"Nada do que ele diga apaga a violência que ele praticou", afirma médico agredido no Recife
Caso aconteceu na madrugada do último dia de 2025, no momento em que a vítima se preparava para dormir. Agressor arrombou a porta e desferiu vários golpes no rosto
Após a defesa de Túlio André Coelho Silva informar, em nota, que a agressão contra o vizinho dele não está relacionada à homofobia, a vítima, o médico Anderson Juliano de Lima disse que o argumento “não invalida um crime de ódio”. O caso aconteceu na madrugada do dia 31 de dezembro, por volta das 4h, e deixou o médico com ferimentos no rosto.
“Isso é ridículo. É o mesmo argumento de quem diz: ‘tenho amigos negros, então não sou racista’. Isso não invalida um crime de ódio. Pelas palavras que ele usou e pela forma como agiu, foi, sim, um crime de homofobia. Nada do que ele diga apaga a violência que ele praticou”, criticou Anderson.
Na nota, a defesa do agressor afirma que “também restou demonstrado que não houve qualquer conduta homofóbica. A defesa comprovou, inclusive por meio de registros públicos, que Túlio mantém relações pessoais e convivência social com pessoas declaradamente homossexuais, o que afasta por completo qualquer alegação de preconceito. Tal narrativa surgiu posteriormente e revelou-se uma tentativa de conferir maior gravidade ao fato, promovendo indevida espetacularização do caso.”
No entanto, para Anderson, a conduta do vizinho indica intolerância contra a comunidade LGBTQIAP+. “Quanto à motivação, é um caso claro de homofobia. Nos vídeos que eu postei nos stories, é possível ouvir ele dizendo que eu teria dado em cima dele, como se isso fosse justificativa para tentar assassinar alguém. Eu jamais dei em cima de ninguém, não o conhecia. Mesmo assim, ele continuou me agredindo, apesar de eu repetir várias vezes que não era a pessoa que ele estava procurando".
De acordo com o médico, Túlio tinha um outro alvo. Ele acredita que o agressor confundiu o apartamento para onde ia. “Ele proferia palavras de baixo calão, dizia que eu deveria morrer, que eu era uma aberração, que pessoas como eu não deveriam existir, enquanto me agredia fisicamente. Ele falava e batia ao mesmo tempo. Até que, quando ele me derrubou no chão, consegui empurrá-lo e fugir. Ele também fugiu”, relata.
A defesa do acusado pontuou que o caso “se trata de fato isolado, absolutamente dissociado da vida pregressa do autuado, que é primário, empresário e sempre manteve conduta social regular.”
Ainda na nota, os advogados de Túlio afirmam que não há laudo que comprove prática de lesão corporal grave e que “o documento apresentado foi produzido por médica com especialidade em pediatria, sem formação em traumatologia e com vínculo de relação íntima com a suposta vítima, o que compromete sua imparcialidade técnica.”
Por outro lado, Anderson argumenta que o laudo não foi emitido por apenas um profissional. “Qualquer médico é capacitado para avaliar e emitir laudo de lesão corporal, leve ou grave. Temos formação em urgência e perícia desde a faculdade. Além disso, não foi apenas um médico que emitiu o laudo, foram outros também. O trauma ocular foi considerado grave, porque compromete diretamente minha capacidade profissional. Não se trata de lesão leve.”