Banho em bicho-preguiça, floresta no quintal e hortas na calçada: assim é a vida na comunidade mais arborizada do Grande Recife
Pesquisa do IBGE apontam situação da arborização nas comunidades do Grande Recife; Diario visitou local apontado como mais arborizado da área
Diante das raízes de uma frondosa jaqueira, a dona de casa Jamile Silva cultiva a quarta geração de sua família na simpática Vila Gilberto Viegas, localizada no bairro da Guabiraba, Zona Norte do Recife. Aos quatro meses de idade, Isabela costuma passar as tardes com a mãe no quintal de casa, onde tem conhecido um mundo orquestrado pelo canto dos passarinhos e pelos movimentos sutis da floresta que margeia a vila.
A bebê é uma das mais novas moradoras da comunidade mais arborizada do Grande Recife, segundo a pesquisa “Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Localizada na Estrada dos Macacos, quase na divisa com o município de Camaragibe, a comunidade é o lar de cerca de 5 mil moradores, que convivem com 100% de arborização no entorno de suas ruas.
“O ar aqui é mais puro. Os meninos já pegam um ‘cipózinho’ e saem amarrando caju. As árvores trazem paz”, afirma a avó da criança, Fabiana Silva, que mora na vila desde os dois anos de idade.
É Fabiana quem convida a reportagem para conhecer a floresta no quintal da casa em que sua neta será criada. Repleta de árvores de grande porte, a área conta sombra permanente e fartura de frutas em suas imediações. “Quando a jaca estiver madura, aviso para você vir buscar”, oferece.
Em canteiros amplos às margens da Mata Atlântica, a própria população da vila cultiva plantas e árvores variadas, como cafeeiros e mangueiras. A via principal é uma estrada de terra, ao longo da qual é possível observar, pelo menos durante o dia, adultos conversando tranquilamente nas calçadas, enquanto crianças comem mangas recém-colhidas do pé e jogam futebol.
“O ruim daqui é que faltam parques, escolas e alguns serviços, como farmácias. Para tudo, precisamos sair”, completa Fabiana.
O contato com a fauna da Mata Atlântica também é frequente. Silenciosa, a vila não parece intimidar jiboias, porcos-espinhos e até uma dupla de bichos-preguiça que visita a comunidade em quase todas as tardes. “Eu já dei banho nelas”, confessa uma moradora, que prefere não se identificar.
O contato com animais silvestres, é claro, é desaconselhado por órgãos de controle ambiental. A maior parte dos moradores da vila, contudo, só se aproxima deles para filmar os visitantes que chegam da mata e, em quase todo celular do lugar, é possível encontrar flagras relacionados à fauna do entorno.
“Eu não trocaria isso aqui por um apartamento em Boa Viagem. Aqui temos essa riqueza”, afirma o profissional de serviços gerais Roberval Silva, que mora na vila há seis anos, apontando para a floresta que contempla diariamente, do outro lado da rua.
Antes de se mudar para a vila, há seis anos, ele morava na comunidade de Nova Descoberta, localizada a pouco mais de 5 km de distância. “Lá, a temperatura era causticante. A gente sente a diferença diariamente para o resto da cidade, basta sair daqui quando sai daqui”, acrescenta.
Pesquisa de entorno
Chefe da seção de base territorial do IBGE em Pernambuco, Juan Cordovez esclarece que a pesquisa de entorno se refere ao entorno dos domicílios e não da área das comunidades. “Os pesquisadores vão em campo nas faces das quadras, os lados das ruas, e verificam aspectos como iluminação, arborização e calçadas. Como se restringe às faces das quadras, esse estudo só se aplica em áreas urbanas”, explica.
Assim, mesmo que uma comunidade seja rodeada de matas, se nas ruas, becos ou escadas, não houver arborização o resultado será zero ou próximo de zero. O percentual final indicado para cada local é baseado na arborização das faces de quadras, considerando árvores com pelo menos 1,70 metros de altura.
“O objetivo da pesquisa de entorno é investigar as condições de infra-estrutura urbana do país. Cabe aos gestores e encarregados das áreas verificarem os índices e fazerem um bom uso dessas informações para melhorar as condições de vida dos moradores”, conclui Cordovez.
Na RMR, outras três comunidades apresentaram taxa de arborização de 100%, sendo elas: a comunidade da Área 01, também na Guabiraba, e as ocupações 8 de Março e do Aeroporto, ambas em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife. Dentre as comunidades menos arborizadas da área, estão a comunidade de Pantanal I (0,73%), em Paulista, e Pantanal III, no Barro, Zona Oeste do Recife.
Dentre as 27 capitais do país, o Recife é apenas a 20ª mais arborizada, com
26, 76% de arborização. A primeira do ranking é Palmas, no Tocantins, com 88,90%, enquanto o último lugar é ocupado por Florianópolis (14,99%), em Santa Catarina.
Urbanização
Bisavô de Isabela, avô de Jamile e pai de Fabiana, Luiz Silva chegou à Vila Gilberto Viegas há quase 40 anos, para trabalhar como vigilante de propriedades próximas. “Sou de Araçoiaba e era difícil ficar indo e vindo. Isso aqui mudou muito. Era uma vila com poucas pessoas”, lembra.
A formação da comunidade remonta à desativação da ferrovia Recife-Limoeiro, nos anos 1960. “Quando o trem parou de passar por aqui, as pessoas vieram morar nessa área, mas de forma meio desordenada”, conta Luiz, quase vizinho da antiga Estação Macacos, que ainda conserva a tradicional arquitetura das estações da linha.
De acordo com a arquiteta e urbanista Juliana Santos, que integra o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE), a despeito do bom exemplo da Vila Gilberto Viegas, a dificuldade de arborização em comunidades mais pobres quase sempre está associada à falta de planejamento urbano.
“Esses territórios se desenvolveram à margem das políticas públicas, e isso se reflete na paisagem. O principal desafio é o adensamento excessivo. As construções são muito próximas, suprimindo espaços vitais como calçadas, praças e quintais, que seriam essenciais para o plantio”, pontua.