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"Quando a música me escolheu": a história de Isaac, o menino que encontrou na Orquestra Sinfônica de Pernambuco o som de um novo futuro

Isaac sempre teve o olhar curioso e mesmo quando a vida parecia querer abafar seus sonhos, encontrava um jeito de se manter de pé

Por Larissa Aguiar

Isaac Teixeira musicista, tocando na orquestra

Do quintal simples de casa ao palco do Teatro Santa Isabel, Isaac Teixeira construiu uma trajetória marcada por persistência, coragem e a força transformadora da música. Ele cresceu em um contexto de vulnerabilidade social, mas nunca deixou que isso definisse seu destino. Hoje, integra a Orquestra Sinfônica de Pernambuco e leva no arco do violoncelo não apenas notas musicais, mas a história de quem ousou sonhar.

Isaac sempre teve o olhar curioso e mesmo quando a vida parecia querer abafar seus sonhos, encontrava um jeito de se manter de pé. Filho caçula de um pedreiro e de uma agricultora que se reinventou como vendedora, cresceu cercado por exemplos de trabalho duro. “Meus pais batalharam muito para que a gente não sentisse as dificuldades que vivíamos. Só percebi, de fato, o quanto a situação era apertada depois de adulto”, diz Isaac.


A música entrou cedo em sua vida, ainda na infância, por meio de um professor que oferecia aulas de musicalização em escolas públicas. A primeira tentativa com a flauta doce não deu certo, mas a persistência trouxe a aprovação no ano seguinte. Vieram, depois, o trombone e a descoberta de um projeto social na cidade voltado a instrumentos eruditos. Foi ali que Isaac conheceu o violoncelo e a conexão foi imediata. “Eu queria tocar violino, mas quando vi um vídeo de violoncelo com piano, pensei: é esse. Parecia que o instrumento tinha sido feito para mim”.


O projeto social o ensinou teoria musical e leitura de partitura. No meio da pandemia, o maestro responsável se afastou e a iniciativa chegou ao fim. Os instrumentos voltaram para a prefeitura, menos o violoncelo de Isaac. Ele decidiu guardá-lo, na esperança de continuar estudando. “Tinha medo de tentar o Conservatório Pernambucano de Música e não passar. Achava que se fosse rejeitado, desistiria para sempre”.


Nesse período, tentou outros caminhos: fotografia, design, pequenos empreendimentos. Todos fracassaram, deixando dívidas e frustrações. Foi então que recebeu o convite para atuar como voluntário em um novo projeto, o GIRAL, que utilizava a música como ferramenta de transformação social. “Fui porque queria ajudar e aprender. Eu era o único dos ex-alunos que ainda tinha o instrumento e interesse em seguir”.


O voluntariado virou monitoria com ajuda de custo, um alívio em meio à instabilidade. Com incentivo dos colegas, da noiva e da equipe da ONG, Isaac enfim encarou a prova do Conservatório. O medo era grande, mas o resultado veio: aprovado. A conquista confirmou seu caminho. “Foi ali que eu decidi que seria músico, professor, violoncelista. Não ia mais desistir.”


No Conservatório, ingressou na Orquestra de Câmara, que mais tarde se tornaria a Orquestra Sinfônica de Pernambuco – criada este ano. Pela primeira vez, tocava lado a lado com alguns dos melhores músicos do estado. “Quando tocávamos Brahms, Mozart ou Beethoven, eu me sentia na Filarmônica de Berlim. Era surreal”. Para os jovens que pensam em desistir dos sonhos, ele deixa uma mensagem: “mesmo num mundo desigual, não desista. Ninguém vai lamentar um sonho que você não realizou. Ouse sonhar. Quem tem coragem para sonhar, encontra a força necessária para tornar o sonho realidade”.