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Ruínas do Convento de Santo Amaro preservam capítulo da história colonial de Pernambuco

Por Nicolle Gomes

Santuário Mãe Rainha, em Ouro Preto, Olinda

Os muitos visitantes do Santuário Mãe Rainha, em Ouro Preto, Olinda, na maioria das vezes nem imaginam que algumas ruínas, pouco à frente da Igreja, têm tanta história a contar. O que restou do Convento de Santo Amaro da Água Fria, construído em 1662, guarda significados importantes para Pernambuco.

No último domingo, o governo do estado anunciou uma licitação para serviços de recuperação da encosta e reforma estrutural da tenda destinada aos peregrinos do Santuário. Com investimento de R$ 1,4 milhão, a intervenção irá mitigar riscos de deslizamento e requalificar os espaços de uso coletivo.

A região foi doada por Duarte Coelho, ainda em 1535, como dote de casamento. À época, Pernambuco ainda era uma capitania hereditária. “A terra foi doada pelo próprio Duarte Coelho como um dote pelo casamento de uma das suas afilhadas para Diogo Gonçalves. Foi logo no começo do período colonial. Naquela época ainda não tinha santuário, não tinha capela”, explica o historiador Will Lopes.

Segundo ele, em 1630, foi construída uma ‘ermida’, uma pequena igreja ou capela, frequentemente situada em locais isolados. Lá, eram celebradas missas dominicais. Não se sabe quem foi o responsável pela construção. “Em 1630, Pernambuco tinha sido invadido pelos holandeses e aquele período de domínio durou até 1654. Aquela região foi utilizada como ponto estratégico da resistência que tinha a intenção de expulsar os holandeses e ficava no Arraial do Bom Jesus”, detalha Lopes.

Após a expulsão dos holandeses, Portugal investiu em um movimento de catequização da população. “Uma grande questão com a presença holandesa foi o favorecimento da comunidade judaica. Os judeus começaram a ter uma maior liberdade, algo que não era permitido pelos católicos”, compartilha. Para "recuperar" o catolicismo, Portugal enviou dois padres a Pernambuco: Sacramento e Vitória. Eles fundaram a Missão dos Oratorianos no Brasil (baseada nas regras de São Felipe Neri). Segundo as informações do Santuário Mãe Rainha, em 1661 o local era habitada pelo ermitão Montes Claros, que a cedeu aos padres.

À igrejinha, foram adicionados uns pequenos cômodos. O convento então foi construído em 1662, com a primeira pedra sendo colocada no dia 15 de agosto, na festa de Nossa Senhora da Encarnação, a quem se dedicou a Igreja. “Os padres que viviam lá não tinha nenhum luxo, era tudo muito simples, algumas pesquisas chegam a falar que eram cubículos onde eles viviam a ermita era tão pequena que algumas pessoas conseguiam tocar o telhado em pé”, acrescenta Lopes.

“Foi a partir desses dois padres que se iniciou no Brasil a missão dos oratorianos. É uma das ordens da Igreja Católica, que tinha surgido no século 16, com base nas regras de São Felipe Neri. Esses dois padres chegam aqui no Brasil e se estabelecem ali por dois motivos: primeiro que já tinha uma ermida lá, então já tinha a base para a formação da congregação. E, segundo, porque era um local muito afastado dos principais pontos da cidade”, diz o historiador.

Para se adequar à Ordem, que tinha foco em ações urbanas, os padres começaram, em 1679, a construção da Igreja e Convento da Madre de Deus, em Recife, que tinha uma vila mais numerosa. Com a transferência dos padres o espaço seguiu sendo utilizado, mas caiu em desuso em meados do século 17. Em 1883, o Convento de Santo Amaro da Água Fria foi confiscado pelo Governo Imperial do convento de Santo Amaro restam apenas as ruínas que na construção do Santuário foram cuidadosamente preservadas.

“A partir daquela época aí o convento já começa a entrar no declínio, mas realmente o que culmina o fim é justamente naquele período ali de transição de independência do Brasil”, afirma Will Lopes. Uma vez dedicada a Nossa Senhora da Encarnação testemunho a Missão Mariana que permanece viva junto ao Santuário da Mãe Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt.

“As ruínas ficaram deterioradas, até que nos anos 90 se construiu o Santuário, foi inaugurado o santuário Mãe Rainha, que é justamente na área onde inicialmente haviam habitado os oratorianos, no século 16”, relaciona o historiador. Will destaca que preservar essas ruínas é fundamental para a identidade do povo pernambucano, pois elas contam as raízes da sociedade e ajudam a evitar que a história caia no esquecimento.

Diante de uma história tão relacionada com o território pernambucano, o Padre Filipe Araújo, do Santuário Mãe Rainha em Olinda, comenta o que mais o fascina sobre as ruínas. “O que mais me fascina é a fidelidade de Deus. Como padre essa é a primeira coisa que me brota no coração, fidelidade à história, aos propósitos, aos anseios. Este monte desde os inícios da nossa história como como estado, como país, era dedicado à oração e à missão. Existiam todos os tipos de realidades difíceis aqui. E então ele foi recuperado para evangelização, para Nossa Senhora”, relata.

O Padre enfatiza ainda, o valor misturado entre história e religião nas ruínas. A manutenção das estruturas é de responsabilidade do Santuário. “Essas pequenas ruínas são apenas um pedaço minúsculo daquilo que existia sobre este morro, é um testemunho físico, de que aqui existia uma comunidade, a primeira fundada nas Américas, possivelmente. Então é um pedaço de história que vale a pena a gente manter”, adiciona.