Gestos que acolhem e dignificam
Há 32 anos, a ONG Gestos atua no coração do Recife, promovendo acolhimento e assistência para pessoas que vivem com HIV/AIDS e para jovens e adolescentes
Acolhimento e dignidade. É isso que a ONG Gestos busca promover para pessoas que, muitas vezes, não recebem da sociedade uma chance. Há 32 anos, a organização atua em prol de quem vive com HIV/AIDS e jovens e adolescentes LGBTQIAPN+, sendo um núcleo de apoio, informação, cuidado e orientação.
A Gestos surgiu em plena epidemia de Aids, quando o HIV era tabu e associado a populações estigmatizadas como pessoas LGBTs e trabalhadores sexuais.
"A ideia era acolher pessoas vivendo com HIV e informar a população sem alimentar o estigma que a gente já via. O preconceito e estigma já vinham da própria doença, por ser transmitida sexualmente, então, vitimava pessoas por isso também", explica Jô Meneses, coordenadora de assistência e educação da Gestos.
Como tudo começou
A coordenadora conta que, do luto por amigos e conhecidos, nasceu a Gestos: “A gente surge ouvindo esse sofrimento das pessoas. Os quatro que criaram o Gestos foram pessoas que perderam muitos amigos com esse início da epidemia. Ao mesmo tempo, em outros estados do país, muitas organizações eram criadas para incidir politicamente e pedir respostas”.
À época, a estratégia era usar do terror no combate e prevenção do HIV, relembra Jô.
“As campanhas de prevenção eram terroristas. Eram absolutamente para colocar medo em todo mundo e não se pensava, se pensava nas pessoas que já estavam infectadas, como é que elas iam se sentir, porque eram campanhas assim de pânico total”, explica.
Atendimento
Atualmente, cerca de 300 pessoas são atendidas mensalmente na ONG, situada na Boa Vista, no Centro do Recife. O foco é na prevenção ao HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST’s), e promoção de direitos humanos, sexuais e reprodutivos para soropositivos, jovens LGBTQIAP+ e periferias.
Na sede da ONG, são oferecidos testagem gratuita (HIV, sífilis, hepatites), atendimento psicológico individual e em grupo, assistência social, assessoria jurídica e "Espaço Saúde Sexualidade Saúde" para jovens até 29 anos.
"Não julgamos, não reforçamos estigma: conhecimento é poder para viver com dignidade", enfatiza Jô.
Dignificar, na visão da Gestos, também significa proteger a autonomia, especialmente das populações mais invisibilizadas. A coordenadora destaca o trabalho com mulheres e jovens LGBTQIA+, que enfrentam o que ela chama de "julgamento moral da sexualidade".
"Muitas mulheres chegavam aqui ouvindo que não podiam ter filhos, que não podiam amar. Nós lutamos pelos direitos reprodutivos, para que elas possam gestar com segurança. Já no Espaço Saúde, acolhemos os jovens que muitas vezes não encontram escuta em outros lugares. É um espaço de resistência porque, para muitos, ser quem são já é um ato de coragem num mundo que os quer esconder", detalha.
Ações
A Gestos também desenvolve ações educativas em comunidades, serviços de saúde e escolas, treina profissionais de saúde, de educação e do direito e gestores públicos, além de atuar com controle social e monitoramento de leis e políticas públicas, formar ativistas e defensores de direitos, realizar campanhas, produzir conhecimentos e publicar livros, cartilhas e materiais informativos.
Nessas mais de três décadas, a recompensa é poder mudar a vida de tantas pessoas, diz Jô, que tem 23 anos de serviço na organização.
"A gente recebe pessoas que chegam aqui com a dignidade totalmente fragmentada. Todo ano, nas nossas avaliações, ouvimos relatos que nos fazem seguir: 'Eu sem esperança, e a Gestos está me devolvendo essa vontade de viver’. Isso para nós é o que dá sentido. A gente entende que cada pessoa é gente, e a nossa instituição vibra a vida para dentro e para fora".
A luta diária contra o estigma
Apesar dos avanços na saúde que tornaram o HIV uma condição crônica controlável, Jô afirma que uma batalha específica ainda não foi vencida: o preconceito. Ela aponta que o estigma pode ser tão letal quanto a ausência de medicação.
"É inacreditável que a gente consiga quase vencer hoje um vírus tão complexo, e não consiga vencer o preconceito. Acho que seria uma grande vitória. Se a sociedade pudesse compreender de outra maneira a questão de viver com HIV e AIDS, porque a gente continua com muita perseguição".
Do trabalho humanizado, próximo e gentil, a Gestos se consolidou como uma escola de humanidade para além de Pernambuco. A organização lançou novos olhares sobre o que é viver com HIV/AIDS e ajudou na construção de uma resposta nacional ao tema, se tornando referência mundial, com uma perspectiva centrada nas questões de gênero e de combate às desigualdades.