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Mulher que sofreu sequelas após cirurgia simples no Recife teve 8 apneias antes da parada cardíaca, aponta laudo

Laudo técnico contratado pela família de Camila Nogueira detalha 17 minutos de apneia ao longo da cirurgia em hospital particular do Recife

Por Diario de Pernambuco

A família de Camila Nogueira, 38, entrou com representação no Cremepe pedindo a cassação do CRM de três médicas

Internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde agosto do ano passado, a consultora de imagem Camila Nogueira, de 38 anos, teria sofrido uma parada cardíaca após oito apneias (interrupção da respiração) ao realizar uma cirurgia eletiva em um hospital particular do Recife.

A informação consta em um parecer técnico contratado pela família da mulher.

Segundo seus familiares, Camila está com quadro de consciência mínima, sem autonomia e acamada.

Eles pedem a cassação do registro médico da equipe médica e afirmam que a situação seria resultado de “negligência” e "falha grosseira".

Procurada, a advogada da anestesista preferiu não se pronunciar. Já a defesa das cirurgiãs alega que “inexiste nexo de causalidade entre suas atuações e o dano gerado à paciente”.

O caso foi revelado pelo Diario de Pernambuco na terça-feira (27).

O laudo independente é assinado pelos médicos Leonardo Queiroga Marinho e Rafael de Menezes Batista.

E foi formulado com base no “depoimento de familiares, prontuário da paciente, log do monitor multiparamétrico e acareação interna do hospital e acareação interna do hospital”, diz o documento.

Conforme o parecer técnico, após Camila receber anestesia geral, o monitor emitiu o primeiro alerta de apneia às 10h47, indicando “problema grave: desconexão, obstrução ou falha ventilatória”.

Quase dois minutos depois, o quadro evoluiu, segundo o laudo, para alta prioridade, exigindo ação imediata.

Às 10h56, Camila teve outra interrupção da respiração que se estendeu por mais 1 minuto e 41 segundo, conforme o laudo.

No minuto seguinte, o monitor multiparamétrico soou um alarme de média prioridade que indicava redução do oxigênio no sangue (hipoxemia), a saturação dela estava em 88%. O limite, segundo a perícia, é 90%.

“Queda abrupta de 88% para 71% em 62 segundos. EMERGÊNCIA MÉDICA. Hipoxemia grave exige intervenção IMEDIATA”, diz o documento.

Segundo o laudo, a terceira apneia foi registrada pelo monitor às 11h04. As observações técnicas periciais afirmam que “o problema ventilatório crônico estava sem resolução há mais de 17 minutos”.

A quarta apneia foi registrada às 11h05 e a quinta três minutos depois, conforme o parecer.

Ainda às 11h08, o documento aponta que a saturação de oxigênio no sangue de Camila estava em 22% e com “risco iminente de lesão cerebral irreversível e parada cardiorrespiratória”.

Às 11h09, o monitor registrou a sexta apneia e o quarto alarme de alta prioridade, conforme a perícia.

Às 11h11, a perícia afirma que a oxigenação de Camila estava em 5%, o que, segundo o texto, indica ausência de oxigênio quase completa e “lesão cerebral irreversível em curso”.

Três minutos depois, o parecer técnico aponta que a frequência cardíaca de Camila era baixa, 36 batimentos por minuto (bpm), o limite, diz o laudo, é 40bpm. Nesse momento, ela tem a sétima apneia.

O oitavo episódio de apneia e o quinto alarme de alta prioridade foram registrados, segundo os peritos, às 11h15, um minuto antes de Camila entrar em parada cardiorrespiratória.

Camila passou 15 minutos em parada cardíaca, sendo reanimada às 11h33.

“Após a parada cardiorrespiratória, a paciente foi transferida para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde recebeu cuidados intensivos.

No entanto, a paciente apresentou sequelas neurológicas graves e permanentes, [...] e dependência para atividades diárias”, diz o laudo.

Viúvo de uma esposa viva

Em conversa com o Diario de Pernambuco, o marido de Camila, o médico oftalmologista Paulo Menezes, de 42, declarou que “virou viúvo de uma esposa viva”.

Segundo ele, a esposa está se submetendo a sessões de fisioterapia para conseguir se comunicar e melhorar as condições do pescoço.

Segundo Menezes, Camila está em uma ala isolada do hospital se submetendo a sessões de fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudióloga.

Ele afirma que também contratou um fisioterapeuta especialista em pacientes neurocríticos para “intensificar” o tratamento.

“O pescoço dela estava muito para o lado, falei com os fisioterapeutas para deixar ele reto, para poder retirar a cânula e iniciar os primeiros exercícios de fonação”, diz o médico.

No último final de semana, Menezes conta que Camila “se esforçou para falar a palavra amor. Saiu um amor assim [dentro das limitações dela], mas saiu. A fonoaudióloga chegou a ficar emocionada com a cena”, relata.

Para o futuro, Paulo Menezes espera que sua esposa tenha “o mínimo de consciência”.

“Para poder ter o mínimo de interação para poder ver nossos filhos cresceram, participar e dizer se pode fazer isso ou aquilo. O sonho de vida dela era ser mãe”, diz o médico.