Câncer de colo do útero: doença desafia acesso à prevenção e mobiliza ações em Pernambuco
Vacinação contra HPV e exame Papanicolau são principais armas contra tumor evitável
Março é o mês de conscientização sobre o câncer de colo do útero, campanha conhecida como Março Lilás, que busca alertar a população sobre prevenção e tratamento da doença. Apesar de ser amplamente evitável por meio da vacinação contra o HPV e do rastreamento regular, o tumor ainda registra alta incidência e mortalidade no Brasil, especialmente em regiões com desigualdade de acesso aos serviços de saúde.
Em Pernambuco, estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2023-2025 apontam cerca de 770 novos casos por ano no estado, com taxa de incidência de 15,18 casos por 100 mil mulheres. No Recife, a incidência chega a aproximadamente 18,02 casos por 100 mil mulheres, acima da média estadual.
No Brasil, a estimativa é de 19.310 novos casos anuais entre 2026 e 2028 e 7.209 mortes registradas em 2023.
Segundo o oncologista clínico Luiz Alberto Mattos, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretor do Centro de Ciências Médicas da instituição, o câncer de colo do útero é considerado evitável porque se desenvolve lentamente a partir de lesões precursoras detectáveis e tratáveis. O especialista destaca duas barreiras eficazes contra a doença, sendo a vacinação contra o HPV e o rastreamento com exame Papanicolau e teste de DNA-HPV.
“Ele costuma se desenvolver de maneira insidiosa, a partir de lesões benignas precursoras detectáveis e tratáveis. Quando o diagnóstico é precoce e o tratamento é oportuno, o potencial de cura é alto. O paradoxo brasileiro é que a prevenção não chega com a mesma força para todas”, explica..
Nos estágios iniciais, o câncer de colo do útero geralmente não apresenta sintomas, o que torna necessário o rastreamento periódico.
Quando sinais aparecem, os principais incluem sangramento vaginal fora do padrão (entre menstruações, após relações sexuais ou após a menopausa), corrimento persistente com odor forte ou associado a sangramento, dor pélvica ou dor durante a relação sexual e em casos avançados a perda de peso, cansaço intenso e sintomas urinários ou intestinais.
“Sangramento fora do habitual não é normal e não deve ser naturalizado, precisa de avaliação médica”, alerta Mattos.
Desigualdade social
A infecção pelo HPV é condição necessária para o desenvolvimento da doença, mas outros fatores contribuem para sua progressão, como imunossupressão, especialmente infecção pelo HIV, infecções sexualmente transmissíveis associadas, uso prolongado de contraceptivos orais em determinados contextos, múltiplas gestações e dificuldades de acesso ao sistema de saúde.
Segundo o oncologista, mulheres em situação de vulnerabilidade social apresentam maior risco de adoecer e morrer, principalmente por barreiras à vacinação, ao rastreamento e ao tratamento.
“Há evidências brasileiras de desigualdade no próprio rastreamento no SUS: um estudo recente estimou cobertura em torno de 39% para rastreamento em mulheres de 25 a 64 anos, com diferenças por raça/cor e regiões, sinalizando barreiras concretas de acesso”, afirma Luiz Alberto Mattos.
Outro problema enfrentado é o diagnóstico em estágio avançado. De acordo com Mattos, isso ocorre porque o cuidado muitas vezes acontece de forma fragmentada. “Muitas vezes a mulher faz o exame, mas não recebe o resultado, ou não consegue realizar a biópsia, ou não entra na linha de tratamento a tempo. Soma-se a isso o fato de o câncer inicial ser silencioso.” A demora reduz significativamente as chances de cura e aumenta a mortalidade.
Estratégias de prevenção no Recife
A Secretaria de Saúde do Recife afirma que, na rede municipal, a prevenção se baseia na vacinação e no rastreamento periódico.
O município destaca que implementou uma nova estratégia alinhada às diretrizes do Ministério da Saúde, com expansão do público-alvo para pessoas de 9 a 19 anos (antes era de 9 a 14 anos), esquema vacinal de dose única, substituindo o modelo anterior de duas doses e imunização disponível em 170 salas de vacinação e nos centros instalados nos shoppings RioMar Recife e Boa Vista.
O público-alvo inclui meninas e meninos de 9 a 19 anos, com objetivo de proteção antes da exposição ao vírus. Pessoas imunocomprometidas, vítimas de violência sexual e outros grupos específicos podem receber a vacina até os 45 anos, conforme o Programa Nacional de Imunizações.
Para vacinação, é necessário apresentar documento com foto e CPF e, se possível, a caderneta de vacinação. Menores devem estar acompanhados por responsáveis.
Para detecção precoce, o exame citopatológico (Papanicolau) permanece como método consolidado no Sistema Único de Saúde. No Recife, o rastreamento ocorre de forma organizada e territorializada para mulheres e pessoas com útero entre 25 e 64 anos.
Após dois exames anuais consecutivos normais, o intervalo recomendado passa a ser de três anos. Entre as ações implementadas estão a oferta contínua do exame na Atenção Primária, busca ativa pelas equipes de Saúde da Família, monitoramento dos resultados e convocação de pacientes com exames alterados.
O município também afirma que prioriza o acompanhamento de mulheres com lesões precursoras de alto grau, com encaminhamento para tratamento por meio da Cirurgia de Alta Frequência (CAF), procedimento com elevado potencial de cura quando realizado precocemente.
Outro destaque é o Programa Útero é Vida (PUV), implantado em 2022. Desde 2024, o município ampliou o acesso ao teste molecular para HPV (RT-PCR), atualmente disponível em 16 unidades de saúde.
Em 2025 foram realizados 5.025 testes, que corresponde a 105% da meta. Mais de 7.300 mulheres e pessoas com útero já foram beneficiadas.
O programa garante encaminhamento para diagnóstico e tratamento das lesões de alto grau e deverá ser expandido gradualmente para todos os distritos sanitários até o fim de 2026.