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Lula visita Pernambuco em palanque com Raquel Lyra e João Campos

Analistas apontam que presença dos gestores no palanque de Lula durante as agendas em Pernambuco nesta terça (2) é "teste de convivência"

Por Mariana de Sousa

Analistas apontam que presença dos gestores no palanque de Lula é "teste de convivência"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca em Pernambuco nesta terça-feira (02) para participar da inauguração da Barragem de Panelas II e anunciar a ampliação da Refinaria Abreu e Lima. A obra da barragem, prometida pelo ex-governador Eduardo Campos, estava paralisada há anos e hoje é concluída pela atual governadora Raquel Lyra (PSD). No mesmo palanque estará o prefeito do Recife, João Campos (PSB), filho de Eduardo e um provável adversário de Raquel na disputa pelo governo de Pernambuco em 2026.

A presença simultânea de Raquel e João ao lado de Lula chama a atenção de analistas políticos, que enxergam nesse gesto uma combinação de pragmatismo e estratégia e funciona como um teste de convivência. Para o cientista político Sandro Prado, “mede reações do eleitorado sobre a possibilidade de colaboração tácita entre adversários; ao mesmo tempo, é um cálculo de visibilidade, usando o palco presidencial para associar-se a entregas de alto impacto”.

O cientista político Bhreno Vieira completa: “No xadrez estadual, esse gesto permite comparar estilos, discursos e redes de apoio, e observar como cada um se comporta diante de um palanque compartilhado e de um ativo concreto de política pública”.

A participação de João Campos na entrega da barragem também possui forte carga simbólica ligada ao legado político da família. Segundo Prado, “obras iniciadas em gestões anteriores permitem que agentes políticos contemporâneos disputem a autoria da entrega. Dessa forma, João ganha exposição que pode ser politicamente útil”. Vieira ressalta que “ao participar da entrega, João Campos aciona simbolicamente a herança política da família, sinalizando continuidade de um projeto de desenvolvimento para a Mata Sul”.

Por outro lado, a conclusão da obra confere a Raquel Lyra um capital político importante, especialmente entre os beneficiários diretos. “Concluir obras paradas é um ativo eleitoral. A narrativa de entregar o que estava parado traduz competência”, afirma Prado. Vieira complementa: “Trata-se de uma obra planejada após uma tragédia climática, paralisada por uma década e retomada sob a gestão de Raquel, permitindo à governadora se apresentar como quem resolve o que foi deixado inacabado por governos anteriores”.

O gesto de união entre governo estadual, prefeitura da capital e governo federal tende a ser bem recebido pelo eleitorado mais pragmático. “Eleitores que percebem benefícios diretos tendem a valorizar a ação conjunta, independentemente de partido”, observa Prado. Vieira acrescenta que, na prática, “quem corta a fita costuma ter vantagem na disputa pela memória do eleitorado, mesmo que adversários lembrem que a obra nasceu em outro governo”.


LULA
Quanto ao papel de Lula, ambos os especialistas concordam que há ganhos claros para o presidente. Prado afirma que “ao aparecer com ambos, Lula reduz a eficácia de uma narrativa de oposição frontal entre os dois e se posiciona como mediador”. Vieira completa: “Ele amplia sua influência sobre o tabuleiro pernambucano, mantendo o PSB por perto, mas também testando pontes com a governadora do PSD. Ser o ‘fio condutor’ de palanques mistos aumenta seu poder de barganha em futuras negociações”.

“Em termos simbólicos, a cena é altamente polissêmica. Representa a capacidade do presidente Lula de agregar atores regionais distintos em torno da entrega de bens públicos, um gesto clássico de visibilidade presidencial que reduz custos de coordenação política e amplia a percepção de presença do estado”, avalia Prado.

“Você tem, no mesmo palanque, os dois nomes que hoje são percebidos como candidatos naturais ao governo de Pernambuco em 2026, dividindo o espaço com o principal distribuidor de recursos do país, que é o presidente da República. Isso comunica aos eleitores que, qualquer que seja o desfecho da disputa, o futuro governador precisará manter canais abertos com Brasília”, conclui Vieira.