Cadeirante que morreu após ser arremessado de prédio em Boa Viagem era ex-paratleta e foi enterrado como indigente
Família de Maykon Douglas de Jesus Almiron diz que vai processar o Estado de Pernambuco por danos morais
O cadeirante que morreu após ser arremessado do quarto andar de um prédio em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, em 13 de fevereiro, era o paratleta Maykon Douglas de Jesus Almiron, de 30 anos, do Mato Grosso do Sul. Ele foi enterrado na quinta-feira (26) como indigente após nenhum parente aparecer para reconhecer o corpo. A família cobra esclarecimentos sobre o caso.
O delegado Rodrigo Bello, que registrou a ocorrência, informou nas redes sociais que o homem que empurrou Maykon foi ao calçadão de Boa Viagem acompanhado de uma amiga. Lá, eles conheceram o ex-paratleta, que vendia balas.
"Essa pessoa disse que ficou comovida com a história de Maykon, com a deficiência dele, conversaram um pouco, e essa pessoa convidou Maykon para subir ao apartamento dele", diz o delegado.
A pessoa a qual o delegado se refere é Thiago Regalado da Carvalheira, de 35 anos, conforme boletim de ocorrência ao qual o Diario de Pernambuco teve acesso. Segundo o delegado, Thiago teve um surto psicótico e tentou agredir a amiga e uma empregada doméstica.
"Maykon, que era um cadeirante, ficou no apartamento, não tinha como correr. E acabou sendo arremessado da varanda do apartamento", completa o investigador. Thiago também pulou do apartamento e faleceu.
Maykon Douglas foi campeão em bocha adaptada nos Jogos Parapan-Americanos de Jovens, em 2013, em Buenos Aires. Ele representou o Mato Grosso do Sul em competições nacionais e internacionais, também fazendo parte da seleção brasileira de bocha nos Jogos Parasul-Americanos de Santiago, no Chile, em 2014.
"Não fomos procurados"
A maquiadora Maria Gabriela Almiron, prima de Maykon, diz que a família processará o Estado de Pernambuco por danos morais por não ter localizado os parentes da vítima.
"Por que demoraram tanto para localizar a família do meu primo? Como o Estado, com o poder e a tecnologia que tem, não conseguiu?", questiona ela em entrevista ao Diário de Pernambuco.
O documento de identidade de Maykon foi encontrado pela polícia no apartamento de Thiago. "Meu primo era atleta. Era só 'dar um Google'"
"A gente está indignado. A mãe dele está à base de remédios. Está todo mundo em choque. A gente não viu o corpo, não teve velório", lamenta.
Ela conta que Maykon vendia balas por decisão própria e não por necessidade. Ele visitou a família em julho do ano passado, após cinco anos sem voltar para sua casa no Mato Grosso do Sul.
"Ele não atendia o telefone, não falava onde estava e nem com quem estava. Não gostava de ser incomodado. Era o jeito dele", acrescenta a maquiadora.
A família também quer receber os pertences do jovem. Segundo Maria Gabriela, ele costumava filmar a rotina e pode ter registro do dia do ocorrido. Eles também pretendem fazer uma "vaquinha" para conseguir recuperar os documentos do ex-paratleta.
A reportagem procurou a Secretaria de Defesa Social e a Polícia Civil para se manifestarem sobre os procedimentos tomados no caso, mas não recebeu resposta até a publicação.