Bacalhau do Batata ergue estandarte de combate à violência contra a mulher na despedida do carnaval em Olinda
Bloco Bacalhau do Batata, que completa 64 anos, concentrou-se em frente à Igreja da Sé, antes de descer a ladeira e percorrer as ruas de Olinda na despedida do carnaval
O Bacalhau do Batata voltou a tomar as ladeiras de Olinda na tradicional “quarta-feira ingrata” e, este ano, o desfile do bloco histórico levou às ruas a pauta de combate à violência contra a mulher, reforçando que o carnaval também é espaço de mobilização social.
A festa mantém viva uma história que já dura 64 anos e que nasceu da vontade de um garçom de também poder brincar o carnaval.
A presidente do bloco, Maria de Fátima, 63 anos, contou que o fundador, Isaías Ferreira da Silva, conhecido como Batata, trabalhava durante o período carnavalesco e decidiu criar o desfile na quarta-feira de cinzas para poder participar da folia.
“Ele era garçom, trabalhava no carnaval e fez o bloco para brincar na quarta-feira. Hoje o sentimento é emoção, é tradição. Um garçom que se tornou imortal e se eternizou no bloco”, afirmou.
O cortejo mantém o percurso tradicional descendo a Ladeira da Sé, passando pelo Bonfim, Quatro Cantos, subindo São Bento, seguindo pela prefeitura e encerrando na Rua da Liberdade.
Neste ano, o bloco desfilou com 25 musicistas mulheres, cerca de 40 músicos e dez orquestras da Fundarpe.
“Estamos trabalhando contra o feminicídio. Pernambuco tem números muito altos de mulheres mortas e queremos que isso chegue ao plenário, à prefeitura e aos vereadores”, explicou Maria de Fátima.
Ela também contou que assumiu a presidência há 17 anos após o pai adoecer. “Meu pai era presidente, chegou aos 89 anos, ficou doente. Minha mãe faleceu e eu tive que assumir.”
A emoção atravessa gerações entre os foliões. Moradora de Olinda, Lúcia Medeiros, de 65 anos, disse que acompanha o bloco desde a infância.
“O Batata fazia quebra-panela, pau de sebo, era uma festa na rua. Ele mandava a gente cantar pra ganhar confeito.”
Ela ainda se emociona com a música criada pelo fundador. “Quando toca, dá vontade de chorar. É muita emoção.”
Para Acrimôri Júnior e Emerson Lopes, de 47 anos, que acompanham o bloco há três anos, a quarta-feira representa a despedida da festa.
“É a sensação de que o carnaval não acabou. A gente estende o carnaval procurando um motivo pra sair de casa”, contou Júnior. Emerson completou: “É uma despedida com vontade de rebobinar e voltar para o sábado. Passa muito rápido.”
Entre os foliões que vêm de fora, Tati Arroz, de 34 anos, contou que aguardava a oportunidade de acompanhar o desfile completo. “Eu venho desde 2018, mas nunca tinha conseguido acompanhar o Batata. Hoje é a primeira vez.”
Ela explicou que mora em São Paulo, mas volta todos os anos para o carnaval pernambucano. “É como se o ano só começasse depois do carnaval. Rever as pessoas e ver que está todo mundo bem.”
Ao lado dela, Davi Falcão, de 36 anos, resumiu o sentimento da despedida: “Aqui é para aterrar a energia do carnaval e voltar com mudanças para o próximo ano.”
A emoção também marcou a participação de Maria do Carmo, de 68 anos, que disse acompanhar o bloco “desde a barriga da mãe”.
Mesmo no último dia de festa, ela não perde o entusiasmo. “É muita energia. Eu venho todos os anos.” Ao lado dela, a filha Thaís de Albuquerque, de 32 anos, contou que faz questão de manter a tradição.
“Eu acompanho ela todos os anos, com minhas tias também. Tem que se divertir, é o último dia de carnaval.”
Para Thaís, a despedida vem com emoção: “Eu começo no Galo e termino no Bacalhau do Batata. A despedida é chorando.”