Recife lança ferramenta de IA para identificação de mulheres em situação violência em unidades de saúde
Ferramenta de inteligência artificial passa a atuar na Atenção Básica da saúde do Recife para apoiar profissionais na detecção de sinais de violência em mulheres pacientes da rede
A rede de Atenção Básica de Saúde do Recife passará a contar com uma nova ferramenta de inteligência artificial para detecção precoce de casos de violência contra a mulher. Lançada nesta segunda (9) a “Clara IA” serve para apoiar profissionais e sinalizar, por meio de cruzamento de dados, quando uma paciente for possivelmente vítima de uma situação violenta, para que ela possa receber o devido auxílio.
A ferramenta atua analisando dados clínicos e históricos da paciente registrados nos sistemas de saúde. Se a Clara IA identificar indícios compatíveis com situações de violência, será emitido um alerta para os profissionais diretamente no Prontuário Eletrônico das Unidades Básicas de Saúde, durante o atendimento da mulher. A equipe de saúde deverá prestar o devido apoio para a vítima.
“Ao longo de 5 anos fizemos um estudo junto com a Vital, uma ONG global com presença no Brasil, analisando dados de saúde de 900 mil mulheres atendidas na nossa rede de saúde. Com os dados dos prontuários eletrônicos, sistemas de notificação, idas à unidade de saúde, visitas à emergência, conseguimos cruzá-los com dados de violência contra mulher na cidade. Foram identificados quais são os comportamentos padrão que acontecem na vida da mulher antes dela sofrer uma violência notificada ou chegar a um feminicídio”, disse o Prefeito João Campos (PSB), durante o lançamento.
Segundo a Prefeitura do Recife, neste mês de março, a iniciativa será ampliada para mais 21 unidades de saúde, totalizando 541 profissionais habilitados para o cuidado às mulheres em situação de violência. A novidade deverá alcançar toda a rede de Atenção Básicada de saúde do Recife até julho, segundo o chefe do executivo municipal.
Subnotificações
A intenção é diminuir a subnotificação, que são os casos de violência que acontecem mas não são identificados pelo poder público, destacou a Secretária de Saúde do Recife, Luciana Andrade.
“O objetivo é reduzir subnotificações de violência, aumentar as nossas possibilidades de intervenção, de cuidado e reduzir os casos de feminicídio, a partir de um alerta que aparecerá no prontuário eletrônico das unidades de Atenção Básica. A partir de uma análise semântica feita pela inteligência artificial no prontuário eletrônico, o alerta sinaliza ao profissional que acolha diferente essa mulher, porque porque ela pode estar sofrendo um caso de violência, mas não relatar. A partir daí, o profissional de saúde vai fazer o encaminhamento para rede de proteção”, detalha.
Quando um possível caso de violência detectado for confimado, a mulher será encaminhada para a rede de acompanhamento.
“O profissional de saúde vai identificar, a partir do alerta da inteligência artificial, e vai encaminhar essa mulher para rede de proteção. Na rede, ela vai ter uma escuta qualificada, vai ser acompanhada e fortalecida, independente de ter ido ou não fazer a denúncia. Ela vai ser acolhida para que a gente possa fortalecê-la e ela possa denunciar, e que nós possamos contribuir para o fim do ciclo de violência”, afirmou a secretária da Mulher do Recife, Glauce Medeiros.
Segundo o prefeito João Campos (PSB), o número de notificações deve crescer em função do aumento das detecções.
“O que a gente quer é reduzir a subnotificação. Não queremos que tenha violência, mas se existir, tem que ser notificado, porque se for notificado, quando se tem uma mulher que é acompanhada pela nossa rede de referência, ela tem uma chance muito menor de sofrer feminicídio do que a não acompanhada. A gente não pode ter medo de enfrentar o problema”, destacou.
Guia Prático
A gestão municipal também estreou, nesta segunda (9), o Guia Prático de Atenção às Mulheres em Situação de Violência no Recife, documento elaborado para qualificar a atuação dos profissionais da rede municipal no acolhimento, condução clínica e psicossocial, encaminhamento e notificação de casos.
“A gente vai ter uma abordagem treinada pela Secretaria de Saúde. O guia prático, lançado hoje, serve para treinar toda a equipe conduzir uma abordagem, identificar se a paciente tá sendo vítima de violência ou não. Vai perguntar ela, vai poder conversar com ela de forma proativa. Nossa expectativa é colocar a tecnologia a serviço da segurança das mulheres e nós vamos levar isso para todas as unidades de saúde do Recife”, complementou o prefeito.
Sobre a Clara IA
Segundo as informações repassadas pela Prefeitura do Recife, o nome da ferramenta faz referência à Rede Clarissa, iniciativa da gestão dedicada ao atendimento e à proteção de mulheres vítimas de violência.
A Clara IA foi desenvolvida em uma parceria entre a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Saúde, a Vital Strategies, organização internacional de saúde pública, e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
A ferramenta analisou registros de atendimento de 16 mil mulheres vítimas de violência atendidas nas Unidades de Saúde da Família do município ao longo de dez anos. A análise, combinada ao cruzamento de dados do Sinan (Sistema de Informações de Agravos de Notificação), identificou sinais diretos de violência e padrões de adoecimento e comportamento frequentemente associados às vítimas.
A pesquisa revelou que nos 90 dias que antecedem uma agressão grave ou mesmo um feminicídio, muitas dessas mulheres procuram com maior frequência os serviços de saúde, frequentemente relatando questões relacionadas à saúde mental.
Antes da expansão da estratégia para outras unidades da Atenção Básica, a Clara IA foi testada, segundo a Prefeitura do Recife, em um projeto-piloto no Distrito Sanitário I, envolvendo três Unidades de Saúde da Família, além de uma equipe E-Multi. Ao todo, 62 profissionais foram capacitados para atuar na identificação e no acolhimento de possíveis vítimas.