"Virei viúvo de uma esposa viva", diz marido de mulher que sofreu sequelas após cirurgia "simples"
Um dia após revelar a história de Camila Nogueira, de 38 anos, Diario conversou com o marido dela, o médico Paulo Menezes. Ele contou como a família tem vivenciado esse drama
“Eu virei viúvo de uma esposa viva”. A frase é do médico oftalmologista Paulo Menezes, de 42 anos, marido da consultora de imagem Camila Nogueira, de 38, que está há cinco meses internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em um hospital do Recife.
De acordo com Menezes, a esposa está se submetendo a sessões de fisioterapia para conseguir se comunicar e melhorar as condições do pescoço.
Em agosto de 2025, Camila teria sofrido uma parada cardiorrespiratória ao realizar uma cirurgia de retirada da vesícula e correção de hérnia, segundo o advogado Paulo Maia. A família pede a cassação do registro médico da equipe médica e afirma que situação dela seria resultado de “negligência” e "falha grosseira".
O caso foi revelado pelo Diario de Pernambuco na terça (27).
“Ela já está mais perceptiva ao ambiente. Quando vê alguns rostos conhecidos, chora. Ela chorou quando me viu, viu o pai. No fim de semana passado, viu um tio de Brasília, que ela não via há muito tempo, chorou também”, conta o médico.
Segundo Menezes, Camila está em uma ala isolada do hospital se submetendo a sessões de fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudióloga. Ele afirma que também contratou um fisioterapeuta especialista em pacientes neurocríticos para “intensificar” o tratamento.
“O pescoço dela estava muito para o lado, falei com os fisioterapeutas para deixar ele reto, para poder tirar a cânula e iniciar os primeiros exercícios de fonação”, diz o médico.
No último final de semana, Menezes conta que Camila “se esforçou para falar a palavra amor. Saiu um amor assim [dentro das limitações dela], mas saiu. A fonoaudióloga chegou a ficar emocionada com a cena”, relata.
Para o futuro, Paulo Menezes espera que sua esposa tenha “o mínimo de consciência”. “Para poder ter o mínimo de interação para poder ver nossos filhos cresceram, participar e dizer se pode fazer isso ou aquilo. O sonho de vida dela era ser mãe”, diz o médico.
Ser mãe
Menezes conta que uma semana antes da cirurgia de Camila, o casal e os dois filhos, de 6 e 2 anos, estavam descendo as escadas da casa em que moram, em Arcoverde, no Agreste do Estado. Na ocasião, Paulo estava de mãos dadas com o filho mais velho e Camila com a mais nova.
“Ela pediu para nossos filhos darem as mãos e descemos juntos, aí ela tirou uma foto nossa. Eu falei: ‘eita, amor, tu és uma eterna romântica, né?’”, lembra.
Por conta da complicação na cirurgia, Menezes conta que Camila perdeu o aniversário dos dois filhos e a formatura do ABC do mais velho. “Na época, a mais nova falava pouquíssimas palavras, hoje ela está falando bastante. São coisas que podem parecer besteira, mas Camila valorizava muito isso”, afirma o médico. “Ela amava ser mãe”.
Após as complicações na cirurgia, Menezes afirma que passou um mês com a esposa no hospital dando assistência. Ao retornar para casa, ele conta que o filho mais velho perguntou “várias vezes” o que havia acontecido com a mãe.
“Quando eu fui contar, ele pediu para que eu parasse e começou a chorar. Ele achava que eu ia dizer que ela tinha morrido. Mas aí eu contei uma história lúdica, de que a mãe tinha comido umas pedrinhas que estavam envenenadas e que deixaram a mamãe muito doente no hospital sem conseguir falar”, conta. As pedrinhas seriam cálculos na vesícula.
Menezes conta que no domingo (25) levou o filho mais velho para visitar a mãe, que, ao ver o menino, levantou os braços em direção a ele. “A gente não sabe se é um reflexo ou se é um ato consciente. Porque tem muita coisa que a gente não sabe ainda, já que a gente não consegue ainda estabelecer uma comunicação concreta com ela”, conta o médico.
O que aconteceu
Em dezembro de 2025, a família de Camila entrou com representação no Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), pedindo o afastamento e a cassação do registro profissional de três médicas envolvidas no caso.
Segundo o advogado Paulo Maia, um dos representantes de Camila, ela deu entrada em um hospital particular, no Centro do Recife, para realizar uma cirurgia de retirada da vesícula e correção de hérnia. A mulher estava saudável e não tinha histórico de doenças pré-existentes, de acordo com ele.
Apesar do prognóstico favorável, Camila teria sofrido uma parada cardiorrespiratória e “danos cerebrais irreversíveis” durante o procedimento, segundo o advogado. Desde então, está com quadro de consciência mínima, sem autonomia e acamada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.
Para o advogado, a situação de Camila seria resultado de “negligência” e "falha grosseira" da equipe médica, composta por uma anestesista e duas cirurgiãs. Procurada, a advogada da anestesista preferiu não se pronunciar. Já a defesa das cirurgiãs alega que “inexiste nexo de causalidade entre suas atuações e o dano gerado à paciente”.