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Quadrilha da carne chegou a emitir quase R$ 1 bi em notas fiscais, diz a Fazenda de Pernambuco

A emissão de notas fiscais no valor aproximado a R$ 1 bi por empresas de capacidade operacional incompatível com o volume financeiro foi o ponto de partida para as investigações da Secretaria da Fazenda de Pernambuco que levaram à quadrilha da carne

Por Cadu Silva

Operação Reencarnação cumpriu 12 mandados de busca e apreensão e 2 de prisão

A emissão de quase 1 bilhão de notas fiscais por empresas sem estrutura compatível com o volume de operações levou auditores fiscais e investigadores a identificar um esquema de sonegação fiscal no setor atacadista e varejista de carnes em Pernambuco.

Segundo o Ministério Publico, a fraude teria causado prejuízo estimado de R$ 145 milhões aos cofres públicos.

A investigação resultou em uma operação conduzida por órgãos que integram o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA).

Ele é formado pelo Ministério Público de Pernambuco, Secretaria da Fazenda de Pernambuco, Secretaria de Defesa Social de Pernambuco e pela Procuradoria Geral do Estado de Pernambuco, com apoio da Polícia Civil de Pernambuco e da Polícia Militar de Pernambuco.

Durante a operação foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão preventiva.

A Justiça também determinou o sequestro de bens superior a R$ 120 milhões, incluindo imóveis, veículos e valores em contas bancárias.

Volume de notas fiscais

A fraude começou a ser descoberta durante fiscalizações de rotina realizadas pela Secretaria da Fazenda. Auditores identificaram mercadorias circulando sem documentação fiscal e passaram a monitorar empresas com movimentação considerada atípica.

De acordo com o diretor de Operações Estratégicas da Secretaria da Fazenda de Pernambuco, Emery Lopes, o primeiro alerta surgiu a partir da quantidade de notas fiscais emitidas por determinadas empresas.

“Essa fraude foi identificada no campo, em ações rotineiras, quando encontramos mercadorias sem nota fiscal e também um volume muito grande de notas emitidas por alguns contribuintes”, explicou.

Com o aprofundamento das análises, os fiscais constataram que o grupo investigado havia emitido quase 1 bilhão de notas fiscais, número considerado incompatível com a estrutura dos estabelecimentos.

“O que chamou atenção foi justamente o volume de notas fiscais emitidas. Quando fomos verificar em loco, vimos que muitos desses estabelecimentos eram apenas uma sala e não tinham estrutura para negociar aquele volume de mercadorias”, afirmou.

Durante as diligências, os auditores identificaram que alguns desses estabelecimentos sequer possuíam equipamentos básicos para o tipo de atividade declarada.

“Alguns não tinham nem câmara frigorífica para armazenar carne, que era o principal produto comercializado”, disse.

A Secretaria da Fazenda identificou que o esquema operava por meio de diferentes empresas ligadas a um mesmo grupo econômico, com atuação que se estendeu por vários anos.

Segundo Emery Lopes, em 2024, foi identificado um primeiro grupo formado por duas empresas principais, cada uma delas ligada a quatro ou cinco CNPJs, o que resultava em uma estrutura com até 15 empresas operando de forma articulada.

Já em 2025, os auditores identificaram uma nova estrutura do mesmo grupo, considerada mais sofisticada, com uma empresa central que chegou a reunir cerca de 4 CNPJs vinculados.

“O modo de atuação era sempre o mesmo. Eles criavam empresas em nome de pessoas sem capacidade financeira, começavam a movimentar notas aos poucos e iam aumentando o volume até chamar a atenção da fiscalização”, explicou.

Quando as empresas eram autuadas pela Secretaria da Fazenda, os responsáveis encerravam as atividades e abriam novos registros empresariais para continuar operando.

“Eles fechavam a empresa e reabriam outra com novo CNPJ e nova inscrição estadual”, afirmou o auditor.

Empresas de fachada

De acordo com a Secretaria da Fazenda, as diligências apontam que o grupo utilizava empresas abertas em nome de “laranjas”, pessoas sem capacidade financeira para responder pelas dívidas tributárias.

Entre os casos identificados estavam pessoas de baixa renda e até beneficiários de programas sociais.

“Identificamos sócios que eram beneficiários do Bolsa Família. Isso começou a chamar nossa atenção”, disse Emery Lopes.

Segundo os investigadores, essas pessoas eram registradas formalmente como proprietárias das empresas, mas não tinham participação real na gestão dos negócios.

Conforme o promotor de Justiça Carlos Eugênio do Rego Barros, do Ministério Público de Pernambuco, o grupo criminoso atuava há aproximadamente dez anos, utilizando empresas de fachada para simular operações comerciais.

“Algumas até existiam de fato, mas não tinham capacidade para transacionar o volume de notas fiscais que recebiam. Outras sequer existiam”, afirmou.

O promotor afirma que muitas dessas empresas estavam registradas no mesmo endereço, o que facilitava a emissão de notas fiscais entre empresas do próprio grupo.

“O objetivo era gerar notas fiscais direcionadas para outras empresas do próprio grupo”, explicou.

Até o momento, as investigações identificaram pelo menos 45 empresas ligadas ao esquema e nove pessoas envolvidas, número que pode aumentar com a análise do material apreendido.

Entre os investigados, um casal apontado como líder da organização criminosa foi preso preventivamente.

“Essas pessoas compõem a liderança do grupo criminoso. As investigações continuam e não está descartada uma nova fase da operação”, afirmou o promotor.

A Justiça determinou o bloqueio de bens para garantir a recuperação dos valores desviados.

“Foi determinado o sequestro de bens superior a R$ 120 milhões, incluindo imóveis, veículos e valores em contas bancárias”, disse Carlos Eugênio.

Segundo o Ministério Público, o objetivo é que os recursos retornem aos cofres públicos.

“A intenção é que esses valores sejam revertidos ao Estado para serem utilizados em serviços públicos, como saúde e educação”, afirmou o promotor.

O material apreendido durante a operação ainda será analisado e pode levar à identificação de novos participantes e empresas envolvidas no esquema.