Os "ventos" da política sopram favoráveis a Lula
Presidente soube aproveitar erros dos adversários e viu a sua popularidade crescer nas pesquisas. Especialistas afirmam que narrativas foram bem exploradas
Entre abril e novembro, o "vento” da política no Brasil mudou de direção para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Se em abril, Lula enfrentava 56% de desaprovação e apenas 41% de aprovação, segundo levantamento da Quaest. Sete meses depois, o presidente encerrou outubro, segundo a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, com a aprovação de seu governo em 51,2% e a desaprovação recuando para 48,1%.
O salto de 10 pontos percentuais nesse período, de acordo com especialistas, reflete uma conjunção de fatores internos e externos, de medidas econômicas de impacto direto aos brasileiros, até a forma como o governo soube transformar o tarifaço no discurso de defesa da soberania nacional.
Para o cientista político e professor da ESPM, Paulo Ramirez, o movimento favorável não acontece somente por méritos próprios do governo, mas são somados aos erros dos adversários.
“A avaliação do Lula sobe mais pelos defeitos da oposição do que pelos méritos do próprio governo. Quando o Congresso derrubou a proposta de ampliação do IOF, ficou evidente que os parlamentares agiram por interesse próprio e isso ajudou a reverter a imagem negativa do Planalto. A partir dali, o governo começou a reconquistar a opinião pública”, avalia Ramirez.
O professor lembra que a sequência de episódios ao longo do segundo semestre, como o impasse com os Estados Unidos após o anúncio do tarifaço de Donald Trump, o debate sobre a PEC da Blindagem e a rejeição ao PL da Anistia, criaram um ambiente onde o governo conseguiu se posicionar como defensor dos interesses nacionais, enquanto seus opositores apareciam do outro lado da discussão.
“A direita fez vários gols contra. O tarifaço prejudicou setores da economia e o governo respondeu com a narrativa do ‘Brasil Soberano’. Isso teve enorme ressonância na população, que passou a enxergar Lula como alguém que defende o país de interferências externas”, completa Ramirez.
O internacionalista e cientista político Antônio Henrique Lucena também destaca que medidas internas ajudaram a sustentar a melhora da imagem do governo.
“A isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil foi um gol que Lula marcou. É uma medida concreta, que atinge diretamente a classe média e traz alívio para uma faixa de renda que vinha sendo punida por uma tabela defasada há anos. Isso teve um impacto real na percepção econômica das pessoas”, explica Lucena.
Na visão do analista, o governo conseguiu minimizar os efeitos imediatos das sanções comerciais impostas pelos Estados Unidos, abrindo diálogo com a Casa Branca e evitando impactos maiores na economia brasileira.
“A negociação com Trump abriu um canal de entendimento e evitou que o impacto fosse maior. Ao mesmo tempo, a economia interna deu sinais de estabilidade, com inflação sob controle e aumento do consumo. Isso ajuda a reforçar a sensação de que o país está no rumo certo”, avalia.
Brasil Soberano
Para os dois especialistas, a narrativa do “Brasil Soberano” foi bem explorada pelo Planalto. Para Ramirez, Lula conseguiu transformar uma crise diplomática em capital político. “A política também é feita de símbolos. O governo soube tirar proveito de uma situação desfavorável, transformando o discurso de soberania em força eleitoral. Lembra muito uma ideia de Maquiavel, que o político dotado de capacidade de enxergar o jogo de força consegue transformar uma situação de desvantagem numa situação benéfica”, diz o professor da ESPM.
Lucena acrescenta que esse movimento comunicacional, ainda que pontual, reforçou a percepção de liderança firme e independente.
“O presidente Lula e o presidente Donald Trump, se reuniram para um encontro para dar abertura a esse processo. A negociação foi aberta, o diálogo está ocorrendo. Mas é ver se efetivamente isso vai se consolidar no futuro, observando todos esses movimentos”, comenta.