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Pesquisa da UFPE: óleo de copaíba pode virar medicamento para prevenção de Alzheimer

Pesquisadores da UFPE identificaram no óleo de copaíba moléculas que podem interferir nos mecanismos associados à doença de Alzheimer

Por Bartô Leonel

Um estudo conduzido na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) pode desenvolver um medicamento, produzido à base de moléculas extraídas do óleo de copaíba, que previne e interfere nos mecanismos moleculares associados à doença de Alzheimer.

Desenvolvida pelo pesquisador Iverson Conrado, sob orientação da professora Priscila Gubert, o estudo é considerado, segundo eles, algo inédito dentro da literatura científica mundial.

A pesquisa, publicada no Journal of Molecular Graphics and Modelling, periódico científico internacional da área de modelagem molecular e simulações computacionais, destaca resultados favoráveis ao combate da doença, comprovados em simulações computacionais avançadas.

Em entrevista ao Diario de Pernambuco, os pesquisadores afirmaram que, durante os estudos, foram identificas que as moléculas cariofileno e copaeno, extraídas do tronco da copaibeira, podem interferir nos mecanismos moleculares associados à doença de Alzheimer, principalmente no peptídeo beta-amiloide, proteína central no desenvolvimento da doença.

O beta-amiloide é um peptídeo conhecido por sua capacidade de se acumular no cérebro, formando estruturas tóxicas que atrapalham o funcionamento normal do neurônio no cérebro, causando danos e até a morte deles.

Esse processo está diretamente associado ao avanço do Alzheimer e ao surgimento de sintomas como perda de memória, alterações cognitivas, dificuldades de aprendizagem e comprometimento das funções motoras em estágios mais avançados.

Por meio das simulações computacionais, que consistem em um dos primeiros passos da pesquisa, foram observadas que essas duas moléculas desenvolvem uma barreira de proteção nos neurônios, evitando que esses peptídeos se agreguem e causem a morte dos neurônios.

Segundo os pesquisadores, que fazem parte do Instituto Keizo Asami (iLIKA/UFPE) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - Ciências Moleculares (INCT-CiMol), a prevenção é a principal forma de combater a doença, porque o processo de recuperação e regeneração desses neurônios mortos é muito difícil.

Apesar do potencial favorável do óleo de copaíba, os pesquisadores destacam que o estudo está no estágio inicial. Por conta disso, os tratamentos atualmente disponíveis em clínicas especializadas são os mais indicados para combater a doença.

“As perspectivas futuras é tirar do papel a simulação e aplicar em um modelo animal. Já iniciamos essa segunda fase da pesquisa, no qual estamos observando como o peptídeo que causa a doença age em um verme que não se movimenta de forma legal”, adiantou Iverson Conrado, que realiza a pesquisa durante sua pós-graduação de mestrado.

“Quando expomos o verme a essas moléculas do óleo de copaíba, percebemos que ele recupera fenótipos, fazendo com que o animal passe da categoria de ‘paralisado’ para um animal que se move”, completou.

Além dos pesquisadores, o estudo contou com a participação da professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Karen Weber, e da professora do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE), Giovanna Machado.

Próximos passos da pesquisa

Apesar de estar na segunda fase, o avanço pesquisa, que deve ser experimentadas em camundongos para depois chegar na testagem em humanos, deve levar alguns anos.

“Depois que terminar esses testes nos vermes, iremos publicar o artigo que será avaliado por diversos pesquisadores críticos. Com a aprovação, iremos procurar modelos mais complexos, como camundongos, para podermos estudar o comportamento”, explicou.

“Só depois de tudo isso, que deve levar alguns anos, é que podemos fazer testes de segurança em humanos. A ciência segue uma lógica muito rígida, mas tem que ser assim mesmo, pois estamos tratando de seres humanos”, ressaltou Iverson Conrado.

Outro ponto que deve ser desenvolvido no decorrer da pesquisa é identificar, em um quantitativo de 25 a 30 espécies, do gênero Copaifera, existentes no Brasil, a que mais seria eficaz no tratamento do Alzheimer.

“Já temos algumas empresas prospectando o nosso laboratório e essa tecnologia da síntese desses nanomateriais. Então, o próximo passo é a transposição dessa tecnologia para uma escala industrial que possa investigar esses efeitos animadores observados em modelos químicos, computacionais e em invertebrados”, destacou a pesquisadora e orientadora Priscila Gubert.

Apesar do longo caminho que a pesquisa irá percorrer até que um possível medicamento seja desenvolvido, Priscila Gubert ressalta todo o trabalho realizado nessa pesquisa e de outros trabalhos desenvolvidos em no Nordeste.

“Temos muitos pesquisadores qualificados aqui no Nordeste, que desenvolvem estudos que impactam a vida de pessoas não só aqui, no Brasil, mas pelo mundo. Nosso desejo é contribuir de alguma forma e tentar entender os benefícios que as plantas da nossa flora brasileira, em parceria com comunidades coletoras, essenciais para as pesquisas, mas muitas vezes são ofuscadas”, destacou.

Extraído do tronco da copaibeira, o óleo de copaíba possui propriedades anti-inflamatória, anticancerígena e cicatrizante do óleo de copaíba, geralmente utilizadas pelos povos indígenas, e que agora pode servir de um composto químico que pode auxiliar no combate da doença do Alzheimer.