Barqueiro do Capibaribe perde passageiros com novas pontes do Recife mas aposta na intimidade com o rio para sobreviver
Aos 52 anos, barqueiro Antônio José da Cunha herdou o ofício dos antepassados, viu a cidade envelhecer no espelho das águas do Rio Capibaribe e virou livro infantil
Do espelho das águas do Rio Capibaribe, o barqueiro Antônio José da Cunha, de 52 anos, assiste à movimentação de ônibus, carros e pessoas nas novas pontes que ligam as Zonas Oeste e Norte do Recife. Às novas estruturas urbanas, ele atribui a diminuição gradual do número de passageiros que recorrem a seu barco para realizar a travessia cotidiana entre os bairros do Poço da Panela e da Iputinga. Sem remos, “Pai”, como é conhecido na área, cruza as margens do Capibaribe com o auxílio de uma corda, colocada no local há cerca de 100 anos por seu avô, Severino da Cunha, falecido há 45 anos.
Naquela época, conta Pai, verdureiras, feirantes e trabalhadores, contavam com velho Severino para quase tudo. No Recife, o nobre ofício remete ao século XIX, em que o transporte fluvial nos barcos e canoas era majoritariamente executado por homens negros escravizados, encarregados de conduzir gente, comida e os tijolos que construíram a cidade ao redor do rio.
“Meu avô fechava o barco às dez da noite e ficava sentado nele, com o chapelão de palha. Eu me escondia com meu irmão num cantinho do barco pra olhar pra ele”, lembra Pai.
Com sua propriedade de correr e nunca sair do lugar, a água do rio também carregou o barco do pai de Antônio, até conduzi-lo para a missão de conectar a cidade. “Foi ele quem me deu esse apelido de “Pai”, porque eu batia no meu irmão. Não faço meu trabalho por dinheiro, dinheiro não é tudo na vida. Faço por compromisso”, conta Pai.
Nos tempos passados, contudo, o Capibaribe não era apenas meio, mas local de pesca, brincadeiras e prática esportiva. Embora celebre a possibilidade de cruzar com capivaras e jacarés no trajeto diário, Pai reconhece que a poluição alterou a dinâmica do local. “Os peixes são os que mais fazem falta. Antes, eles pulavam dentro do barco. Agora, a gente não vê mais”, lamenta.
Sem celular ou despertador, o barqueiro acorda todo dia antes do sol, sempre no mesmo horário, segundo garante. Como não mede o tempo por segundos, minutos ou horas, nunca está atrasado. “Se eu não vier, quem vem? Quem não tem dinheiro hoje, me paga amanhã. Pra quê agonia? Vou levar dinheiro pro caixão não”, afirma.
Confissões do rio
Pai de dois filhos, o barqueiro vive em uma pequena e florida casa a alguns metros da margem do rio, no bairro da Iputinga, com a esposa, a neta, uma gata, uma porca prestes a dar cria e duas tartarugas recém-chegadas. Avesso ao barulho das obras, motores e buzinas da cidade, ele só perde a paciência em apresentar cada um dos moradores de sua residência quando é interrompido por algum desses ruídos. “Se eu pudesse, fazia uma casa pra morar dentro do rio”, diz.
No silêncio das águas, “Pai” compartilha segredos com o Capibaribe. “Eu converso com o rio, mas não vou dizer a vocês o assunto, porque é particular”, brinca.
A relação de intimidade entre o barqueiro e o rio chamou a atenção da artista pernambucana Catharina Rosendo, que lançou, neste mês, o livro “Acorda Rio- Memórias de uma travessia”. Voltada para o público infantil, a obra conta a história de “Pai” e de seu ofício ancestral.
“Ele é uma memória viva do rio, que conta a história de um Capibaribe limpo, que matava a fome das pessoas. Agora, com as novas pontes, temo que esse ofício deixe de existir”, afirma Catharina.