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10 anos do Impeachment: As sessões da Câmara Federal que aprovaram a derrubada de Dilma Rousseff

Em 17 de abril de 2016, após quase 10 horas de sessão e votação contínua, os deputados autorizaram a abertura do processo por 367 votos a favor e 137 contrários

Por Mariana de Sousa

Dilma Rousseff faz sua defesa na sessão de julgamento

Completados 10 anos do início do processo de impeachment contra Dilma Rousseff na última sexta (17), a tramitação na Câmara dos Deputados foi marcada por sessões longas, densas e carregadas de disputas políticas. Desde a aprovação na comissão especial até a votação final em plenário, o processo evidenciou divisões profundas no Congresso e no país.

A primeira etapa decisiva ocorreu na Comissão Especial do Impeachment, que aprovou em 11 de abril, por 38 votos a 27, o parecer do relator Jovair Arantes favorável à abertura do processo. O relatório apontou indícios de crime de responsabilidade relacionados à edição de decretos de crédito suplementar sem autorização do Congresso e às chamadas “pedaladas fiscais”.

Durante a sessão, que durou mais de nove horas, houve troca de acusações entre governistas e oposição, com gritos de “Fora Dilma” e “Não vai ter golpe”. Na defesa do governo, o então advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, classificou o processo como um “golpe”, argumentando que não havia base jurídica para o afastamento da presidente.

Para o historiador e cientista político Alex Ribeiro, com a base jurídica centrada nas chamadas pedaladas fiscais e na edição de decretos amplamente contestada, “se abriu espaço para uma disputa de narrativas entre a legitimidade do impeachment e a interpretação de que se tratava de um golpe”, mesmo havendo respeito às etapas formais, com protagonismo da Câmara dos Deputados sob a liderança de Eduardo Cunha e posteriormente no julgamento no Senado.

Na época, o deputado pernambucano Mendonça Filho, dizia que o governo queria transformar uma derrota em uma vitória, porque, segundo ele, os governistas teriam trabalhado para reverter a diferença de mais de 10 votos. “No Plenário, vai ser uma derrota ainda maior e vamos atingir os 342 votos”, afirmou.

A etapa mais emblemática aconteceu no plenário da Câmara, entre os dias 15 e 17 de abril de 2016. Após quase 10 horas de sessão e votação contínua no domingo (17), os deputados autorizaram a abertura do processo por 367 votos a favor e 137 contrários, além de abstenções.

A sessão foi conduzida pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, figura central no processo e alvo de críticas da base governista, que o acusava de conduzir o impeachment por motivações políticas.

Cada deputado teve poucos segundos para declarar seu voto, mas muitos extrapolaram o tempo. Os discursos tiveram referências a Deus, família e democracia, além de embates diretos sobre a legitimidade do processo, tratado por aliados de Dilma como golpe.

A bancada de Pernambuco teve participação relevante na votação. Dos 25 deputados do estado, 18 votaram a favor do impeachment, seis contra e um se absteve. Um dos momentos mais simbólicos foi protagonizado pelo então deputado federal pernambucano Bruno Araújo, que proferiu o 342º voto, o mínimo necessário para autorizar o envio do processo ao Senado. Ao declarar seu voto, ele discursou:

“Da minha voz saiu o grito de esperança de milhões de brasileiros. Carrego comigo nossas histórias que lutam pela liberdade e pela democracia. Por isso eu digo ao Brasil: Sim para o futuro”.

Na análise de Ribeiro, no plano político, o ponto decisivo foi a ruptura do presidencialismo de coalizão, com perda de apoio parlamentar do governo. “A expressiva votação favorável na Câmara indica que parte dos agentes públicos do Legislativo passaram a atuar orientadas mais por cálculos políticos do que por critérios técnicos”, aponta.

Entre as falas mais repercutidas esteve a do então deputado federal e hoje ex-presidente cumprindo pena por golpe de Estado Jair Bolsonaro, que votou a favor do impeachment e fez referência ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de torturar Dilma Rousseff durante a ditadura militar.

“Nesse dia de glória para o povo brasileiro, tem um nome que entrará para a história pela forma como conduziu os trabalhos da casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha. Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças de sala de aula que o PT nunca teve. Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o fascismo, pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pela nossa Pátria Amada, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”, discursou proferindo seu voto.

O então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ao declarar seu voto, se limitou a dizer: “Que Deus tenha misericórdia dessa nação. Voto sim”.

De acordo com o especialista, o processo foi marcado pela polarização, com discursos carregados de elementos ideológicos e simbólicos, como o do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“O impeachment também funcionou como um momento de reorganização das forças políticas, especialmente no campo da direita. Mais do que um julgamento jurídico, o impeachment representou um mecanismo de reconfiguração do poder político no Brasil, resultado da soma entre crise, disputa institucional e estratégias das elites”, aponta Ribeiro.

Impeachment no Senado

Com a autorização da Câmara, o processo seguiu para o Senado Federal, responsável por julgar o mérito da acusação. No dia 12 de maio, foi aberto o processo de impeachment e afastou Dilma com 55 votos favoráveis a 22 votos contrários, em uma sessão para a votação que durou mais de 20 horas.

A partir desse momento, o então presidente do STF, Ricardo Lewandowski, assumiu a condução do processo. Na sessão iniciada em 9 de agosto e encerrada na madrugada do dia 10, foi decidido por 59 votos a 21, que a presidente afastada iria a julgamento.

Dilma Rousseff fez sua defesa na sessão de julgamento do dia 29 de agosto de 2016. No dia 31 de agosto, a presidente teve o mandato cassado, como resultado de uma votação de 61 votos favoráveis e 20 contrários no julgamento que está marcado na história do Congresso Nacional e do Brasil.