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"Ou a gente come, ou paga o aluguel": preço do aluguel é principal causa do déficit de 258 mil moradias em Pernambuco

Alvo da Campanha da Fraternidade 2026, da CNBB, a falta de moradia levou 1.7 mil pessoas a ocupar um antigo imóvel dos Correios

Por Mareu Araújo

Pernambuco enfrenta um déficit de 258 mil moradias

No papel, Pernambuco enfrenta um déficit de 258 mil moradias, um número que pode ser traduzido em domicílios com habitação precária, coabitação e aluguéis que consomem 30% ou mais da renda familiar. Na prática, um dos endereços desse dado está localizado no antigo centro de distribuição dos Correios, no bairro da Iputinga, na Zona Oeste do Recife.

O terreno de 26 mil metros quadrados é, há 15, dias a moradia de mais de 1,7 mil pessoas que montaram suas casas com lona, madeira e telhas de fibrocimento. A ocupação, que foi encabeçada por movimentos sociais, agora se chama Ocupação Frei Sérgio.

“[O nome é] Frei Sérgio porque ele foi um homem que sempre defendeu, por mais de 40 anos, a luta por moradia. Ele também foi uma grande personalidade dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Então nós, em comum acordo, decidimos que essa ocupação se chamaria Frei Sérgio”, explica Gil Gomes, coordenador do coletivo estadual dos sem-tetos do MST.

A escolha do nome coincide com o lançamento da Campanha da Fraternidade 2026, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que este ano tem como tema "Fraternidade e Moradia". Ao longo de todo o período quaresmal, que se iniciou na quarta-feira (18), paróquias, movimentos e pastorais promovem iniciativas ligadas ao tema, culminando com a Coleta Nacional da Solidariedade, marcada para o dia 29 de março, quando os recursos arrecadados serão destinados a projetos sociais.

De acordo com Gil, a ocupação irá convidar o arcebispo de Olinda e Recife, dom Paulo Jackson, para conhecer o espaço. “Nós queremos que ele venha aqui para dentro. Dom Paulo Jackson é um homem muito sensível, que está à frente da Arquidiocese, e queremos que ele veja de perto a nossa luta”, pontua.

Dados da Fundação João Pinheiro de 2023 apontam que o ônus excessivo com aluguel urbano se tornou o principal motor do déficit habitacional em Pernambuco. Do total de 258.095 moradias em falta no estado, 189.753, ou cerca de 73%, são causadas justamente pelo peso financeiro do aluguel sobre a renda familiar. Isto é, pessoas que gastam 30% ou mais da renda com aluguel.

De acordo com a organização, essa categoria consolida-se como o componente mais crítico do déficit, superando a precariedade física das edificações (27 mil) e a coabitação familiar (41 mil). A Região Metropolitana do Recife, ainda segundo a fundação, detém o maior déficit habitacional do estado, com 111.671 moradias. Do número, 92.347 são pelo valor excessivo do aluguel.

Segundo a Prefeitura do Recife, o déficit habitacional no Recife caiu de 71 mil em 2017 para 54 mil em 2022. De acordo com a gestão municipal, o gasto excessivo com aluguel equivale a mais de 46 mil unidades desse déficit.

“Ou a gente come bem, ou a gente paga o aluguel”, declara Érica Fernanda da Silva, de 46 anos. Na ocupação, ela mora em uma casa de paredes de lona e portas de lençol. “Porque, se não pagar o aluguel, vai morar debaixo da ponte. Então, a gente está melhor agora, porque nós temos onde ficar e não estamos pagando mais aluguel”, afirma.

“Tem pessoas que deixaram de pagar aluguel para estar aqui. Temos gestantes, idosos, crianças. Então, estamos todos lutando para ajudar um ao outro. Aqui nós seguramos na mão uns dos outros e não soltamos ninguém”, declara Érica.

A vulnerabilidade habitacional também é sentida por Patrícia Carla da Silva, de 44 anos. Ela conta que morava em uma área beira-mar e perdia seus pertences toda vez que a maré subia. Cansada da situação, Patrícia afirma que buscou a ocupação em busca de uma moradia digna, capaz de proteger as conquistas que obteve com sacrifício. Para ela, a ocupação representa mais do que um teto.

“É tudo. Porque, até para renovar o Bolsa Família, a gente tem que ficar andando atrás de posto de saúde ou de alguém na comunidade para ceder um endereço. É muito difícil. Agora eu já tenho um endereço, Rua São Mateus”, afirma.

Elaine Maria de França, uma das coordenadoras do Movimento de Luta Popular (MLP), explica que o objetivo central da Ocupação Frei Sérgio é viabilizar o acesso à moradia para famílias em situação de vulnerabilidade extrema. Ela relata que a maior parte delas é formada por mães solo e desempregadas que, sem acesso a creches, ficam impedidas de ingressar no mercado de trabalho.

Por conta disso, afirma Elaine, os moradores criaram um espaço de recreação para as crianças, que conta com brinquedos e livros, obtidos a partir de doações. Além disso, ela relata que a rotina na Frei Sérgio é organizada de forma coletiva, com o preparo compartilhado de todas as refeições e troca de vigias noturnos.

Segundo as lideranças sociais, a Ocupação já é alvo de ordem de reintegração de posse. Carlos Must, um dos coordenadores gerais do Movimento Urbano dos Trabalhadores Sem Teto (Must), declara que o terreno não cumpria função social e que a ocupação alterou essa condição ao destinar o imóvel para habitação.

Gil Gomes, do MST, justifica a ocupação ao descrever a situação do imóvel. "É uma área hoje devoluta, sem fins sociais nenhum e nem empresarial porque eles fizeram o ano passado um leilão para tentar vender isso aqui e não apareceu ninguém interessado", afirma Gomes.

O Diario de Pernambuco entrou em contato com os Correios, solicitando posicionamento sobre a área. No entanto, até a publicação desta reportagem não obteve resposta.

Em nota assinada pela secretária Simone Nunes, titular da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh), o governo de Pernambuco explicou que, desde março de 2023, com a criação do Programa Morar Bem, trabalha de “maneira estratégica em diversos eixos que envolvem o déficit habitacional”. Segundo a secretária, a modalidade "Entrada Garantida" já permitiu que mais de 20 mil famílias com renda de até dois salários mínimos saíssem do aluguel pelo programa Minha Casa Minha Vida.

“O programa também priorizou a oferta de terrenos para construção de novos habitacionais”, ressaltou ela, citando como exemplo uma área do Parque de Exposições no Cordeiro. A Seduh também diz, conforme a nota, que emitiu mais de 13 mil títulos de regularização fundiária e atendeu mais de 2 mil famílias com reformas em imóveis precários através do programa "Reforma no Lar".

Já a Prefeitura do Recife informou que, desde 2021, viabilizou “a construção de mais de 6 mil unidades habitacionais, entre obras concluídas, em andamento, em fase de chamamento público, aprovadas junto ao governo federal e garantidas na PPP Morar no Centro”. Foram entregues sete conjuntos, totalizando 1.736 moradias. Outros três estão em fase licitatória. “No total, são mais de 3 mil unidades inscritas pela Secretaria de Habitação na nova fase do programa Minha Casa Minha Vida”, afirma a gestão municipal.

A Prefeitura do Recife declara também que o município “projeta criar mais de 1 mil habitações na área central da cidade, com obras de retrofit e de construção de novas edificações”. Além disso, a gestão afirma que “por meio do ProMorar, lançou o “Tô em Casa", programa de locação social que busca reduzir o déficit habitacional no município, aliviando o peso excessivo para famílias que pagam aluguel. Nesse programa, a Prefeitura irá custear parte do aluguel e beneficiará 1.200 famílias ao longo dos próximos quatro anos”.

 

Leia os posicionamentos completos do Governo de Pernambuco e na Prefeitura do Recife:

Governo de Pernambuco

Desde o início do governo, em março de 2023, com a criação do Programa Morar Bem Pernambuco, o governo do estado de Pernambuco atua de maneira estratégica em diversos eixos que envolvem o déficit habitacional.

Na construção de novas moradias, o Morar Bem PE tem atuação na retomada de obras do Fundo de Desenvolvimento Social (FDS) e Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), com aporte de recursos que vêm garantindo a entrega de obras emblemáticas, como era o caso do Mulheres de Tejucupapo, no Recife; Jurema, em Bezerros; e Vanete Almeida, em Serra Talhada. O programa Morar Bem PE também priorizou a oferta de terrenos para a construção de novos habitacionais, como é o caso do terreno do Parque de Exposições, no Cordeiro, e também das áreas do IPA, em Carpina e Vitória de Santo Antão.

No que diz respeito ao Minha Casa, Minha Vida FGTS, destinado a famílias de até 2 salários mínimos, o programa Entrada Garantida já permitiu que mais de 20 mil famílias conseguissem sair do aluguel para ter a chance de pagar a parcela do seu imóvel próprio.

No eixo da regularização fundiária, já são mais de 13 mil títulos emitidos em apenas 3 anos de governo.

O Reforma no Lar já garantiu que mais de 2 mil famílias que moravam em habitações com inadequações edilícias, como, por exemplo, telhado ruim ou casa sem banheiro, pudessem ter seus lares reformados.

Isso só foi possível através da decisão política da governadora Raquel Lyra de colocar habitação de interesse social no orçamento do estado; anualmente, estamos investindo mais de R$ 300 milhões.

Secretária Simone Nunes, da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh).

Prefeitura do Recife

A política habitacional desenvolvida pela Prefeitura do Recife desde 2021 já viabilizou a construção de mais de 6 mil unidades habitacionais, entre obras concluídas, em andamento, em fase de chamamento público, aprovadas junto ao Governo Federal e garantidas na PPP Morar no Centro. O processo é coordenado pela Secretaria de Habitação e envolve diversos outros órgãos municipais.

Foram entregues sete conjuntos, totalizando 1.736 moradias: Papa Francisco, Vila Brasil 1 e 2, Sérgio Loreto, Encanta Moça 1 e 2 e Ruy Frazão. Estão em andamento as obras dos habitacionais Vila Esperança, no Monteiro; Caranguejo Tabaiares, na Ilha do Retiro; Comunidade do Bem 1 e 2; São José, na Rua Imperial; Vila Aeronáutica 1 e 2, em Boa Viagem; e Caiara 2, Maria Felipa e Maria Elvira, entre os bairros do Cordeiro e da Iputinga.

Estão em fase de chamamento público (licitação) outros três na Comunidade do Bem, com 234 UHs; os habitacionais Jiquiá I (80 UHs), Jiquiá II (240 UHs) e Jiquiá III (160 UHs), Sítio Salamanta 2 (128 UHs) e dos Coelhos (424 UHs). No total, são mais de 3 mil unidades inscritas pela Secretaria de Habitação na nova fase do programa Minha Casa Minha Vida.

Outras 16 mil famílias tiveram seus imóveis garantidos através de obras como contenções definitivas de encostas realizadas desde 2021. Além disso, a Prefeitura do Recife publicou, em janeiro, o edital de licitação para o projeto de Parceria Público-Privada (PPP) Morar no Centro. Com essa iniciativa, o município projeta criar mais de 1 mil habitações na área central da cidade, com obras de retrofit e de construção de novas edificações localizadas nos bairros de São José, Santo Antônio, Boa Vista e Cabanga, com investimento de total, ao longo de 25 anos de concessão, de mais de R$ 213 milhões. O projeto da PPP é coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento.

De acordo com a Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional no Recife caiu de 71 mil para 54 mil. É fundamental ressaltar que o dado não se refere apenas à falta de moradia, e sim a um conjunto de outros critérios como precariedade, coabitação e, principalmente, ônus excessivo do aluguel. Esse último índice se refere às pessoas que gastam 30% ou mais da renda com aluguel e equivale a mais de 46 mil habitações na cidade.

Em julho de 2025, a Prefeitura do Recife, por meio do ProMorar, lançou o “Tô em Casa", programa de locação social que busca reduzir o déficit habitacional no município, aliviando o peso excessivo para famílias que pagam aluguel. Nesse programa, a Prefeitura irá custear parte do aluguel e beneficiará 1.200 famílias ao longo dos próximos quatro anos.