Jogador de futebol de base acusa presidente do Retrô de racismo; ele nega
Em queixa-crime recebida pela Justiça, mãe e jogador alegam que Laércio Guerra proferiu ofensas racistas durante campeonato no CT do Retrô; ele afirma que denúncia é "absurda"
Um jogador de futebol, que é negro, entrou com queixa-crime na Justiça em que acusa o presidente do Retrô, Laércio Guerra, de racismo em um campeonato de categoria de base, realizado no Centro de Treinamento do clube, em Camaragibe, no Grande Recife, em 2021. O presidente do Retrô afirma que a acusação é “absurda” e diz que vai processar o atleta e a mãe dele, ambos autores da ação.
A queixa-crime foi recebida pela Vara de Violência Doméstica e Familiar Contra Mulher de Camaragibe, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), no último sábado (7). Segundo a ação, Laércio Guerra teria usado as expressões “cala a boca, macaco” e “negrinho de merda” para se referir ao jogador, que é natural do Piauí e atuava na equipe do Atlético Piauiense, durante a competição juvenil.
O caso teria acontecido em 7 de dezembro de 2021, de acordo com o documento. O atleta era menor de idade na época dos fatos, motivo pelo qual ele é representado pela mãe no processo. Atualmente, o jogador tem 19 anos.
Ainda segundo a ação, o presidente do Retrô também teria ofendido a mãe do jogador, "proferindo palavras de baixo calão e teor discriminatório". Ao Diario de Pernambuco, Laércio Guerra diz não se recordar do episódio e nega que tenha ofendido as pessoas.
Acusação de racismo
À Justiça, a advogada do atleta e da mãe dele narra que muitos pais e familiares de atletas estavam no CT do Retrô durante o campeonato. Segundo afirma, “em meio ao barulho que havia no local (...), gritos intensos de uma voz masculina se sobressaíram, o que chamou a atenção de grande parte da torcida ali presente pela agressividade e pelas palavras que proferia".
A voz, conforme o documento, seria do presidente do clube. Também de acordo com a queixa, as ofensas proferidas foram: "Só podia ser negro", "cala a boca, macaco", "negrinho de merda" e "esse negrinho aí só fala merda".
A mãe teria solicitado que o homem parasse com os xingamentos, segundo o documento. Guerra, então, teria respondido com os seguintes insultos:
"Tal mãe, tal filho. Preto é tudo mendigo mesmo. Não sei o que vocês estão fazendo aqui. Aqui não é lugar para mendigos. Ninguém quer vocês aqui. Deve ser mãe solteira. Vá procurar um macho. Só não te encho de porrada porque você é mulher. Sua maluca. Sapatão."
O documento afirma ainda que a mulher e o filho foram informados que o autor das ofensas seria dono do local. Durante a confusão, ele estaria em uma cabine, de onde o jogo era transmitido ao vivo. De acordo com a advogada, o áudio do presidente do Retrô teria vazado e a transmissão acabou suspensa.
Representantes de times nacionais, pais e familiares de outros atletas chegaram a se solidarizar com mãe e filho, mas pediram anonimato, de acordo com a queixa. Eles teriam alegado que Guerra "tinha certo poder para prejudicar as pessoas, mesmo de times maiores que o dele" e "histórico de violência e truculência”.
Queixa-crime
Mãe e filho registraram boletim de ocorrência na ocasião, mas o caso não avançou. Na ação, eles destacam que, passados mais de quatro anos, não houve oferecimento de denúncia pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE) ou arquivamento do inquérito policial.
No processo, o MPPE reconheceu expressamente sua inércia e a extrapolação do prazo legal para oferecimento da denúncia, opinando pelo recebimento da queixa-crime da mãe e do jogador.
"As expressões narradas, tais como 'macaco' e 'negrinho de merda', em tese, amoldam-se perfeitamente ao tipo penal da injúria racial", escreve a juíza que recebeu a queixa-crime.
A magistrada determinou o prazo de dez dias para que o presidente do Retrô responda à acusação. Na resposta, ele poderá oferecer documentos, especificar provas pretendidas e arrolar testemunhas.
“Beira a irracionalidade”
Procurado, Laércio Guerra diz que a acusação é “absurda” e que poderia ser motivada para obtenção de vantagem financeira.
“Isso é um absurdo. Um negócio desse beira a irracionalidade. Eu vou entrar com um processo contra ela, [e contra] quem for, para que prove essas alegações”, afirma. “Eu estou com minha consciência tranquila, jamais fiz isso”.
A advogada Simone Guerra, irmã e representante de Laércio Guerra, reforçou que processará os autores da queixa-crime. “Temos em todos os postos aqui, da menor à maior posição, todo tipo de pessoa, de diferentes cores, raças, religião, posicionamento político, sexual. Impressionante. Não vai ficar barato para quem inventou isso”, afirma.