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O lado da política que ainda não aceita a participação feminina

Minoria nos espaços de poder, as parlamentares relatam ao Diario diversos casos de violência política de gênero que sofrem no dia a dia dos seus mandatos

Por Mariana de Sousa

Maioria da população e do eleitorado, mulheres seguem minoria nos espaços de poder

Mesmo sendo maioria da população e do eleitorado, mulheres seguem minoria nos espaços de poder no Brasil e em Pernambuco. Na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), por exemplo, apenas sete mulheres estão presentes entre as 49 cadeiras disponíveis.

No Executivo, o cenário histórico também evidencia a desigualdade. Após a redemocratização, Pernambuco teve apenas uma mulher eleita governadora em 12 mandatos: Raquel Lyra (PSD).

Essa desigualdade leva a um cenário comum a quase todas as mulheres que assumem mandatos: a violência política de gênero. A prática comumente ainda vem aliada a mais ameaças de morte e de violência sexual fora do ambiente parlamentar, como denunciou a vereadora Kari Santos (PT), na última semana, na tribuna da Câmara do Recife.

Ao Diario, a parlamentar reafirmou que recebe ameaças constantes nas redes sociais e por e-mail, além de descrever episódios recorrentes de desrespeito dentro da Câmara do Recife.

“Temos sido vítimas de diversos episódios de violência política de gênero. Somos desrespeitadas cotidianamente pelos homens da Casa, que conversam enquanto falamos, vão embora na hora das nossas falas, gritam e até mesmo são agressivos quando nós estamos na mesa”, conta.

A fala da vereadora não expõe algo esporádico, muito pelo contrário. À reportagem, outras lideranças políticas femininas do estado relataram mais casos de violência política de gênero e falaram sobre os desafios de atuar em um ambiente majoritariamente masculino.

“Foi mulher na política, está sujeita à violência política de gênero. São episódios de várias espécies de violência que tentam silenciar a mulher e dizer que aquele lugar não é dela”, define a deputada estadual Dani Portela (PT).

“Já sofri ataques e ameaças de morte, ameaças contra a minha própria vida. Dizem que vão tirar a flor da minha cabeça com a espada de Duque de Caxias ou que vão dar tiros, dizendo o calibre e o tipo de arma”, complementa a deputada.

Dani também relatou ataques racistas e tentativas de desqualificação de sua atuação parlamentar. “Comigo vem muito essa coisa de desqualificar a fala, ‘não sabe o que está falando’, ‘cala a boca’. Vem muito racismo também, de querer me diminuir por ser uma mulher negra e dizer que eu deveria estar limpando os nossos banheiros e não sendo parlamentar.”

Na Câmara do Recife, a vereadora Ana Lúcia (Republicanos), 2ª vice-presidente da Câmara do Recife, também relata episódios de interrupções constantes. “Já teve vereadores homens subindo à mesa diretora para confrontar uma decisão tomada por mim. Além disso, é constante o barulho quando nós mulheres estamos na tribuna fazendo uso da palavra. (Também) Interrompem a nossa fala. Isso é uma violência de gênero”, enumera.

Em Olinda, a vereadora Eugênia Lima (PT) afirma que já teve a fala impedida em mais de uma ocasião na Câmara Municipal. “Eu havia me inscrito para falar, tinha um acordo entre os pares para que eu usasse a tribuna e quando chegou a minha vez a mesa diretora, composta só por homens, simplesmente decidiu encerrar a sessão.”

Outro episódio ocorreu durante a votação de um título honorífico. “Quando aprovaram o título de cidadão a (Jair) Bolsonaro, fui a única que votou contra e também não tive direito de justificar meu voto, de falar. Esses incidentes foram manobras para calar a minha voz”, denuncia.

Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Maria Arraes (Solidariedade) também relatou situações de intimidação no ambiente parlamentar. “Já houve momentos em que deputados homens tentaram falar mais alto ou intimidar, acreditando que isso poderia me fazer recuar.”

“A violência política de gênero muitas vezes não aparece apenas em ataques explícitos, mas também em atitudes sutis: interrupções constantes quando uma mulher fala, questionamentos sobre sua firmeza ou competência, ou a tentativa de rotular posições políticas legítimas como ‘melindre’, ‘exagero’ ou ‘intransigência’. Já presenciei e vivi situações que deixam isso evidente”, resume a deputada estadual Débora Almeida (PSDB).

“A violência política de gênero muitas vezes se manifesta em atitudes sutis do cotidiano: na tentativa de deslegitimar a fala de uma mulher, na interrupção constante, no questionamento da sua capacidade ou na tentativa de reduzir sua atuação a estereótipos”, complementa a vereadora de Olinda, Denise Almeida (PSD)

Por outro lado, a deputada federal Clarissa Tércio (PP) foi a única parlamentar entrevistada pela reportagem que disse não se considerar vítima de discriminação no ambiente político. “Na minha experiência, o fato de ser mulher na política muitas vezes abre portas. Eu nunca me senti discriminada por homens no ambiente político. Sempre fui muito bem tratada por onde chego.”

Segundo ela, divergências que surgem na política ocorrem no campo das ideias. “Quando existem divergências, elas acontecem no campo das ideias, no campo ideológico. Debato com homens e debato com mulheres da mesma forma, e quando há críticas ou ataques, eles se dão justamente nesse espaço do debate político.”