Entregador dos jornais da "Perna Cabeluda" e de outras histórias revisita o Diario após quase 50 anos
Francisco Araújo, ex-entregador do Diario, testemunhou cotidiano ao distribuir os jornais pelo Recife; edições icõnicas, como as que abordam a "Perna Cabeluda", passaram por suas mãos
De certa forma, aos 79 anos de idade, o ex-entregador de jornais, Francisco Araújo, também pode dizer que estará no Oscar. Indicado a quatro estatuetas, incluindo a de Melhor Filme, "O Agente Secreto" relembra as icônicas edições dos anos 1970 do Diario de Pernambuco sobre a terrível “Perna Cabeluda”, que supostamente acumulava vítimas em um Recife assombrado pela Ditadura Militar (1964-1985). Todas elas passaram pelas mãos do ex-jornaleiro, lembrado em seu duro ofício nas cenas do filme pernambucano.
Francisco já trabalhava no Diario quando a coisa “pegou fogo”, embora se atrapalhe quando é questionado acerca da data de início de suas atividades no jornal. E quando a memória o trai desta forma, a voz rouca vai rareando e os olhos miúdos se espremem num esforço contra o próprio corpo. Como se estar distante da precisão das notícias, ainda hoje, o deixasse desconfortável.
"Eu sei que foi nos começo dos anos 1970, quando eu tinha uns 30 anos. A rotina era difícil, o fardo de jornal é pesado e a gente acordava muito cedo para trabalhar”, vai dizendo.
Da correria nas ruas, Francisco sente falta da camaradagem com os colegas de trabalho e das amizades que fazia pela cidade. “Aprendi a me comunicar. A gente tinha que falar com todo tipo de gente para entregar os jornais”, lembra.
Visita
Nascido no dia 18 de maio de 1946, em Maceió, capital de Alagoas, Francisco se mudou para o Recife ainda na infância, após perder a mãe precocemente. “Fui criado por minhas irmãs. Morava em Peixinhos [Olinda] quando um amigo do bairro me chamou para trabalhar no jornal. Era um bico, um extra”, lembra.
Recebido no Centro de Documentação (Cedoc) do Diario, o jornaleiro reencontra, pela primeira vez, alguns exemplares históricos que distribuiu pelas ruas. Com a ponta do dedo indicador, lê atentamente cada linha da matéria “Perna Fantasma surge em moradia em Tiúma”, assinada pelo jornalista Raimundo Carreiro em 10 de dezembro de 1975, que noticiava pela primeira vez uma das mais célebres lendas urbanas do Recife.
A edição foi lembrada no filme O Agente Secreto, do pernambucano Kléber Mendonça Filho, em cena que retrata o esforço dos entregadores do Diario para distribuir os folhetins ao público. “Me lembro de entregar os jornais com a capa da cheia de 1975, porque também fui um flagelado das enchentes. Eu e minha família perdemos tudo”, lamenta.
O jornaleiro, no entanto, demonstra maior interesse pelo noticiário esportivo. Pelo longo corredor de gavetas do arquivo, se demora alguns instantes diante dos documentos esportivos. Em tudo que o interessa, faz questão de deslizar calmamente as mãos, com o carinho de quem criou jeito para dar boas ou más notícias.
“Eu tenho, dentro de mim, muita sede de aprender alguma coisa”, dispara Francisco, que não sabe informar se concluiu o ensino fundamental. “Eu acho a profissão de jornalista muito bonita, porque vocês têm que saber de tudo um pouco e não podem mentir. É muito difícil ser jornalista”, continua.
Francisco deixou o jornal no final da década de 1970, para trabalhar como faxineiro. Depois, foi vigilante de uma escola. Hoje, vive com a esposa e as enteadas. Estava indo buscar o almoço delas quando se distraiu ao notar a sede do Diario de Pernambuco, em Santo Amaro, no Centro do Recife, no caminho.
Puxou papo com os funcionários, contou histórias e acabou sendo convidado a conhecer o jornal. O Diario pede desculpas às filhas e à esposa de Francisco por sua primeira entrega atrasada. Pouco importa. Desta vez, ele é a matéria do jornal.