Fiação desordenada transforma ruas do Grande Recife em áreas de risco
Riscos de morte por choque elétrico aumentam durante período chuvosos
“Eu passei um dia de muita angústia e quando ele deixou de atender o telefone eu pensei o pior, mas mãe não imagina que o filho pode morrer”. Aos 53 anos, dona Eliene Maria da Silva, revive, sempre que passa pelo Derby, área central do Recife, o pior trauma dela. No início deste ano, o filho, Juan Pablo da Silva Melo, de 21 anos, morreu vítima de choque elétrico enquanto caminhava em uma calçada alagada. Ele encostou no fio coberto pela água e acabou morrendo enquanto voltava do curso de informática. O que deveria ser uma rotina comum se tornou uma tragédia que mostra o tamanho do problema do desordenamento das fiações elétricas no Grande Recife.
Eliene Maria relata que, meses antes do filho morrer eletrocutado, havia assistido a uma reportagem com ele sobre a morte de uma criança em uma praça no Recife e que jamais imaginou que isso aconteceria com ele. O caso referido ocorreu em outubro, quando um menino de 10 anos morreu após receber uma descarga elétrica enquanto brincava de esconde-esconde com um amigo numa unidade da Academia Recife, em uma praça do bairro de Engenho do Meio, Zona Oeste.
Registros deste ano mostram que a situação não é isolada. Em fevereiro três pessoas morreram eletrocutadas no Grande Recife durante fortes chuvas, em circunstâncias que envolveram fios ou estruturas elétricas comprometidas. Em maio, dois homens morreram no mesmo dia em tentativas de furto de cabos de energia em postes na Região Metropolitana.
A Neoenergia Pernambuco destaca que foram retiradas mais de 350 toneladas de cabos e equipamentos irregulares nos últimos três anos, e que em 2025 espera remover cerca de 145 toneladas adicionais.
A empresa diz que o problema não está restrito a bairros específicos, mas é “um desafio generalizado em todo o país”, e atribui parte da causa a “cabos instalados por provedores de internet e telecomunicações sem autorização e fora dos padrões técnicos de segurança”.
Entre 2023 e 2024, o Brasil registrou uma redução no total de acidentes envolvendo a rede elétrica. Apesar disso, o número de mortes aumentou no mesmo período. De acordo com o relatório mais recente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), divulgado em 22 de maio, 257 pessoas perderam a vida em 2024, sete a mais do que no ano anterior.
O levantamento mostra que, embora os episódios tenham diminuído, 685 ocorrências em 2024, o menor volume desde 2017, frente a 782 casos em 2023, a gravidade dos acidentes cresceu, resultando em mais óbitos.
No Recife e na Região Metropolitana, pelo menos cinco mortes por choque elétrico foram registradas somente este ano, em episódios relacionados a dias de chuva intensa nos meses de fevereiro e maio.
Fiação exposta e postes compartilhados são riscos visíveis
A reportagem do Diario de Pernambuco percorreu ruas e avenidas da área central do Recife e observou fios pendurados, cabos de telecomunicação emaranhados com a rede elétrica, instalações improvisadas ou clandestinas, postes mal reparados e estruturas vulneráveis em dias de chuva.
Em alguns pontos, pedestres precisam desviar. Em dias de chuva ou alagamentos, a situação se agrava. Fios rompidos ficam submersos ou escondidos, dificultando a identificação do perigo. Mesmo cabos de telefonia ou internet, quando rompidos, podem transmitir corrente se entrarem em contato com partes da rede elétrica.
A desorganização da fiação também interfere na manutenção do trânsito e na operação dos órgãos públicos. Equipes responsáveis por poda de árvores, instalação de semáforos ou manutenção de iluminação pública encontram, em muitos casos, postes sobrecarregados por dezenas de cabos, o que prolonga o tempo de intervenção e exige bloqueios maiores de vias.
A situação é perceptível em corredores importantes como a Avenida Cruz Cabugá, Avenida Norte, Antônio Góis e Domingos Ferreira, além da Avenida Gov. Agamenon Magalhães. São áreas com tráfego elevado, onde o emaranhado de fios fica exposto ao olhar de quem passa.
No Sítio Histórico de Olinda, classificado como Patrimônio da Humanidade, cabos irregulares e postes sobrecarregados contrastam com o casario colonial. No Bairro do Recife, o excesso de fiações também chama a atenção na hora de fazer um registro fotográfico. Regiões como Boa Viagem, Pina registram cabos arriados, afetando a percepção de organização e manutenção urbana.
Diante disso, a gestão estadual decidiu embutir as fiações do Bairro do Recife, com uma aplicação de R$ 300 milhões. A primeira etapa do projeto prevê que 43 quilômetros de cabos e cinco câmaras de manobra sejam embutidos, o que representa 46% da rede elétrica da Ilha do Recife.
O projeto inicial abrangerá pontos de alto valor histórico, cultural e turístico, como o Marco Zero, o Cais da Alfândega e a Praça do Arsenal.
Em abril, a Justiça determinou que a Neoenergia realize, também, o embutimento da fiação do Sítio Histórico de Olinda. A determinação aconteceu depois de uma ação civil pública que denunciou os danos dos fios expostos na área.