° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

'Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes' é o mais ambicioso da franquia

Sem Jennifer Lawrence, mas com belo elenco, saga distópica de sucesso retorna com história de origem do vilão Snow

Por Andre Guerra

Entre as várias tentativas de criar uma franquia de ficção científica infanto-juvenil no pós-Harry Potter, os quatro Jogos Vorazes, lançados entre 2012 e 2015, foram os únicos que conseguiram não apenas imensa repercussão na bilheteria (os dois primeiros ultrapassaram a marca dos $ 400 milhões só nos Estados Unidos), mas também consolidar uma estrela do calibre de Jennifer Lawrence, que se tornou à época uma das mais caras atrizes de Hollywood. Passada quase uma década de Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, último capítulo da heroína Katniss Everdeen, a série cinematográfica baseada nos livros de Suzanne Collins está de volta com Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, já em cartaz.
 
A trama, baseada no livro homônimo da mesma autora, é ambientada quase 70 anos antes dos eventos dos filmes anteriores e se passa durante a 10ª edição dos Jogos Vorazes – evento anual da nação futurista Panem no qual a Capital obriga os 12 distritos a enviarem tributos para lutarem até a morte em uma arena televisionada. Num período em que o propósito dos jogos ainda não parece tão bem definido e a audiência está em queda, Coriolanus Snow (Tom Blyth) – que se tornaria o tirano presidente interpretado por Donald Sutherland – é um aprendiz incumbido da mentoria da jovem Lucy Gray (Rachel Zegler), garota tributo selecionada do Distrito 12. A relação entre mentor e tributo, que já começa incomum nas ações ousadas de Snow para ajudar a jovem, se entrelaça e se intensifica para além dos jogos.

Dividido em três capítulos, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes é o Jogos Vorazes de maior duração, estruturalmente o mais ambicioso e, inevitavelmente, o mais trágico, tentando conciliar em 2h30 um arco complexo que alguns diriam caber melhor em uma minissérie. Narrar as origens de um vilão de forma que a plateia se envolva emocionalmente e identifique desde cedo suas contradições é uma façanha do diretor Francis Lawrence, no comando da saga desde Jogos Vorazes: Em Chamas. Não só competente na condução da ação e de domínio total da mitologia, Lawrence tem uma sobriedade invejável e consegue, desde o segundo filme, levar o material a sério dentro de todas as limitações de uma distopia adolescente.

Buscando uma identidade visual própria, a fotografia abusa da lente grande-angular, que deixa tudo em foco mesmo quando a câmera está muito próxima aos atores e, dessa forma, valoriza a direção de arte ainda mais do que nos outros filmes da série. Por acompanhar os bastidores dos jogos, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes consegue trabalhar em maior detalhe os temas (espetacularização da guerra, politização das performances, manipulação da mídia) e as caracterizações apropriadamente exageradas de Viola Davis, como a idealizadora, e de Jason Schwartzman, no papel do apresentador, são centrais no tom de sátira. Rosto pouco conhecido que deve chamar atenção a partir daqui, Tom Blyth carrega os conflitos de Snow – do orgulho, passando pelo romantismo, à raiva reprimida – com intensidade impressionante. Apesar de não possuir a gravidade de Jennifer Lawrence, Rachel Zegler tem a favor da personagem a graciosidade bastante oportuna de uma artista sem qualquer traquejo de batalha, além de belíssima voz.

Não-iniciados na franquia podem encontrar aqui um enredo autônomo e envolvente, visto que o filme não depende exclusivamente de referências para funcionar – o que em tempos de projetos com aspecto de subproduto é uma raridade. No entanto, sem dúvida é um programa bem mais engajante tanto no drama quanto na mitologia para quem assistiu os demais e estava na dúvida se esse universo tinha potencial de expansão. Sólido e arrojado, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes prova que sim.