Candidatura avulsa como opção para vaga no Senado
Especialistas explicam como é possível um candidato concorrer fora da chapa majoritária e avaliam as vantagens e desvantagens da prática para a eleição
Em ano de Eleições Gerais, o cenário político começa a ganhar contornos mais definidos. Diversas pré-candidaturas já foram anunciadas, enquanto outras seguem em articulação, com coligações sendo costuradas nos bastidores. Nesse processo de ajustes e rearranjos, algumas candidaturas que ainda não encontraram espaço em chapas majoritárias ou proporcionais podem acabar sendo lançadas de forma avulsa, ou seja, com um candidato que não integra uma chapa majoritária, que reúne governador, vice-governador e dois candidatos ao Senado.
No caso da Casa Alta, as eleições funcionam de forma diferente dos demais cargos legislativos, como a Câmara dos Deputados e as câmaras municipais: é eleito quem recebe a maioria dos votos, como ocorre nos cargos do Executivo. “É um sistema majoritário de maioria simples", diz a cientista política e pesquisadora Barbara Vieira.
“O quociente eleitoral ou federações e coligações entre partidos não importam para o resultado final, pois não impactam na contagem de votos e na distribuição de cadeiras. A campanha em si, os apoios e as conexões com outros candidatos em chapas partidárias são importantes para trazer visibilidade, fortalecer o processo e propiciar a eleição de mais candidatos de um mesmo partido e chapa”, explica.
Em Pernambuco, o calendário político prevê, desde a última quarta-feira e até 3 de abril, a chamada janela partidária, período em que parlamentares podem trocar de partido sem risco de perda de mandato. Enquanto os partidos de maior porte avançam na consolidação de suas alianças, as legendas menores enfrentam o desafio de garantir protagonismo e viabilidade eleitoral - corrida semelhante à de candidatos que acabam ficando avulsos.
Vantagens e desvantagens
O cientista político e pesquisador Vitor Pimenta fala sobre as vantagens e desvantagens desse tipo de candidatura. Entre os aspectos positivos, ele destaca a possibilidade de construção de maior autonomia política da liderança, além da abertura de pontes de diálogo com eleitores de diferentes campos. “Para a democracia, pode se tornar essencial para fomentar o debate público. Mas, claro, em um cenário em que esta candidatura independente seja alguém comprometido com os valores democráticos e com o bom debate”, complementa.
Entre os pontos negativos, o pesquisador ressalta “a menor estrutura de campanha, a ausência do efeito de transferência de votos de candidaturas a governador e, principalmente, a dificuldade de coordenação partidária". Em relação à aderência a esse tipo de candidatura, os especialistas explicam que é absolutamente possível que um candidato da chapa principal seja eleito junto com outro que esteja fora dela.
“Isso ocorre porque o eleitor não é obrigado a seguir coerência partidária. Em contextos de baixa identificação ideológica com partidos e alta personalização da política, esse fenômeno é mais comum do que a gente pensa”, ressalta Pimenta.
Entre exemplos de políticos avulsos - ou que preferiram percorrer o caminho à Casa Alta por conta própria - está o ex-jogador da Seleção Brasileira, Romário (PL), eleito senador pelo Rio de Janeiro com votação expressiva em 2022. Para especialistas, a votação foi muito ancorada em capital simbólico e voto pessoal, e não em arranjos partidários.
“Há casos de candidatos que mesmo sem ter necessariamente um arranjo eleitoral, têm um forte apelo popular como o caso de Jarbas Vasconcelos, que mesmo em contextos de rearranjos políticos, conseguiu se eleger com forte base pessoal”, exemplifica também o cientista político e professor Sandro Prado.
Sob outro aspecto político desse tipo de candidatura, Barbara analisa que, dentro de um grupo político que está na situação, o lançamento de candidaturas avulsas pode ser prejudicial por dividir a base eleitoral do partido ou da coligação. Nesses casos, a estratégia eleitoral poderia ser vantajosa para o campo da oposição, seja com candidaturas em chapas compostas ou avulsas, ao tirar votos da chapa da situação.
A posição de Marília Arraes e Miguel Coelho
Um dos temas mais recorrentes no debate político sobre as pré-candidaturas é a corrida de Marília Arraes (Sem partido) e Miguel Coelho (União Brasil) por uma vaga como candidato ao Senado nas chapas eleitorais.
Enquanto Miguel afirmou que não abre mão de ser candidato à Casa Alta, Marília ventilou a possibilidade de se lançar como candidata avulsa, mas na última quinta, ao anunciar a ida para o PDT reafirmou lealdade a João Campos (PSB) e disse buscar a vaga na chapa do prefeito do Recife e pré-candidato ao governo estadual.
O cientista político Vitor Pimenta analisa que a movimentação de Marília Arraes, com a saída do Solidariedade e negociação com o PDT, é essencialmente uma estratégia de posicionamento na disputa majoritária, que pode ser observada em dois fatores.
“Primeiro, encontrar um partido com mais densidade eleitoral e estrutura nacional. A ida para o PDT fortalece a candidatura porque o partido tem maior presença e usufrui de mais recursos, ainda mais considerando que o Solidariedade está enfrentando enormes dificuldades para superar a cláusula de desempenho”, elenca.
Em segundo lugar, o especialista aponta a tentativa de “se posicionar dentro do campo político ligado ao lulismo e ao PSB” – palanques historicamente consolidados no estado. “Ela (Marília) tem sinalizado e pressionado por apoio ao prefeito do Recife, João Campos, que é o pré-candidato ao governo estadual em 2026, liderando com certa folga nas pesquisas mais recentes. Isso ajuda a reduzir o isolamento político que ela enfrentou após a eleição de 2022”, analisa o pesquisador.
Em relação a Miguel Coelho, Vitor Pimenta explica que a disputa ao Senado tende a ficar mais sensível após a repercussão da Operação Vassalos, deflagrada pela Polícia Federal no dia 25 de fevereiro, envolvendo integrantes de sua família, como o pai, o ex-senador Fernando Bezerra Coelho, e o irmão, o deputado federal Fernando Filho.
“Mesmo que as investigações não impliquem automaticamente condenações ou inelegibilidade, esse tipo de episódio costuma produzir desgaste reputacional e gerar cautela entre aliados e partidos na fase de montagem das chapas. Em disputas majoritárias como a do Senado, nas quais confiança e imagem pública pesam muito, o principal desafio passa a ser preservar o capital eleitoral regional e evitar que o tema domine o debate da campanha, sobretudo num cenário já bastante competitivo, principalmente para a segunda vaga”, detalha.