Troças, blocos e agremiações: diferença e origens no carnaval de Pernambuco
Mesmo que tenham características em comum, as formas de brincar carnaval em Pernambuco desenvolveram identidades próprias
Diferentemente de outros modelos carnavalescos mais padronizados, o carnaval pernambucano se construiu a partir de múltiplas formas de organização popular, que refletem contextos históricos, territórios, classes sociais, tradições musicais e modos distintos de ocupar o espaço público. Com isso, surgiram troças, blocos e agremiações, que muitas vezes são usados como sinônimos no senso comum, mas possuem trajetórias próprias e papéis distintos.
O carnaval chegou ao Brasil ainda no período colonial, fortemente influenciado por festas europeias associadas ao calendário litúrgico cristão, como o Entrudo português. Em Pernambuco, essas manifestações iniciais eram marcadas por brincadeiras de rua, jogos com água, farinha e outros elementos, muitas vezes reprimidos pelas autoridades por serem considerados excessivamente violentos ou desordeiros.
Ao longo do século XIX, especialmente nas áreas urbanas do Recife e de Olinda, o carnaval passou a se estruturar de uma nova maneira com a legitimação destas brincadeiras. É nesse contexto que surgem as primeiras associações carnavalescas organizadas, que mais tarde seriam chamadas de clubes, blocos e troças.
Esse movimento esteve diretamente ligado ao crescimento das cidades, à consolidação de uma classe trabalhadora urbana e ao surgimento de novos espaços de sociabilidade, como associações recreativas, clubes sociais, irmandades religiosas e organizações de bairro.
“É interessante a gente saber que, hoje em dia, tanto a maioria dos blocos quanto as troças têm hino, alguns têm sede, que é uma característica que antes se considerava própria de apenas um tipo. Os blocos e troças trabalham hoje em dia de forma muito parecida, com venda de camisetas, baile pago, criação de uma identidade visual anual que vira a marca do ano”, explica a professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora Ana Paula Campos.
O que são troças carnavalescas
As troças carnavalescas são consideradas uma das formas mais antigas e populares de organização do carnaval do estado, especialmente em Olinda. Historicamente, as troças surgiram como grupos informais de amigos, vizinhos ou trabalhadores que se reuniam para brincar o carnaval de forma irreverente, satírica e crítica.
O próprio termo “troça” remete à ideia de zombaria, brincadeira e escárnio. Desde suas origens, essas associações se caracterizaram por uma postura lúdica e, muitas vezes, provocadora, seja por meio de fantasias, estandartes, músicas ou nomes carregados de ironia e duplo sentido. As troças costumam desfilar sem a rigidez de horários ou roteiros extensos, valorizando a ocupação espontânea das ruas e o contato direto com o público.
“Quanto à questão das origens e das diferenças, são coisas bem distintas. As troças surgem antes. Elas aparecem, acho, no final do século XIX e início do século XX. Uma das características mais marcantes é justamente a presença forte no carnaval de rua, no carnaval popular. As troças são muito irreverentes e, muitas vezes, trabalham com críticas políticas, culturais”, pontua Ana Paula Campos.
Do ponto de vista organizacional, as troças tradicionalmente possuem uma estrutura mais simples. Em geral, contam com diretoria básica, estandarte, orquestra de frevo ou músicos contratados, e um grupo de associados ou foliões que acompanham o desfile. A participação costuma ser aberta, com forte vínculo territorial, especialmente em bairros históricos.
Outro elemento central das troças é o caráter comunitário. Muitas delas surgiram ligadas a bairros específicos, funcionando como espaços de convivência ao longo de todo o ano, e não apenas no período carnavalesco. Reuniões, eventos sociais e atividades culturais ajudam a manter viva a identidade do grupo, reforçando laços de pertencimento e continuidade histórica.
Blocos carnavalescos
Os blocos carnavalescos, embora também tenham raízes no século XIX, desenvolveram características próprias ao longo do tempo. Em Pernambuco, os blocos ganharam destaque no Recife, associados a uma estética e a uma musicalidade específicas, distintas do frevo de rua tradicionalmente ligado às troças e clubes.
Muitos blocos surgiram em ambientes familiares, religiosos ou de trabalho, reunindo principalmente mulheres, trabalhadores do comércio ou membros de determinadas categorias profissionais. Diferentemente das troças, os blocos costumavam ter um perfil mais organizado desde sua origem, com ensaios regulares, repertório próprio e regras internas mais definidas.
Musicalmente, os blocos estão associados ao chamado frevo de bloco, que se caracteriza por um andamento mais cadenciado e pela presença marcante de corais, acompanhados por instrumentos como violões, bandolins e percussão leve.
Os blocos também desenvolveram uma identidade própria, com fantasias padronizadas, cores definidas e um cuidado estético que reforça o caráter coletivo da apresentação. O desfile de um bloco tende a ser mais linear e organizado, com concentração, percurso e encerramento previamente estabelecidos.
“Hoje em dia, a gente fala muito dessa ideia de um filtro simbólico. Para quem segue um bloco, para quem é brincante de um desses blocos, não basta apenas estar nele ou desfilar. É preciso performar e passar uma ideia de pertencimento. Então as pessoas se vestem com as cores, se produzem, se fotografam e mostram isso”, destaca Ana Paula.
Clubes carnavalescos
Além das troças e blocos, o carnaval de Pernambuco também contou com os clubes carnavalescos, que tiveram papel central sobretudo entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Esses clubes eram associações formais, muitas vezes inspiradas em modelos europeus, com estatutos, sedes próprias e forte presença da elite urbana.
Os clubes organizavam bailes, desfiles luxuosos e concursos, sendo responsáveis por introduzir elementos como carros alegóricos, fantasias sofisticadas e coreografias ensaiadas. Embora muitos desses clubes tenham desaparecido ou perdido protagonismo com o tempo, sua influência foi decisiva para a institucionalização do Carnaval e para a consolidação da ideia de desfile como espetáculo público.
O conceito de agremiação
No contexto pernambucano, o termo agremiação funciona como uma categoria ampla, utilizada para designar qualquer grupo formalmente organizado que participe do carnaval. Desta forma, troças, blocos, clubes, maracatus, caboclinhos, escolas de samba e outras manifestações podem ser classificadas, do ponto de vista administrativo e cultural, como agremiações carnavalescas.
Uma agremiação, de modo geral, é caracterizada pela existência de uma estrutura organizacional mínima, com diretoria, estatuto ou regimento interno, identidade simbólica (nome, estandarte, cores) e reconhecimento por parte do poder público ou de entidades representativas do carnaval. Esse enquadramento serve para fins de cadastro, apoio financeiro, participação em programações oficiais e preservação da memória cultural.