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'Wish: O Poder dos Desejos' não realiza os sonhos da Disney
Caracterização, músicas e enredo automatizados condenam ao esquecimento a animação que deveria celebrar os 100 anos do estúdio
Ano comemorativo do centenário da Disney, 2023 acabou representando uma baixa do ponto de vista criativo e em resultados de bilheteria. Entre todos os seus lançamentos malsucedidos, Wish: O Poder dos Desejos, a 62ª animação com o selo do estúdio, já em cartaz, é o que melhor demonstra o estado artístico do desenho infantil de grande orçamento e a sua dificuldade em atrair o público com histórias inéditas. Contraditoriamente, é um projeto que não só parece mais barato do que de fato foi como possui um enredo tão reciclado que até as crianças provavelmente irão perceber – ou, pelo menos, sentir.
Dirigido pelo veterano Chris Buck (de Tarzan e Frozen: Uma Aventura Congelante) em parceria com Fawn Veerasunthorn, Wish gira em torno do Reino das Rosas, dominado pelo Rei Magnífico, que recolhe e controla os desejos mais profundos de cada pessoa e arbitrariamente decide qual ele concederá e quais eles considera perigosos. A protagonista é a jovem Asha, de 17 anos, que faz um pedido poderoso o suficiente para atrair a força de uma estrela, tornando-se um obstáculo no governante tirânico e narcisista.
Já faz alguns anos que a Disney e a Pixar, outrora dominantes entre os conteúdos originais do segmento da animação, não conseguem emplacar novas franquias e dependem das continuações de clássicos para gerar engajamento. Desde Viva: A vida é uma festa, de 2017, que todas as tentativas de apresentar novos universos tiveram resultados muito aquém do esperado. Em Wish, no entanto, mal dá para enxergar essa tentativa.
Do ponto de vista de caracterização, o filme parece ter sido inteiramente concebido por via de inteligência artificial. O Reino das Rosas, por exemplo, se resume a um pátio desprovido das dimensões e texturas que se destacam nos projetos de peso do estúdio. Os personagens humanos que preenchem esse cenário não conferem qualquer volume que venha a dar vida àquele lugar e o pouco de floresta que é mostrado em volta é padronizado e sem qualquer imaginação.
A protagonista é uma combinação da personalidade de incontáveis outras e seu conflito principal não poderia ser mais banal. Com a desculpa de estar homenageando clássicos da Disney, Wish empilha citações no lugar de imprimir riqueza ao seu próprio mundo e aos seus próprios personagens, que parecem sempre versões pasteurizadas de outros melhores (incluindo os animais falantes). E inúmeras as canções, que pontuam todas as principais sequências do filme, são particularmente constrangedoras e improvisadas, seja na versão original, seja na dublagem em português.
Infelizmente, esse esquematismo não para na concepção e se estende por todo o resto da produção. O visual é, aparentemente, uma forma de se reconectar com o estilo do 2D que acabou sendo abandonado em meados dos anos 2000 devido ao 3D computadorizado, mas o resultado final soa menos como opção artística e mais como animação barata, mal acabada, sem textura ou movimento – injustificável para um filme de 200 milhões de dólares.
Para os muito pequenos, que não tiveram tempo de desenvolver repertório, é possível que Wish promova, sim, alguma diversão, ainda que dificilmente deixe marcas na memória. Mas, para uma produtora que já fez tantos sonhos ganharem cor e vida própria – e, principalmente, sempre foi capaz de incluir os adultos até nas brincadeira mais lúdicas –, o filme é outro passo rumo à completa automatização.