a atenção de autoridades sanitárias e policiais no estado.

A decisão de usar o medicamento sem orientação médica foi influenciada pelo ambiente ao redor. “Queria logo, rápido, e ali estava de fácil acesso. Sei que é meio irresponsável, mas tomei”, confessa.

A combinação entre pressão estética e facilidade de compra tem impulsionado o consumo, muitas vezes sem que os usuários tenham conhecimento dos perigos envolvidos.

Polícia tenta conter mercado ilegal

A Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) confirma que tem recebido denúncias sobre a comercialização irregular dessas substâncias, frequentemente associadas a medicamentos populares como o Ozempic. Segundo a corporação, há indícios de atuação organizada em alguns casos.

De acordo com a polícia, o aumento da procura por esse tipo de medicamento nos últimos anos contribuiu diretamente para o crescimento do mercado ilegal. A venda ocorre, principalmente, fora dos canais tradicionais, dificultando o controle.

Entre os principais sinais de irregularidade estão a ausência de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, venda fora de farmácias autorizadas, oferta em redes sociais e aplicativos de mensagens, além de preços muito abaixo do mercado e falta de comprovação de origem.

A comercialização também tem sido identificada em clínicas estéticas não autorizadas, além de negociações diretas via plataformas como WhatsApp.

A venda e distribuição dessas canetas podem configurar diversos crimes. Entre eles a falsificação ou adulteração de medicamento (com penas que podem chegar a 15 anos de reclusão, em casos mais graves), contrabando, crime contra a saúde pública e infrações contra o consumidor.

A Polícia Civil afirma que mantém monitoramento e atua a partir de denúncias, em parceria com órgãos de vigilância sanitária, para identificar e responsabilizar os envolvidos.

Em novembro do ano passado, a Polícia Federal realizou a Operação SLIM para desarticular uma rede que produzia e vendia ilegalmente tirzepatida, substância usada em tratamentos de diabetes e obesidade. Foram cumpridos 24 mandados em quatro estados, incluindo Pernambuco. As investigações apontaram fabricação em condições irregulares, com produção em escala industrial sem autorização, além da venda online sem controle de qualidade, o que representa risco à saúde. 

Riscos à saúde e novas medidas

O avanço desse mercado irregular também levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária a adotar novas medidas de controle na última semana. A agência anunciou um pacote de ações voltadas à segurança de medicamentos injetáveis à base de GLP-1, como semaglutida, tirzepatida e liraglutida.

Entre as iniciativas estão revisão das regras para manipulação, intensificação da fiscalização, suspensão de autorizações de farmácias em situação de risco e a criação de grupo de trabalho com entidades médicas.

A decisão foi motivada por um crescimento considerado irregular na produção e circulação desses medicamentos.

Dados da própria agência indicam que apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos farmacêuticos, quantidade suficiente para cerca de 20 milhões de doses, número incompatível com a demanda oficial.

Em 2026, inspeções resultaram em interdições de estabelecimentos por falhas técnicas e ausência de controle de qualidade. Desde o início do ano, também foram registradas diversas proibições relacionadas à importação, comercialização e uso de produtos irregulares.

Os medicamentos injetáveis exigem padrões rigorosos de esterilidade e pureza. No mercado clandestino, esses critérios muitas vezes não são atendidos. Há risco de falhas na esterilização, uso de insumos sem procedência conhecida, ausência de controle de qualidade e produção sem demanda comprovada.

Além disso, a Anvisa pretende ampliar o monitoramento de eventos adversos em hospitais e serviços de emergência, para mapear possíveis complicações associadas ao uso dessas substâncias.