Moradores realizaram primeiros socorros em desabamento na comunidade do Pilar, no Recife
Comunidade do Pilar agiu antes do socorro oficial em meio ao desespero após desabamento de parte de casarão histórico
Os primeiros minutos após o desabamento de parte de uma estrutura na comunidade do Pilar, no Bairro do Recife, na noite da última segunda-feira (6), foram marcados por desespero e solidariedade entre moradores. Antes da chegada das equipes de resgate, vizinhos se mobilizaram para tentar salvar quem estava sob os escombros.
Uma das primeiras a agir foi Apolly Tawany, de 26 anos, que estava no segundo andar do habitacional Papa Francisco quando ouviu o barulho da estrutura desmoronando. Segundo ela, o momento foi de susto.
“Eu estava tomando banho. Quando meu esposo disse que teve uma ventania muito forte. Ele foi pra janela e disse: ‘amor, você tá sem óculos, mas o que eu vou te dizer é muito forte. Desmoronou a casa de Karol’. E a gente sabia que tinha que ajudar. Não tinha como ficar parado”, relatou.
Enquanto se arrumavam para sair, encontraram outros moradores na rua, também sem saber exatamente como agir diante da situação.
“Um rapaz aqui da comunidade, conhecido como Neguinho, ficou com a mão na cabeça, sem saber se ia ou se voltava. A gente disse que precisava arrombar, porque a casa tinha desmoronado. Nesse meio tempo, eles se juntaram com outros e conseguiram abrir acesso”, contou.
Apolly afirmou que, ao mesmo tempo em que descia para o local, acionou a polícia, o que ajudou a mobilizar os serviços de emergência.
“Eu fui ligando para o 190 enquanto descia. A atendente começou a acionar Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, CTTU… foi muito importante, porque agilizou tudo. Foi uma coisa muito rápida”, disse.
Enquanto isso, o marido dela, George Gomes, e outros moradores iniciavam o resgate com os próprios recursos disponíveis. Sem equipamentos adequados, improvisaram uma maca para retirar uma das vítimas dos escombros.
“Meu esposo desceu e, junto com os meninos, improvisou uma maca. Eles conseguiram retirar Karolaine, que estava por cima dos escombros. Foi uma coisa que, pra quem tem fé, foi de Deus”, contou.
Ela também descreveu o esforço coletivo e a tentativa de manter as vítimas conscientes até a chegada do socorro. “Colocaram ela na maca, foi difícil porque era pesada, demorou. Nesse meio tempo, meu esposo acalmava o marido dela, dizendo: ‘não dorme, fica acordado’. Foi todo mundo colaborando, uma cooperação grande da comunidade, junto depois com os bombeiros. Foi um bom trabalho, com uma equipe boa, mas começou com a comunidade”, destacou.
Apolly relembra que a força do vento já havia causado preocupação momentos antes do desabamento. “Caiu até telha. A ventania foi muito forte, arrancou tudo. A zoada foi muito grande. A gente já tinha se assustado antes, mas não imaginava que ia acontecer uma tragédia dessa”, disse.
Para ela, além do impacto da tragédia, o caso também mostra a realidade de quem vive em áreas de risco. Mesmo abalada, Apolly destacou o sentimento de impotência diante da situação, mas também a importância de agir.
“Eu já fiz curso de primeiros socorros, mas na hora a gente se sente sem saber o que fazer. A gente quer ajudar de qualquer forma. Eu ajudei chamando socorro. E ali foi a força da comunidade, com um ajudando o outro, sem pensar duas vezes”, disse.
Ela também falou sobre a motivação pessoal para tentar ajudar, marcada por uma perda recente. “Eu sou mãe, perdi um filho. Ele faria dois anos agora. Então, na hora, a gente pensa: ‘será que tem uma criança ali?’. Isso mexe muito”, desabafou.
O marido, George, também descreveu o momento como de tensão e ação imediata. “Eu fiquei nervoso, sem saber o que fazer. Mas disse: ‘vamos descer, vamos ajudar’. A gente começou a montar uma equipe ali mesmo. Um pegou lanterna, outro foi tirando os escombros… e a gente foi fazendo o que podia. A mão ficou toda arranhada, mas a gente nem sente na hora. Só sente o prazer de ter ajudado”, contou.
Desabamento deixou mortos
Um casal identificado como Simone Maria de Oliveira, de 53 anos, e de Fabiano Lourenço de Araújo, de 45, morreu na noite de segunda-feira durante o desabamento. Outras duas pessoas ficaram feridas e foram transferidas para o Hospital da Restauração (HR), no Derby.
O sepultamento foi realizado na tarde desta terça-feira (7) no Cemitério de Casa Amarela, na Zona Norte. Moradores da comunidade e familiares se emocionaram e cobraram o poder público durante a despedida. Na ocasião, cartazes foram levados com frases em protesto ao ocorrido.