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Elas conseguiram sobreviver à violência doméstica e contam suas histórias

Para marcar o Dia Internacional da Mulher, o Diario traz dois relatos de quem viveu na pele a violência e, hoje, conta sua história para que sirva de exemplo

Por Nicolle Gomes

Charlenne

O Dia Internacional da Mulher é um marco que traz reflexões sobre as lutas que, diariamente, mulheres têm de enfrentar, como desigualdades, preconceitos e violência. Diante do desafio e da superação que é ser mulher, o Diario conversou com vítimas de violência doméstica que, mesmo diante da dor, conseguiram um novo recomeço para as próprias vidas.

Sair de um relacionamento abusivo é apenas o primeiro passo de uma maratona que exige coragem e, sobretudo, amparo. Para Charlenne Prado, de 44 anos, esse processo levou 13 anos. O que começou com proibições sutis sobre uso de maquiagens, roupas e exigências de mudanças de comportamento, evoluiu para uma rotina de violência física e isolamento.

“Passei por muita coisa com o ser humano que achou que eu era um terreno. Ele me privou de tudo. Eu gostava de dançar, de sair, ver gente, de tomar um sorvete. Ele começou a tirar aos poucos e eu sem entender. E foi cada vez mais. Começou criticando uma maquiagem, uma roupa, foi me cercando, me humilhando. Quando tive meu primeiro filho, começaram as brigas e confusões, ele começou a me bater”, relembra Charlenne.
Ela conta ao Diario que tentou se separar do agressor quatro vezes, mas voltava a se submeter às situações de violência por medo, e que teve que enfrentar tudo praticamente sozinha. “Eu não tinha para onde ir, não tinha quem dissesse ‘saia que eu te ajudo’. Eu só tinha minha mãe, e ela também tinha medo”, afirma.

As agressões eram tantas e tão graves que impactaram a vida dos dois filhos do casal. Rinaldo, de 19 anos, é o caçula de Charlenne. Segundo ela, ele convive com sequelas da violência durante a gravidez. “Meu filho, além de ter uma paralisia cerebral, tem retardo mental e hiperatividade, é cheio de patologias devido às pancadas que levei na gravidez dele. Ele nasceu uma criança com encefalopatia crônica. Ele tem uma má formação no cérebro porque, quando o sistema nervoso dele estava sendo formado, eu estava apanhando”, explica, emocionada.
Após anos de agressões e medo constante, decidiu que não aceitaria mais aquela realidade. “Toda a história da vida da gente, da vida da minha família, de minha e dos meus dois filhos, foi marcada por isso. Até o dia em que despertei e disse: ‘Eu não quero mais, não aceito mais’. Ele bebeu e ameaçou me matar”, conta.
O ex-marido não acreditava que era para valer. Segundo Charlene, ele tentou ameaçá-la e até ateou fogo na casa em uma atitude vingativa. “Eu tinha tirado de dentro de casa o mais importante, que eram os meus dois filhos. Quando eu fui saindo, ele disse que não ia ‘ficar assim’. Ele tentou me ligar, tentou fazer muitas coisas. Me disseram que o sofá estava pegando fogo. Eu não quis saber”.

Era 2008 quando ela conseguiu sair da casa do agressor. Mesmo após o divórcio, as ameaças continuaram por anos. “Eu fugi para o interior para me proteger. A gente dormia no chão, não tinha cama nem colchão”.
Apesar das dificuldades, Charlenne conseguiu, com muito trabalho, criar os filhos sozinha, sem sequer receber pensão do ex-marido. Após anos de sofrimento, ela se define como uma “fênix” que ressurgiu das cinzas. Se encontrou na costura e afirma viver hoje o melhor momento da vida na profissão. “No meu aniversário passado, eu fiz a tatuagem que eu tanto queria. É a máquina de costura, o coração, a agulha e a tesoura. Significam tudo na minha vida”.

Maria (nome fictício), de 45 anos, conviveu por mais de 25 anos com o ex-marido. Ela tinha 18 quando casou. “Para mim, a questão da dependência emocional foi o que mais pesou, até porque eu tenho dois filhos com ele, foram 25 anos bem conturbados. Até pensei em tirar a (queixa da) Maria da Penha devido à dependência emocional que eu tinha”, ela conta.

Ela diz que começou a perceber comportamentos estranhos ainda quando era noiva, com comentários ofensivos sobre a aparência e críticas sobre ela. Além disso, ela também era vítima de manipulação. “Quando ele viu que eu estava me afastando dele, ele ponderava e voltava novamente a ser aquele bonzinho, amoroso, carinhoso que dava presente, que dava beijinho.”
Maria relembra como aconteceu a primeira agressão, após os episódios de constrangimento e violência. “Eu disse que não queria mais conversar, que ia embora. Me tranquei no quarto, comecei a fazer minha mala. Ele bateu na porta do quarto e eu não abri. Ele desligou a luz da casa, e quando fui religar, ele veio para cima de mim, foi uma briga feia. Ele me deu um murro que quebrou meu canino direito”, relata.
Ainda casada, Maria iniciou o sonho de cursar odontologia e também teve que conviver com a constantes desmotivações do ex-companheiro. Segundo a mulher, as tentativas de separação eram sempre frustradas, pois o agressor não aceitava o fim do relacionamento.

“Quando eu estava no sétimo período, eu decidi me separar dele de vez”. Ele começou uma perseguição. Diante da situação, o ex-marido chegou a ser preso, mas não permaneceu detido.


Ela ainda precisou lidar com a alienação parental dos filhos. “Ele tenta me culpar. Diz que tudo que estou construindo hoje foi graças ao que destruí dele”. Maria nunca mais cedeu ou retornou a conviver com o agressor.