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Agentes de IA e humanoides já fazem parte da transformação digital que ocorre no dia a dia do trabalho

Quando o consumidor delega rotinas para um agente, ele normaliza o ator de delegar também no trabalho, elevando o padrão de expectativa sobre tempo de resposta, previsibilidade e qualidade.

Por Marcelo Schunck (*)

Os sistemas atuais percebem contexto, selecionam ferramentas e executam ações com autonomia delimitada.

Estamos em um momento em que os agentes de inteligência artificial saíram do texto e entraram no comando. Robôs humanoides deixaram o palco e ingressaram no turno de trabalho.

O Atlas, robô humanoide com corpo e movimentos inspirados na anatomia humana para executar tarefas físicas complexas, por exemplo, ajusta passo, corrige rota e repete tarefa em ambiente hostil. A prova de maturidade aparece quando o anúncio traz metas verificáveis. Um grupo automotivo declara intenção de comprar até 30 mil unidades por ano a partir de 2028 e ampliar tarefas até 2030 para esses robôs levantarem até 50 kg e operarem entre menos 20°C e 40°C. Isso transforma robótica humana em agenda de escala, com CAPEX (Capital Expenditure), OPEX (Operational Expenditure) e KPI (Key Performance Indicator).

A era dos agentes se consolida. Os sistemas atuais percebem contexto, selecionam ferramentas e executam ações com autonomia delimitada. A noção de “vision-language-action” ganha corpo em modelos voltados ao mundo físico. Isso redefine arquitetura de TI. Processos passam a exigir orquestração de decisão, trilhas completas de auditoria, validação de segurança e critérios de desligamento seguro.

A robótica doméstica reforça o mesmo argumento em escala popular. O robô CLOiD, apresentado como “Zero Labor Home”, coloca automação com inteligência dentro das casas. Percebemos uma mudança cultural. Mudança cultural. Quando o consumidor delega rotinas para um agente, ele normaliza o ator de delegar também no trabalho, elevando o padrão de expectativa sobre tempo de resposta, previsibilidade e qualidade.

O Brasil entra na nova era com lacunas igualmente reais. Em 2024, cerca de 90% das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas usaram ao menos uma tecnologia digital avançada. Mais de 40% declararam uso de inteligência artificial, acima dos 16,9% em 2022. Esse avanço evidencia apetite e aprendizado, e também expõe o próximo degrau. Transformar a produtividade exige redesenho de processos, padronização de dados e metas de qualidade que resistam às trocas de fornecedores.

Governança decide quem colhe valor e quem herda risco. Agentes e robôs elevam probabilidade de acidente, vieses de comando, captura de dados e decisão opaca. O país já tem um ensaio institucional importante. A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) estrutura um sandbox regulatório em inteligência artificial, com testes até dezembro de 2026 e três participantes no piloto. Esse desenho convida empresas a testar com responsabilidade, documentação e transparência desde o primeiro piloto.

Diante desse cenário, é importante alinhar política pública e infraestrutura. A versão final do PBIA (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial) prevê investimentos de até R$ 23 bilhões ao longo de quatro anos. E o supercomputador Pégaso, um dos maiores da América Latina, utilizado na indústria nacional de petróleo, reúne desempenho agregado de 1500 mil laptops modernos. Essa combinação dá base para testar, adaptar e auditar modelos com ambição industrial. Ela também obriga o país a converter capacidade em execução, com pipelines de dados, simulação, validação e segurança operacional.

O mercado global já precifica essa transformação. Estudos recentes estimam que embodied AI, termo usado para descrever inteligência artificial que “vive” em um corpo físico, cresça de US$ 4,44 bilhões em 2025 para US$ 23,06 bilhões em 2030, com taxa composta anual de 39,0%. O capital migra para sistemas com corpo, sensor e tarefa. A disputa muda do “quem tem o melhor modelo” para “quem integra melhor modelo, processo e operação”.

A transformação digital deixou de ser slogan. Ela virou engenharia de produtividade. O Brasil já tem sinais de maturidade e instrumentos de aceleração. Falta tratar agentes e robôs como linha de produção, com orçamento, governança e gente preparada. Esse é o ponto em que ambição vira soberania tecnológica. É o momento em que adiamento, definitivamente, vira dependência.

(*) Marcelo Schunck é diretor de Transformação Digital da Positivo Tecnologia.