"Quais as grandes obras depois do que meu pai fez?", questiona João Campos
Ao Diario, nesta sexta-feira (12), porém, Campos destacou que "eleição é uma palavra que praticamente não está no vocabulário" e destacou, relembrando o pai, que a atual gestão não tem uma "grande transformação" para apresentar à população
Prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos (PSB) é um dos cotados para disputar o governo do estado em 2026 e já figura como favorito nas pesquisas com ampla vantagem. Em entrevista exclusiva ao Diario, nesta sexta-feira (12), porém, Campos destacou que “eleição é uma palavra que praticamente não está no vocabulário” e destacou, relembrando o pai, que a atual gestão não tem uma “grande transformação” para apresentar à população, sobretudo nas áreas de saúde e educação.
O prefeito ressaltou que sua parceria com o presidente Lula (PT) é uma “relação consolidada”, avaliou o atual momento do Congresso e afirmou que o PL da Dosimetria “não é adequado nem correto”.
Ele destacou algumas ações do mandato, como a previsão de iniciar no próximo ano a contenção do avanço do mar em toda a orla recifense, indo do Pina à divisa com Jaboatão e a primeira etapa do armamento da guarda municipal, que vai contemplar três grupos de policiais.
O gestor também afirmou que as pessoas querem fazer o “debate de lacração” sobre o projeto Distrito Guararapes e falou sobre o aumento no número de motos.
Eleições 2026
Vocês não me veem falando de eleição por aí, de antecipar a eleição. É uma palavra que praticamente não está no meu vocabulário. Eu tô fazendo dever de casa como prefeito, trabalhando ao extremo. A partir do momento que você tem força política e direciona para o que é bom para o Recife, é muito fácil andar em Brasília e conseguir coisa boa para a cidade. Isso faz toda a diferença.
Parcerias com governos do estado e federal
Hoje tem uma relação institucional (com o governo do estado), um roteiro institucional que funciona. Agora, em relação ao presidente Lula, eu diria que você governar um estado ou uma cidade no momento em que Lula governa um país é uma grande oportunidade.
E eu tenho muita confiança na relação construída com o presidente Lula. Fui o primeiro presidente nacional de partido a declarar o apoio a ele para a (reeleição à) presidência.
Então é uma relação consolidada, não é uma relação de uma oportunidade, de chegar na véspera de uma eleição e correr para tirar uma foto, para fazer uma fala. Não é isso.
Gestão estadual
Quem tem que avaliar é quem está no dia a dia usando os serviços públicos. A grande questão que eu digo é a seguinte: se passaram três anos da gestão atual do estado e qual a grande transformação na saúde pública, do piso ao teto, estrutural, coisa grande, novos hospitais, ampliação de serviços, tecnologia, modelo de gestão, na ponta, a turma sentindo?
Eu lembro quando meu pai era governador que certa vez um amigo de infância dele estava lá em casa relatando que tinha visto alguma coisa no Hospital da Restauração, paciente na maca, confusão. E ele disse: “Vá lá e diga que até o meio do ano que vem está resolvido. Já inaugurei o primeiro, vou inaugurar os outros dois hospitais metropolitanos. Eu quero ver se eu não vou resolver a Restauração”. E ele fez.
Desconheço alguma grande transformação (do governo estadual) também na educação. Não conheço duas escolas inauguradas. Quais as grandes obras depois do que meu pai fez?
As pessoas esperam que a gente faça, entregue; que a gente possa transformar em resultado. Não vejo grandes resultados. Agora, quem tem que avaliar isso é o povo.
Análise do Congresso Nacional
O que aconteceu no Congresso (ocupação e expulsão do deputado Glauber Braga da Mesa da Câmara) é algo lamentável. O que me incomoda é essa falta de liturgia das coisas. O Congresso virar um ambiente da não-liturgia é uma péssima referência. Parece que agora é o espaço do vale-tudo. É um caminho que é ruim porque o caminho da barbárie. E a barbárie é antipolítica.
Então, quem faz política séria, e aqui eu estou falando de você pode ser da esquerda, você pode ser da direita, pode ser de centro, mas quem faz política de forma séria, respeitando as pessoas, respeitando as regras, respeitando quem pensa diferente, lamenta coisas como essas.
Lamenta a atitude de se usar força, a atitude de você ter comportamentos distintos entre quem é de direita e quem é de esquerda, no momento de uma coisa tosca também, que é sentar na cadeira de um presidente de um congresso. Seja qualquer parlamentar, qualquer um; do mais antigo ao mais novo, do mais à direita ao mais à esquerda, qualquer um. Nenhum deles tem o direito de obstruir a cadeira de um presidente de nenhum poder. Isso, na minha cabeça, é inadmissível.
Jamais farei um debate da antipolítica, mas eu lembro quando eu era deputado e eu fico imaginando, no dia de hoje, toda vez que eu entro ali no plenário (da Câmara), eu penso o que é que Arraes pensaria do Congresso atual e o que é que o meu pai pensaria.
Tenho trabalhado para que se tenha um Congresso melhor a partir de 2027. Eu acredito que o meu partido vai crescer nas eleições do próximo ano, pode ter uma bancada maior. O Congresso tem que voltar a ser um espaço ordeiro, que as pessoas pensem diferente, que as pessoas dividam, que as pessoas debatam, que as pessoas botem as ideias para se enfrentar. O ambiente hoje não está bom e os partidos têm que ajudar a mudar isso. Então eu me sinto numa área também que tenho responsabilidade para ajudar a mudar e vou fazer o dever de casa para isso.
PL da Dosimetria
O projeto da Dosimetria é adequado nem correto. Além do conteúdo ser controverso, a forma é muito controversa. Você tem a prisão de um ex-presidente, tem o anúncio de candidatura do filho dele e você tem um projeto sendo aprovado na Câmara de 3h da manhã. Não é saudável o que foi feito.
Pesquisas para o governo
Eu fico muito feliz com o resultado. Historicamente, eu não gosto de comentar pesquisa de forma pública porque eu acho que você, principalmente quem é dirigente partidário, quem é candidato, pré-candidato, não pode correr o risco de virar um comentarista de pesquisa. Mas eu fico feliz pelo reconhecimento, porque quando aparece uma pesquisa e coloca nosso nome muito bem posicionado, uma possível disputa eleitoral, isso é fruto da confiança, da expectativa.
Então, 90% do meu tempo eu estou aqui no Recife trabalhando, fazendo os ofícios de prefeito. E se as pessoas enxergam que esse trabalho está sendo bem feito, aprovam no Recife e reconhecem esse trabalho fora, eu fico feliz. Fico feliz e agradeço a generosidade das pessoas.
Polarização eleitoral
A eleição presidencial pode ter um primeiro turno com uma direita fragmentada ou uma direita mais unida. Mas, em qualquer cenário, eu vejo que vão ter duas frentes distintas. Talvez não seja um mano a mano no primeiro turno, mas vão ser duas frentes distintas. Vai ter Lula e vão ter as candidaturas à direita. Mas, em qualquer cenário, eu acredito e trabalharei para Lula ser reeleito. Eu acredito que ele ganhe a eleição.
O tempo vai dizer como isso vai se replicar nos estados, mas eu vejo uma tendência clara de uma eleição polarizada nacional, fragmentada na direita no primeiro turno ou não, depende, mas que vai ter dois polos.
Relação entre Executivo e Câmara do Recife e Alepe
Eu não vejo quem é mais fácil, mais difícil, é muito de como cada um conduz as suas relações políticas e como cada um governa. Eu sou de uma escola que busca botar a política para lhe ajudar a ter energia para resolver os problemas de fora; da rua, das cidades, das escolas e da saúde.
Porque se você não canaliza sua força política pra fora, você for perseguir adversário, brigar com opositor, politizar um debate de qualquer tema, Você fica enganchado nessa briga, e essa briga consome. Então quem governa tem que pensar pra fora, não pode estar na briga menor.
O meu perfil é esse. Sempre vou tentar fazer dessa forma.
Perseguir adversários
Não sei quem persegue ou deixa de perseguir (adversários). Eu sei que eu não gasto meu tempo perseguindo adversários. Inclusive, eu penso todos os dias que quem me confiou a ser o prefeito mais votado da história do Recife, certamente, uma votação desse tamanho não é para perseguir ninguém, é para perseguir o problema.
Federação PP e União Brasil
É uma situação nova porque nós temos uma relação com a União Brasil. A União Brasil apoiou a nossa reeleição aqui no Recife. Então se você pegar o arco de alianças que foi feito para a eleição do Recife, ele é um arco que permanece ali muito parecido.
A novidade é uma federação. Então essa federação foi protocolada, o TSE tem que analisar para efetivar, e a partir do momento que efetiva, vale a federação.
Nacionalmente o União é um partido maior do que o PP, localmente parece que o PP tem uma posição cartorial maior do que o União. Com a federação homologada pelo TSE, o regimento dela e a constituição pública é que vai dizer para onde vai.
Eu tenho conversado com Miguel Coelho porque ele esteve presente na minha eleição, ajudou, a gente trabalhou junto também lá em Petrolina. Antônio (Coelho, deputado estadual) foi nosso secretário, fez um bom trabalho aqui.
Miguel é o presidente estadual do União Brasil, é nosso partido aliado, e eu estava conversando com ele enquanto União Brasil. Agora que vem a federação, eu conversei com (Antônio) Rueda (presidente nacional do União Brasil) lá em Araripina, e eu acho que no tempo certo as coisas vão ficar mais claras.
Garantia de Geraldo Alckmin na vice-presidência
É uma prioridade do nosso partido garantir a permanência de Alckmin na vice (de Lula). Quando a gente já tem um caminho de reeleição, você tem a oportunidade de fazer uma avaliação do que passou, né? E a postura de Alckmin foi muito correta, importante.
No momento do tarifaço, ele tomou a frente da coisa, com o setor produtivo, conversando, buscando um caminho, um diálogo. Então, pessoas que fazem a diferença em momentos críticos, estratégicos, são fundamentais.
Eu não tenho dúvida que Alckmin foi uma peça fundamental na engrenagem para vencer a eleição de 2022. Ele faz um grande trabalho como vice-presidente, cumprindo os ofícios de vice-presidente, com a descrição que lhe é particular.
Faz também um grande trabalho como ministro da Indústria. Então, pelo contrário, para mim é tão natural que ele esteja credenciado a estar, que é quase a lógica ao contrário. Por que não ele?
Hugo Motta como presidente da Câmara
O momento é muito adverso e vejo que ele está sendo colocado à prova a todo momento. E a sensação que eu tenho é que está faltando alguém chegar ali e fazer com que baixe a poeira. Esse ambiente da poeira alta está muito ruim. A rotina do congresso fica ruim, fica pesada, fica não fluida, e no final isso é ruim pro Brasil.
Vai sair muita gente machucada, fragilizada, a pauta não anda, aí aprova, derrota em outro canto, passa na Câmara, não passa no Senado, presidente veta, derrota o veto. A sensação que dá é que se você passar três dias sem ler a notícia, o cara já não entende mais como é que tá a confusão.
Reforma política
Eu lembro uma vez do meu pai falando assim: “Ó, a melhor reforma política é uma reforma feita e lançada para uma próxima quadra”. Qual o problema hoje? A turma fica fazendo colcha de retalho e aí gera uma coisa natural da vida humana que é a sobrevivência.
Você fica colocando um Congresso para eleger uma nova regra, pensando na própria eleição dos congressistas. Isso é ruim. Era melhor fazer uma reforma maior que você jogasse para uma implementação mais na frente porque aí você tem a condição de fazer aquilo que é certo de ser feito. Então o primeiro ponto é esse.
Segundo, é que essas mudanças eleitorais ficam muito esparsas. Você muda um item, muda outro, muda um, muda outro, em vez de você pensar um sistema como um todo.
Eu, particularmente, acho que o sistema tem que ser revisto. Do jeito que está, não é funcional. Teria que ter um novo sistema político, e isso passa para as eleições de parlamentar. Então, ter o sistema de voto distrital misto, discutir se a lista é aberta ou fechada. Uma coisa mais robusta e menos arrumada de eleição em eleição.
Contenção do avanço do mar
O Recife está fazendo esse dever de casa antes do estado fazer. A gente já tem um projeto executivo validado e em fase final de elaboração. Eu contratei o projeto antes de qualquer cidade ter um projeto. No final do primeiro semestre do ano que vem, eu contrato a obra. ou esperar o governo do estado fazer, eu vou esperar o governo federal fazer? Não. Eu não fico esperando alguém fazer. As pessoas votaram em mim para resolver o problema, enfrentar e buscar a solução.
Com o dever de casa feito, eu vou bater na porta do presidente Lula e vou dizer, presidente, olha aqui, vamos agir junto nessa obra? Porque é uma obra cara, de mais de R$ 400 milhões. A gente tá falando de Brasília Teimosa até a divisa com Jaboatão.
São etapas diferentes, então são soluções diferentes. Não é só você pegar a areia de uma mina e colocar na frente, não. Um dos principais componentes é você reduzir a força da onda. Então você constrói uma estrutura dentro do mar que reduz a força da onda e só isso o próprio mar já coloca areia em determinadas áreas, já protege.
A gente também estudou o impacto em toda a costa e fez a modelagem na bacia do Rio Tejipió e no estuário comum, que é uma área onde chega um braço do Capibaribe, o Rio Jordão e o Rio Tejipió.
O estudo da engorda, com o estudo do Tejipió e do estuário comum, a gente tem uma solução integrada que vê também sobre o aumento do nível do mar. Então, isso que está sendo feito, eu digo com toda certeza. Nenhum outro ente do estado de Pernambuco está fazendo o que o Recife está fazendo.
Guarda Armada
Primeiro, é uma decisão do Supremo que faz um reconhecimento do papel de polícia comunitária da Guarda. Então, se você concorda ou não, decisão judicial é uma decisão, ponto. E o segundo ponto é a PEC da Segurança, que dá uma nova atribuição no sistema de segurança à Guarda. A guarda do Recife, inclusive, acho que ela, a do Rio de Janeiro e mais outra eram não armadas. Ela tinha um caráter patrimonial, mas com a nova PEC da Segurança e a nova visão do Supremo, passa a ter um componente diferente, então não é mais o que você acha, é um fato, passa a fazer parte de um sistema nacional de segurança.
Eu não estou armando ela toda de uma vez porque eu acredito que a gente vai ter que fazer um primeiro passo e a gente vai medir o resultado para decidir a expansão ou não. São três grupos prioritários de armamento da guarda: o Grupo Tático Operacional (GTO), a Brigada Ambiental e a Área de Controle Urbano.
Para isso ser feito, você tem uma burocracia gigante que está praticamente vencida para começar o treinamento, a aquisição das armas já está sendo feita, tudo para no início do ano estar armando a guarda. E vai ter aquisição de câmera (corporal) também junto com as armas.
Projetos para conter alagamentos
Não tínhamos como fazer nada disso, nada disso, se a gente não tivesse o projeto. E para fazer o projeto, foi preciso fazer uma modelagem de toda essa área. É pegar toda a bacia do rio Tejipió, escanear, colocar no computador e simular chuva, alagamento; os rios, como é o comportamento dele no momento de chuva. Isso demora um ano e meio para se fazer. Pra gente conseguir fazer, ter uma validação internacional - a gente teve uma validação da Holanda, outra da Espanha. Imagina, é uma cidade que tem 488 anos e isso nunca foi feito.
E, sem isso, a gente não conseguiria o desembolso (empréstimo de R$ 2 bilhões do BIRD) e não conseguiria fazer a obra. Então, por isso que a gente consegue primeiro fazer as obras de encosta, porque não precisa disso.
Obras de macrodrenagem
Primeiro, a gente tem que reconhecer onde a gente mora. A gente mora numa cidade de 220 quilômetros quadrados, que é cortada por 99 rios e riachos, tem uma parte importante ao nível do mar e uma parte que é até um pouco abaixo do nível do mar. E é a cidade do Brasil mais suscetível à interferência do aumento do nível do mar. Isso mostra, na verdade, que é uma cidade que tem uma influência muito grande da mudança e da intempérie, principalmente de chuva, de alagamento e de um eventual aumento do nível do mar. Então, há uma condição geográfica no Recife que é inegável.
O que é que nós fizemos? A gente fez o que nunca foi feito na história do Recife. A gente conseguiu estruturar um projeto, um plano de investimento e, principalmente, ter a capacidade de executar isso. Então, dentro do (programa) Promorar, que é R$ 1,5 bilhão de investimento, a gente tem uma área específica para investimento na bacia do rio Tejpió. O Recife tem três grandes áreas: o rio Capibaribe, o Beberibe e o Tejipió. A mais crítica é a do Tejipió.
Isso pega, por exemplo, as avenidas Recife e Mascarenhas de Moraes, para dar um exemplo. Para você conseguir resolver isso, a gente precisa ter obras de macrodrenagem muito grandes. Foram R$ 500 milhões nessa área e já começou (o serviço).
É um conjunto de obras de médio porte que vão ter um impacto de grande porte. São mais de oito obras diferentes que juntas elas vão causar esse impacto. A gente já está em execução com a obra, já fizemos o primeiro trecho de dragagem do rio Tejipió e já foi feito quase um quilômetro.
Eu quero que, num fenômeno de chuva intensa, a gente tenha uma lâmina de alagamento na avenida Recife, e na Mascarenhas de Morais reduzida, e que o tempo de escoamento seja mais rápido. Então, esse é o impacto que a gente vai sentir. As obras já começaram, tem mais quatro anos de obra. Até 2029, entre 2028 e 2029, esse conjunto de obras vai estar terminado porque são oito grandes obras e que só foram feitas após esse investimento. Então, isso é do Promorar.
A gente está na fase final de execução do Parque Alagável do Campo do Sena, que vai ser o primeiro grande parque alagável do Recife, onde no dia de chuva a água vai entrar e vai ficar dentro de um parque e não na casa das pessoas.
E a gente está, no início do próximo ano, começando outras obras de contenção, dique de contenção, comporta, sistema de bombeamento, que vão ser mais próximos à avenida Recife.
Microdrenagem e outras obras
Além disso, a gente tem investido em muita obra de microdrenagem, que é a parte de galeria, da tubulação embaixo da rua. A gente está conseguindo fazer novas obras de canais, que há muito tempo não se fazia na cidade, Então, o canal do Sambra, que é ali na avenida Recife, eu consegui incluir no PAC; o canal da Mauricéia, que é lá no Ipsep, eu consegui incluir no PAC.
E a gente vai ter mais de R$ 60 milhões de obras do PAC voltadas para a drenagem também nessa área. Então, qual vai ser o impacto? As pessoas vão chegar ali em 2028, 2029 e vão ver um conjunto de obras funcionando, que nunca foi feito algo desse tamanho na cidade. E mais do que isso, a gente passa a ter um plano de como fazer isso ao longo do tempo. A gente vai ter tudo mapeado e digitalizado e a gente vai poder fazer grandes intervenções. A Holanda faz isso há mais de 200 anos e a gente começou a fazer isso há quatro anos aqui no Recife.
Impacto das obras para as pessoas
O impacto é grande para as moradias, para a questão do alagamento não só das vias, do transporte, mas para as pessoas o impacto é muito maior. Quando a gente olha comunidades como Areias, Ipsep, Jardim Uchôa, Vila das Aeromoças, Caçote, Jardim São Paulo… vai ter um impacto muito positivo da água não ir para a casa das pessoas.
Quando a gente olha a área do Campo do Sena, hoje, a água entra na casa das pessoas e agora ela vai entrar dentro de um parque, não vai para a casa das pessoas. Então a prioridade são as pessoas, a casa das pessoas.
Desapropriações
A premissa número um, na parte das obras de drenagem, é proteger as pessoas. Dentro disso, já vem o segundo ponto, o menor número de reassentamento possível. Se precisar tirar alguém, ser o menor número possível de pessoas. Agora, tem situações onde isso é inevitável. Eu vou citar um caso concreto.
O ponto mais notificado de alagamento da cidade do Recife é na frente da Praça da Chesf, na Abdias de Carvalho. Aquela chegada da BR-232. Por quê? Porque existe um canal que passa ali do lado, onde ele passa por uma área que era federal, de domínio do DNIT. Então é uma área que a responsabilidade é federal, concedida ao estado - porque a rodovia é federal, mas a gestão é estadual -, mas é dentro de uma cidade. Então o município não tinha a tarefa de estar cuidando daquela área.
Ao longo dos 50 anos, 40 anos, 30 anos, mais de 100 construções foram feitas dentro do canal. Não é nem numa margem nem na outra. Então hoje a água não passa. Isso faz com que qualquer chuva mínima aquilo alague.
Eu podia pegar e falar assim: “Ó, isso é uma área do DNIT, a gestão é do estado, e cabe a eles resolverem”. E entrar com a ação na justiça. Essa não é minha escola. Fui lá, conversei com o ministro (dos Transportes) Renan (Filho).
Ministro, tá acontecendo isso e isso e isso. Eu posso cuidar? Pode cuidar. Pronto. Fiz o projeto, contratei a obra, lancei a licitação da obra e vai começar no início do ano que vem. Nós vamos resolver esse ponto de alagamento da cidade e vamos fazer naquelas alças da BR-232, vai ter o maior reservatório de acumulação de água da cidade do Recife, dá mais de 40 piscinas olímpicas, para no dia de chuva a água ir toda pra lá e isso vai fazer com que ela não chegue lá no rio Tejpió, não vá bater na Avenida Recife e na Mascarenhas. Então, num caso como esse, você precisa reassentar as famílias, entendeu?
Elas vão ser indenizadas e podem ser reassentadas as que desejarem também. Mas você entende, tem 100 casas construídas em cima de um canal. Com certeza, as pessoas não gostariam de estar morando ali. O que é que cabe a gente? Dar uma alternativa a essas pessoas para morarem em outro lugar.
Habitação
Primeiro, existe uma modalidade do Minha Casa Minha Vida, que é de iniciativa do município. A gente cadastra a cidade do Recife, vai lá e cadastra. Eu tenho esse terreno e eu quero construir 300 unidades aqui. E toda a decisão é do município de fazer. Historicamente, o Recife faz dessa forma. Mas o governo federal lançou o Minha Casa, Minha Vida Entidades também. Então tem dois modelos. Hoje, 90% do que a gente constrói é no modelo da prefeitura que constrói junto com o governo federal. Mas existem vagas específicas para entidades. E o que é que eu defendo? Que a gente tem que fazer os dois, porque são vagas diferentes.
O Recife pode fazer duas mil unidades, mas as entidades podem fazer 500 no Recife. A gente vai abrir mão das 500 unidades? Não. Aí o que é que nós fizemos? A gente cadastrou os dois terrenos do município e uma entidade concorre à licitação, ao credenciamento federal do Ministério das Cidades e ela ganha para poder construir aquela unidade. E aí quem decide as pessoas é a entidade. Então, o critério de decisão é da entidade.
Estamos buscando problemas críticos da cidade e propondo à entidade que sejam resolvidos.
Agora eu queria destacar uma coisa. Em 16 anos foram 9.500 unidades do Minha Casa Minha Vida construídas no Recife. Isso inclui unidades de mercado, faixa 1, 2, 3 e 4, que é construído e você compra a unidade.
Nós fizemos uma nova lei de uso e ocupação do solo da cidade, que foi aprovada por unanimidade. O próximo ano têm autorizadas para construir 9.500 unidades. O Recife pode construir, em um ano, a mesma quantidade do que foi feito em 16 anos de Minha Casa Minha Vida. Por isso, é importante você ter a capacidade de fazer uma lei certa, ouvindo as pessoas, mas ter a capacidade de resolver.
Regulamentação das leis
O Plano Diretor é a lei maior e todas as outras são regulamentação do Plano Diretor. Então, nunca teve uma lei de desapropriação por hasta pública. Quem fez? Fui eu que fiz. A lei de Uso e Ocupação do Solo era uma lei dos anos 90. Quem foi que fez a nova? Eu que fiz. Tudo isso é regulamentação do Plano Diretor. Então, se de fato existia uma lógica de não regulamentar, comigo não tem isso. Eu tô aqui pra fazer o que a cidade espera. Eu não tô pra agradar fulano, ciclano.
Existia um Plano Diretor com lei de desocupação descasada. Isso gera insegurança de interpretação. Então o que a gente fez foi um Plano Diretor novo e todas as leis agora vão ser novas.
Críticas à Lei do Uso e Ocupação do Solo
Se tivesse muita crítica, não teria sido aprovado por unanimidade. Eu não conheço uma outra lei de uso e ocupação que tenha sido aprovada por unanimidade. Agora, o que é que nós fizemos? Nós pegamos elementos positivos da lei dos 12 bairros e levamos para outras áreas da cidade.
Por exemplo, fachada ativa, que é você ter comércio no térreo. A gente levou isso para outras áreas da cidade. A parte de você não fazer muro, de você priorizar afastamentos maiores, com calçadas mais largas, isso foi feito e a gente conseguiu adequar.
A gente conseguiu adequar para que você tivesse uma proporcionalidade de áreas. Então, em áreas maiores, você terá uma necessidade de preservação maior da área verde. Em áreas menores, você terá uma necessidade menor de preservação.
Muitas construções de pequeno porte estavam sendo construídas de maneira irregular, porque não se adequavam à lei, porque ela era igual para todos. A gente fez: “Não. Quem é maior tem que pagar mais, quem é menor tem que pagar menos”. A gente fez com equidade.
Claro que você não tá aqui pra agradar todo mundo, mas eu tenho convicção que se não fosse uma lei boa pra cidade, ela não teria passado como passou. Isso é fruto de muito diálogo, a gente priorizou Minha Casa Minha Vida, priorizou a reabilitação urbana do centro, a conta vai fechar de investir no centro da cidade. E vai ter troca de adicional construtivo. Quem fizer moradia no centro vai poder ganhar em prédios abandonados.
Centro da cidade
Mais de 80% deve estar concordando com isso (medidas como o Distrito Guararapes). Será que quem está me ouvindo prefere que eu me apegue a 10% que reclama de um lado, 10% que reclama do outro ou é melhor estar com 80% que quer ver as pessoas morando no centro? Eu não estou aqui para fazer o que sempre foi feito.
Dos 10 edifícios que podem passar por uma concessão no centro da cidade, quantos deles são públicos? São imóveis privados, são imóveis privados que a prefeitura vai comprar para dar um fim público. É o inverso do que privatizar. Agora, as pessoas querem fazer o debate de lacração.
Quem modelou esse projeto é o BNDES, é uma prioridade para o banco. A gente vai conseguir falar mais de mil moradias no centro, de imóveis que são privados, repito, nenhum desses imóveis é da Prefeitura do Recife.
Quem fez esse projeto foi Jaime Lerner, o maior urbanista do Brasil. O projeto foi feito e a gente abriu consulta pública. Cadê as sugestões na consulta? A maior parte é só contra a privatização. Se tiver uma alternativa melhor que viabilize as pessoas morarem no centro e deixar de ter um bocado de prédio abandonado, sou o primeiro a concordar.
Perfil de quem vai morar no centro
É um perfil com um gradiente diverso. É de moradia de interesse social, a faixa 1 do Minha Casa, Minha Vida, faixa 2, 3 e 4. Então, é Minha Casa Minha Vida.
Quando fala Minha Casa, Minha Vida, é da moradia que é dada pelo poder público ao que é comprado para uma renda familiar de R$ 12 mil. Então, é isso que a gente está fazendo para o centro da cidade.
E se as pessoas acham que levar minha casa, minha vida para o centro da cidade é privatizar o centro, eu sinceramente acho que está errado o debate.
Aumento do número de motos
O maior desafio é o transporte ainda vinculado à moto. E o principal é a responsabilidade das empresas, o que eu acredito deveria ter sido feito a nível nacional. As empresas que trabalham com isso, elas precisam ter um nível de responsabilidade maior com a saúde pública. Agora, em relação ao que acontece em alguns locais, você tem restrição nos grandes centros urbanos.
A gente tá fazendo o que compete a gente. Eu tive uma reunião com a 99, onde a gente vai fazer um protocolo equivalente com o que o Rio de Janeiro fez, que é você poder ter acesso a todos os dados e você conseguir notificar os infratores de moto pra não deixar se credenciar em plataformas. Isso é uma coisa.
Segundo ponto, com isso a gente está cruzando os dados para fazer as intervenções viárias nas áreas de maior sinistro. Então assim, onde é que eu vou priorizar uma requalificação de via, um novo ordenamento de fluxo, são nas áreas de maior sinistro.
Terceiro ponto, uma agenda de formação muito maior, que é o que se tem sido inclusive debate também nacional e as cidades estão intensificando isso, principalmente com as plataformas, de você ter uma agenda de formação de segurança viária maior.
O gargalo disso (aumento na quantidade de motos) não será na mobilidade. Isso tende a ser um grande problema de saúde pública. Por isso, tem que sentar a Saúde com a área de Transportes e buscar uma solução conjunta.
Números da gestão municipal
Recife foi a cidade que mais expandiu a atenção básica do Brasil entre as capitais nos últimos quatro anos. A gente duplicou a equipe de saúde da capital. Tinham 2.500 atendimentos por mês para crianças com TEA no Recife, hoje tem 15 mil.
Quando a gente olha o censo, por exemplo, da educação, a gente multiplicou por 35 vezes os alunos em creche para a escola que tem uma necessidade de educação especial inclusiva.
Entre entregues e execução, são sete novas áreas (parques) em cinco anos. Nunca se fez tanta obra de proteção de encostas como se fez agora. O (Programa) Parceria tinha 150 obras por ano que eram feitas; a gente faz 1.300 obras todos os anos.
Foram 20 anos sem uma ponte. Em cinco anos, a gente lançou cinco pontes - duas inauguradas, a terceira inaugura no início do próximo ano e as outras duas que vão ser inauguradas nos próximos anos.
Eu fiz 400 salas de creche. Em fevereiro de 2026, 18 mil crianças estarão fardadas entrando numa escola com cinco refeições por dia.